“QUEM SE DESTROI NÃO SE CANSA” – provérbio surrealista por clara castilho

Para finalizar a transcrição que temos vindo a fazer do CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO SURREALISTA – LISBOA, JANEIRO DE 1949 , aqui fica o texto de António Pedro.

 POSTFÁCIO A UMA ACTUAÇÃO COLECTIVA

                         “QUEM SE DESTROI NÃO SE CANSA” (provérbio surrealista)

 Toda a experiência surrealista é, antes de mais, um esforço para a conquista da liberdade, e, ao matar a sua sede, não cura da sabedoria dos outros a ância de cada um. O monstrozinho que em nós se fabricou, cobrindo-nos a carne, tem maneiras próprias de colar os enfeites que lhe agradam. O acto de libertação será exclusivamente individual para quem se queira nú e não aspire apenas à substituição dum modelo por outro modelo, duma regra por outra regra de vestir. Ética social, actividade mística, pátrio poder, escola, os hábitos que se não sabem, os reflexos condicionados por esses hábitos, adquiridos ou herdados, a literatura, tando mêdo de tudo como uma espécie de pele – o sarro de todas essas coisas acumuladas, não pode limpar-se senão abrindo a válvula daquele automatismo inicial que continua a ser, até melhor encontro, a única portra libertadora.

Usando o processo de desintoxicação, ao escapar das contrafracções impostas, tanto a satifação é necessária que logo aparece a alegria. Mas a alegria não é exercício de onanistas e precisa ecos para cantar. Chega-se assim a um segundo estágio.

“Le Groupe Surréaliste de Lisbonne”,  de António Pedro (1948)

Proclamando a omnipotência do desejo e abrindo a fronteira das restrições convencionais, sabemo-nos capazes da própria pessoa, o que não é pequeno achado, e, quase sem querer, o nosso mundo particular estende-se, como num alargamento de raízes, até ao que há de comum e recalcado em todos os homens. É assim, pela total individualização, que se nos torn indispensável uma actividade colectiva.

O homem não é bicho solitário nem maquinismo de relojoaria. Os pássaros não pousam nas nuvens e, para funcionar activamente numa colectividade, nem nos serve ser fala-sós, nem querermos abafar a personalidade, aceitando que, desse sacrifício, alguma coisa se ganhe que não seja inútil e cominatório. Liberto, o surrealista quer-se ligado aos outros, porque os não teme e se não teme. Tenta-o assim o mais perigoso dos exercícios: anular-se pelo excesso de egocentria, achar em si o que em todos se equivale e confundir essa equivalência, não pela amputação do que lhe é próprio mas, ao contrário, pela desencantação do que, por ser extremamente seu, acaba também por pertencer a todos.

Todos os pragmatismos pretendem catalizar uma parte apenas de cada um para a actividade global, estabelecendo na consciência um desnível equivalente ao que, no plano do social, pertenceria ao indivíduo e pertenceria à colectividade. Nasce daqui a noção monstruosa do “dever”, e nascem daqui os conceitos de “pecado” e de “virtude”. O homem seria, deste modo, um campo de batalha donde sai sempre vencido, o mundo um vale de lágrimas.

É contra isto que nos erguemos. O que em nós vive está morrendo – sabêmo-lo sem nenhuma espécie de pessimismo existencialista. Assistimos a esse contínuo recomeçar com uma alegria enorme, e, quando rimos de todas as noções de absoluto, o gozo deve ouvir-se longe… Mas, tal como nos aparece, cada homem é um ser semelhante ao seu semelhante. A maior desigualdade está no fato, e esse fato não é apenas a carga que impõem as condições sociais. Há em cada um de nós uma vestimenta ade convenções que cobre a equivalência de todas as nudezes. Proclamamos, pelo exercício da liberdade individual, a primeira possibilidade dum acto colectivo que não seja constrangedor.

Tal é a originalidade da experiência que temos levado a efeito, com maior ou menor felicidade de resultados por ora, mas, desde já, com uma enorme e benéfica excitação.

Lisboa, Abril de 48.

 ANTÓNIO PEDRO

Leave a Reply