EM VIAGEM PELA TURQUIA – 34 – por António Gomes Marques

(Continuação)

A educação merece um pouco mais de desenvolvimento, tendo sofrido uma reforma profunda em 1924, passando a estar sob a responsabilidade do estado, com encerramento das escolas privadas e religiosas, terminando assim com o domínio da religião islâmica da educação, ficando as próprias escolas islâmicas dependentes do estado. Também as ordens religiosas foram encerradas.

Um sistema de educação pública como o que se conhecia no Ocidente não existia na Turquia. Ali, o sistema de educação comportava três tipos de escolas: local, a mais comum e importante, e a madrassa (ou madraçal ou madraça), que inicialmente queria significar qualquer escola secular ou religiosa –de qualquer religião, note-se-, pública ou privada, e que depois passou a significar, no Ocidente, escola religiosa islâmica ou escola corânica, que oferece dois tipos de estudo, hâfiz, memorização do Alcorão e âlim, que propicia o reconhecimento, pela comunidade, da pessoa erudita, sendo a base curricular destas escolas os cursos de língua árabe,tafsir (interpretação do Alcorão), charia (lei islâmica), hadith (narrações do profetaMaomé), mantiq (lógica) e história do Islão. (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Madraçal); a escola reformista do Tanzimat, chamada de idatî e sultanî e, por fim, o terceiro tipo de escola onde se ensinava em língua estrangeira, que eram as faculdades e escolas destinadas a algumas minorias. Mustafá Kemal impôs uma reforma educacional que tinha como um dos seus principais objectivos libertar a Turquia do dogma, tão ou mais importante para ele do que a guerra da independência. São palavras suas: “Hoje em dia, a nossa tarefa mais importante e mais produtiva é a [unificação e modernização da] educação nacional. Temos de ser bem-sucedidos nos assuntos da educação nacional, e seremos. A libertação de uma nação só pode ser atingida desta maneira. (fonte: Wikipédia).

Para a concretização deste objectivo, Mustafá Kemal convidou, para uma visita à Turquia, John Dewey, filósofo e pedagogo americano ¾reconhecido como um dos fundadores da escola filosófica de Pragmatismo, defensor de uma escola democrática que concebeu a partir do estudo aprofundado de Platão e Rousseau ¾, tornando-o seu conselheiro nesta importante reforma da educação.

                       

John Dewey

Um dos seus conselhos foi o de implantar um ensino compulsivo para ambos os sexos, só em si uma revolução!, proporcionando a criação de gerações alimentadas por o que John Dewey chamava «cultura pública». Para este pragmático pedagogo era de vital importância que o ensino não se limitasse à transmissão do conhecimento como algo acabado, sendo fundamental que o estudante pudesse, com os ensinamentos proporcionados pela escola, tornar-se num verdadeiro cidadão, uma pessoa de corpo inteiro devidamente integrado na sociedade, um agente de transformação.

 As escolas passaram a depender do Ministério respectivo, a quem tinham de submeter os currículos com vista a obter-se uma educação unificada.

O clero ficou subordinado a um departamento de questões religiosas, sendo, no entanto, possível o ensino da religião mas apenas nas escolas superiores. Depois da morte de Mustafá Kemal Atatürk, o ensino religioso passou a ser também possível nas escolas secundárias.

As consequências das reformas introduzidas não demoraram muitos anos a fazer-se sentir, como mostra, nomeadamente, um facto de importância verdadeiramente colossal que foi a eleição, em 1935, de 18 deputadas para o parlamento turco, quando tal ainda não seria possível em muitos países europeus dado que, nestes países ditos civilizados, as mulheres não tinham, nessa altura, direito de voto, não sendo despiciendo lembrar que se tratava então de um país em que os seus cidadãos há bem pouco tempo não passavam de súbditos do sultão.

(v. http://pt.wikipedia.org/wiki/História da Turquia)

A unanimidade, apesar da forte votação no partido único, não foi total, nomeadamente a que foi impulsionada por um rico chefe tribal, Said Piran, de origem curda, que procurou apoiar-se nos usos e costumes religiosos, começando por mostrar a sua oposição à abolição do califado e da poligamia, ao novo código civil e ao casamento civil obrigatório.

Com base nesta tentativa de restaurar a ordem antiga, conseguiu reunir forças suficientes para controlarem algumas cidades, como Elaziğ e Diyarbakir, tendo sido tal revolta facilmente dominada pelo novo poder instituído.

Chegou mesmo a fundar-se, em 17 de Novembro de 1924, um outro partido, o Partido Republicano Progressista, liberal, de tendência conservadora, em clara oposição ao chamado socialismo estatal do Partido Republicano do Povo, oposição esta que não deixava de estar ligada à introdução das reformas kemalistas, nomeadamente a transformação cultural da Turquia, embora não deixassem de apoiar o secularismo, reformas que consideravam vir ao encontro das «necessidades dos tempos»; opunham-se, sobretudo, ao «monopólio do poder exercido por Mustafá Kemal através do seu chefe do governo Ismet». Este novo partido acabou por dissolver-se em 3 de Junho de 1925, não chegando a ter um ano de vida. (v. Andrew Mango, o. c., pág. 418 e seg.)

A própria sátira política também teve os seus cultores, como pode ver-se na gravura à esquerda que mostra o líder do partido único, Mustafá Kemal, a escolher os seus candidatos para o parlamento turco.

(Continua)

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