UMA OUTRA NUVEM NEGRA, A OITAVA, PAIRA ENTRE WASHINGTON E PEQUIM E SOBRE TODO O MUNDO TAMBÉM

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

3. Criticar  a China significa criticar também  Mitt Romney

Dean Baker

Um dos temas em que o governador Romney, actual candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos  tem insistido agressivamente  nas suas declarações  de campanha é que ele, se ganhar, vai endurecer a posição americana contra a China . Nos seus discursos de campanha acusa a China  de vigarices onde  a mais importante é a de  “manipular ” o valor da sua moeda. Isso significa que a China tem sido deliberadamente estado a manter baixo o valor da sua moeda, ou seja, tem mantido o yuan subavaliado  contra o dólar.

Um yuan subavaliado face ao dólar  significa que o dólar é mais caro em termos da quantidade de yuans por dólar, o que faz com que os  produtos chineses se tornem mais baratos nos  Estados Unidos. É a mesma coisa como se tivéssemos a  China a subsidiar as suas exportações para os Estados Unidos, para aqui e à taxa de cãmbio “fabricada” as exportações chinesas fiquem mais baratas. Do outro lado, um dólar sobreavaliado torna os  produtos americanos mais caros quando colocados na China  o  que, por seu lado,  significa que os Chineses  vão comprar menos produtos americanos . É comparável  à China aplicar um imposto à entrada de produtos americanos na China .

Romney promete ser  o homem duro que irá mudar esta situação .  Nas  suas declarações  diz que vai considerar a China um país que manipula a sua taxa de câmbio  e que irá tomar medidas de represália.

O Presidente Obama tem respondido às acusações de Romney  sublinhando  que Romney tem pessoalmente ganho muito dinheiro nas suas relações com a China. Os dados  apontam que a Bain Capital, a antiga empresa de Romney, foi uma das pioneiras  na deslocalização de empregos  para a China.

Enquanto as pessoas vão ter que decidir por si próprios o que pensam acerca dos negócios  de Romney com a China, as declarações  de Obama ajudam  a clarificar as questões que se levantam nas  negociações  americanas  com a China. A realidade é que existem neste momento  muitas empresas americanas que estão a obter lucros fabulosos  a partir da  situação actual em que a China mantém a sua moeda subavaliada.

No topo dessa lista estão retalhistas como Wal-Mart, que investiram dinheiro em enormes quantidades na construção de cadeias de produção de baixos custos salariais na China, bem como noutros países em desenvolvimento. Estas cadeias globais de abastecimento a baixo custo são uma das principais fontes da sua vantagem competitiva sobre os outros retalhistas  nos estados Unidos. Eles não estarão muito preocupados em ver  esta vantagem corroída por um aumento de 20-30 por cento do valor do  yuan, que em grande parte ser transferida para preços mais elevados .

Na mesma linha os  grandes fabricantes como a General Electric mudaram muito da sua capacidade de produção para a China e para outros países em desenvolvimento. Estas empresas também não  vão estar muito preocupadas por ver  o dólar cair, fazendo com que os  bens que eles produzem no exterior fiquem  relativamente mais caros em dólares.

Se o presidente exigir que a China eleve  o valor da sua moeda, ele só não iria  entrar em conflito com o governo da China, como estaria também a entrar  em conflito com as empresas americanas que estão a lucrar  com a  situação do  dólar estar sobrevalorizado. Estas empresas poderiam admitir utilizar  todo o poder político ao seu dispor para evitar quaisquer etapas que possam diminuir o valor do dólar contra o yuan.

Na verdade, a pressão interna contra um dólar de valor mais baixo é ainda mais importante  do que a dos retalhistas  e fabricantes que beneficiam directamente com o dólar sobrevalorizado. Os Estados Unidos têm uma longa lista de exigências económicas que a apresentar ao governo da China.

Mais importante ainda  tem-se estado  a pressionar China para melhorar o acesso ao seu mercado interno para a indústria financeira. Isto é muito importante para empresas como Citigroup e J.P. Morgan. Também tem sido exigido  que China  tenha legislação mais forte e a aplique no que diz respeito  aos direitos sobre  patentes e aos direitos de autor. Uma maior protecção sobre as  patentes  é importante para as empresas farmacêuticas como a Pfizer e a Merck, enquanto uma  mais forte  protecção  sobre os  direitos de autor  poderia significar  milhares de milhões para a Disney, Time Warner e para o resto da indústria do entretenimento.

Se a questão da reavaliação do yuan for colocada  no topo da lista americana para as  negociações com a China, isso significaria que a esses outros objectivos se atribuiria uma menor  prioridade. Como uma superpotência, ninguém espera que a China simplesmente aceite  uma lista de exigências que lhes seja entregue  pelo Presidente dos EUA. Inevitavelmente, há um processo de negociação  e, se os Estados Unidos obtém concessões quanto ao valor da sua moeda, será quase certo que isso será feito  à custa de menos progresso   noutros itens da lista apresentada.

Isso significa que se Romney ou qualquer outro presidente quiser forçar a  China quanto ao valor da sua  moeda, não só iria ser forçado em  primeiro lugar a ultrapassar  a oposição das empresas que lucram directamente com o dólar sobrevalorizado, como  também teria que ultrapassar as  objecções de muitas grandes empresas  poderosas que querem que aos seus próprios problemas com a China  lhes seja dada prioridade.

Em suma, a questão não é realmente a de se ter  um presidente que esteja  disposto a enfrentar  e a ser muito duro com a China acusada de fazer batota,  o problema é  o de encontrar um presidente que esteja  disposto a enfrentar e a ser  duro com os interesses  das grandes empresas dos Estados Unidos.  Romney certamente pode culpar o Presidente Obama para não ter tomado uma posição  dura   contra as grandes empresas norte-americanas  no seu primeiro mandato. A questão é se existe  alguma razão que nos possa levar a acreditar que Romney seria capaz de uma qualquer posição mais forte que Obama sobre os  seus amigos e antigos parceiros nos  negócios .

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Dean Baker is the co-director of the Center for Economic and Policy Research (CEPR). He is the author of The End of Loser Liberalism: Making Markets Progressive. He also has a blog, “Beat the Press,” where he discusses the media’s coverage of economic issues.

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