ARTE E PROPAGANDA DAS DITADURAS PORTUGUESA E BRASILEIRA- por Carlos Loures

A música popular como veículo de propaganda – Uma Casa Portuguesa

 Os regimes autoritários tentam branquear os seus aspectos mais negativos projectando para o exterior das suas fronteiras imagens de beleza e de tranquilidade. A música tem sido um dos veículos preferidos, embora a intervenção mais eficaz contra as ditaduras, no plano cultural, seja também a da música. Veneno e contra-veneno.

 Muito se falou de uma eventual ligação de Amália Rodrigues à polícia política do Estado Novo. Tal ligação parece nunca ter existido e até se alega em defesa da cantora o apoio que deu a famílias de presos políticos. Parte dos seus amigos era gente desafecta ao regime, comunistas, socialistas, antifascistas. Mas há um facto inegável – o regime utilizou a fama, o prestígio internacional de Amália. Uma das suas interpretações que mais utilizadas foram como propaganda, foi Uma Casa Portuguesa, com música de Vasco Sequeira e letra de Reinaldo Ferreira, o filho do famoso Repórter X. Era ele um poeta do regime? Não era.. Tendo morrido em 1959, surge em 1960 a edição póstuma  dos seus poemas –  José Afonso pega em Menina dos Olhos Tristes e compõe uma canção de grande êxito. Receita para fazer um herói, é outro dos seus poemas de que o regime não gostou. Porém, diz-se, Salazar gostava muito de ouvir Amália em Uma Casa Portuguesa.

 A primeira gravação data de 1953. Mas seria nos anos 60 que a difusão da canção atingiria o seu auge. Num quadro de guerra em três frentes, emigração em massa, miséria generalizada, seria assim tão agradável, aprazível, uma casa portuguesa comum? Recebendo imagens de uma Europa desenvolvida, ao lado de um estado espanhol que, mau grado a ditadura franquista, evoluíra economicamente e estava uns passos adiante de Portugal, os portugueses sentir-se-iam contentes entre «quatro paredes caiadas e duas rosas no jardim»? O consumismo que, a seguir à Revolução de Abril se desencadeou, prova que não. Os portugueses sofriam a miséria, não a acarinhavam – ao diabo o «caldo verde verdinho a fumegar na panela». «Alegria da pobreza»? Que alegria pode haver na pobreza.?

Aquarela do Brasil

Já aqui contei como, numa noite chuvosa do Rio, Ary Barroso se sentou ao piano e compôs de um jacto a música e a letra de Aquarela do Brasil. Disse depois, que pretendera libertar o samba das tragédias da vida e das paixões sensuais que dominavam as letras da canção nacional. Mas tal como o fado é fatalismo e nostalgia, o samba mais autêntico é o que reflecte as tragédias da vida e o pulsar das paixões sensuais. Ary, conscientemente ou não, ajudou a branquear um regime iníquo, brutal e corrupto. A letra, também de Ary Barroso, canta um Brasil idílico, uma terra de sonho, onde o samba é rei. Será que, em 1939, o Brasil era assim tão agradável para ser pintado numa aguarela de cores tão vivas? Talvez o fosse para os ricos e para os turistas. E para os brasileiros?

Em 1939, quando eclodiu a II Guerra Mundial, governava o Brasil, Getúlio Vargas. Chegara ao poder em 1930 mercê de um golpe militar, pondo termo à “República Velha” e depondo o presidente Washington Luís. As instituições democráticas foram desmanteladas – dissolução do Congresso e das assembleias legislativas. Em 1932, rebentou em São Paulo uma revolução constitucionalista, derrotada pelas forças governamentais. Em 1934, a ditadura consolidou-se com a aprovação de uma nova Constituição. Getúlio foi eleito para um mandato de quatro anos. Em 1935, novas revoltas e movimentos insurrecionais organizados pelo Partido Comunista Brasileiro, foram reprimidos pelo Governo. Em 1937, pretextando a existência de uma conspiração comunista para tomar o poder, em 10 de Novembro, Getúlio desencadeou um golpe de Estado,. Era o Estado Novo (nome igual ao do regime corporativo de Salazar e, segundo tudo o indica, nele inspirado). Em 1 de Janeiro de 1938, Getúlio promulgou uma nova Constituição Até 1945, o país seria governado de forma autoritária, num regime parafascista. Em «Memórias do Cárcere», Graciliano Ramos (1892-1953) descreveu , em páginas de grande beleza e rigor, o que acontecia aos presos políticos – torturas, sevícias, quando não mesmo a morte. O povo, não falando numa minoria de privilegiados, continuava a viver numa pobreza lancinante, alimentado por discursos demagógicos de recorte justicialista. Foi neste quadro de miséria, dor e repressão que Ary Barroso (escreveu a sua «Aquarela do Brasil», o retrato falso de um país triturado pela repressão getulista. Foi, no entanto, um grande êxito. Na imaginação dos que viviam num mundo em guerra, a existência de um paraíso, era reconfortante.

O filme baseado no livro «1984» de George Orwell foi realizado em 1985, por Terry Gilliam, chamou-se «Brazil» e, como tema recorrente, soa a «Aquarela do Brasil». Já aqui enunciei o conceito de distopia na ficção literária e, particularmente, em «1984», de George Orwell Num mundo disfuncional, como é o que Orwell criou na sua obra, não haveria tema mais adequado para a banda sonora – uma realidade cruel e um retrato colorido, belo e falso dessa realidade. Foi exactamente assim que funcionou a música de Ary Barroso no Brasil de 1939. Um país onde imperava o terror de um governo fascista e a miséria endémica coberta pelo manto diáfano de inomináveis assimetrias sociais, aparecia transmutado em paraíso, naqueles anos em que o horror da guerra tornou apelativo o bilhete postal colorido que Ary Barroso compôs numa noite em que a chuva flagelava o Rio de Janeiro. Tal como em Portugal, com as casas portuguesas de luto por filhos mortos na guerra, ensombradas pela ausência dos que em França ou na Alemanha encontravam refúgio político ou trabalho melhor remunerado, em casas portuguesas varridas pelo sopro da tristeza, o fado fatalista e nostálgico era substituído por uma canção que promovia a pobreza a valor estimável.

“Dos pobres será o reino dos céus”, diz a Igreja católica. Já sabemos com quem os políticos aprenderam a fazer promessas que não têm a menor intenção de cumprir.

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