DIÁRIO DE RUTH MAIER – 3 – por Manuela Degerine

Terceira parte: solidão

A princípio os Strom viajam com Ruth pela Noruega e, passado o entusiasmo inicial, durante quase quatro anos, quando ela não tiver onde comer nem dormir, hão-de acolhê-la durante períodos mais ou menos longos, com uma calma fria ou um pânico crescente; correndo sem dúvida alguns riscos.

No ano letivo de 1939-1940 Ruth pode por fim inscrever-se no liceu Frogner de Oslo. A propaganda nazi intensificou-se, um colega escreve-lhe na carteira: “Não queremos aqui judeus”. Os alunos mostram-se hostis, não lhe falam, troçam dela, acham-na esquisita – quem o não seria em tais circunstâncias? Pobre, isolada, perseguida, estrangeira… Desprezada. Ruth fecha-se na casa de banho durante os intervalos. Embora evite dar notícias inquietantes, confia à irmã: ” O ambiente na escola é… para dizer as coisas com moderação… nojento! A palavra “solidariedade” não existe. Segredinhos? Nem pensar! Quando me meto na conversa, tentando integrar-me, os outros põem-se aos berros (e não só comigo). Quando me demoro na sala, embora seja obrigatório ir para o pátio, os colegas gritam que é proibido.”

Ruth refugia-se na biblioteca da universidade. Lê Trotsky. Lê Schnitzler. Dói-lhe a falta da família, de amigos, de afeição. Continua a olhar-se no espelho e a sofrer por não ter namorado. É uma rapariga de 19 anos num país estrangeiro, sem amor nem dinheiro nem futuro, cercada pelo nazismo; as notícias que lê – cada dia – nos jornais nada de bom auguram. A invasão da Noruega no dia 9 de abril de 1940 interrompe a correspondência com a família. No dia 10 de maio Ruth escreve no diário: “Choro, não paro de chorar… penso em Munche [a mãe], em Dittl [a irmã]. Uma ideia atravessa-me o cérebro: voltarei a ver a avó? (…) Quando choro abro a boca toda para não gritar. Tudo faz sofrer tanto…” E no dia 18 de maio: “Meu Deus! Como me tornei modesta. Eu que sonhei com missões à minha espera, com serviços a prestar à humanidade… Que o trabalho me preencheria a vida. Ah! Agora não desejo mais do que um lar… Quatro paredes, alguns livros, um pouco de céu através de janela e… entes queridos com quem queira viver.” Mais adiante, no mesmo dia: “A primavera é horrível quando estamos sós e as noites são tão claras.”

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