EM VIAGEM PELA TURQUIA – 37 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Mas o «autoritarismo iluminado», como foi classificado o sistema de Mustafá Kemal, nunca impediu uma grande liberdade de actuação aos cidadãos turcos.

Esse «autoritarismo iluminado» foi fundamental para o desenvolvimento da música, incluindo a música clássica ocidental, não esquecendo a ópera e o balé; das artes visuais e plásticas, fomentando o aparecimento da forma humana na arte, contrariando assim a política otomana que considerava idolatria tal forma de arte. A criação de museus por todo o país é também incentivada, assim como a arquitectura de influência ocidental é apoiada.

0A razão estava do lado de Mustafá Kemal ao implantar a sua política cultural, como o aumento do público o vem a demonstrar, como o incremento das publicações impressas o confirma e, de referenciar, dá-se também início a uma indústria cinematográfica. O próprio Mustafá Kemal se deixa fotografar na biblioteca da Residência Presidencial de Çankaya, na nova capital Ancara, como na fotografia se mostra:

Em 19 de Fevereiro de 1932 inicia-se a inauguração das chamadas «Casas do Povo», que conjuntamente com as «Salas do Povo», proporcionam um grande acesso às actividades culturais desenvolvidas pelo novo regime.

Mas Mustafá Kemal conhecia o seu povo e não descurou outros aspectos fundamentais para assegurar o apoio de que necessitava, mandando traduzir o Alcorão para turco, comissionada por ele próprio, o que aconteceu também em 1932, tradução essa que foi lida em público, concretizando assim mais um dos seus objectivos, talvez o mais importante a nível religioso, proporcionando ao mesmo tempo a divulgação do idioma nacional, sendo a sua vontade “ensinar religião em turco para o povo turco, que vinha a praticar o islão sem o compreender por séculos a fio.”

Como naturalmente o líder turco esperava, a oposição dos sectores mais religiosos e dos fundamentalistas, fez-se sentir de imediato, tendo estes o conforto do apoio do mundo islâmico para o qual os trechos corânicos e as orações deveriam ser ditos na língua árabe. Tão forte foi essa oposição que só em 1935 foi possível a edição da tradução na língua nacional turca. Fosse Mustafá Kemal o tal ditador de que alguns historiadores falam e a tradução de que vimos falando teria demorado todos estes anos até ser publicada?

1.ª edição do Alcorão em turco (1935)

Mas a transformação da Turquia no país moderno, sem as costas voltadas para o Ocidente, não dependia apenas da implantação de todas as políticas já por nós afloradas. Havia também que assegurar que a Turquia estaria na primeira linha na defesa da paz, no país e no Mundo. Se, durante a chamada Guerra da Independência Turca, Mustafá Kemal nunca exitou em usar a força militar, após assegurada esta independência, procurou resolver sempre todas as questões de política externa pela via pacífica.

Foi na implantação desta política que estabeleceu ralações cordiais com a União Soviética, embora sempre afirmando que o comunismo era «uma questão social. Condições sociais e tradições religiosas e nacionais do nosso país confirmam a opinião de que o comunismo russo não pode ser aplicado na Turquia» (v. Wikipédia).

Como nos parece evidente, a amizade entre a Turquia e a União Soviética estava intimamente ligada à luta contra o Ocidente e, em particular, contra o Império Britânico. No entanto, embora consciente desta inimizade, Mustafá Kemal não deixou de tentar aproximar-se do Ocidente, o que terá levado o Presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, a dizer que «o líder mundial mais valioso e interessante hoje em dia não vive na Europa, mas sim além dos Estreitos, em Ancara, e é o presidente da República Turca, Mustafá Kemal», declaração esta divulgada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética, Maxim Litvinov.

                                                                                    Mustafá Kemal com o político soviético Kliment Voroshilov

De referir também que, a primeira vez que um alto dirigente do Partido Comunista e do Governo da União Soviética se deslocou ao estrangeiro aconteceu na comemoração dos dez anos da República da Turquia, que teve a presença do Ministro da Guerra e membro do Politburo, Kliment Voroshilov, acedendo a um convite do próprio Mustafá Kemal.

(Continua)

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