“A ESCOLA PORTUGUESA ESTÁ ESCLEROSADA, ESTÁ DESFASADA DO TEMPO HISTÓRICO”- SÉRGIO NIZA EM ENTREVISTA * por clara Castilho

“Retrato da escola portuguesa: professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. Não só da escola portuguesa, mas da generalidade das escolas dos países ocidentais. Devido à forma de organização do trabalho. A estrutura do ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do séc, XVII e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do séc. XX que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz as perguntas, escolhe um aluno para responder e avalia. O trabalho substancial é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não comunicação em que o professor usa mais de dois terços do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo. Poderá alguma criança ou jovem suportar isso?

 

Hoje, graças à investigação, sabemos que se aprende dialogando, falando e escrevendo o conhecimento científico e cultural que se aprende na escola. Devemos contar com a inteligência, os saberes e a colaboração dos alunos e os currículos não devem ser um segredo, devem ser eles a geri-los em conjunto com os professores.

(..) Nenhuma outra organização humana resistiu a tanta história e a tanta mudança como a escola, que funciona do mesmo modo há séculos.

(..) Esta ideia de transformar a escola, que deve ser um instrumento vivo de cultura, numa empresa, é uma ilusão perigosa.

(..) A escola não perde tempo a fazer aprender. Cada vez mais, o que se sugere aos professores é que debitem a matéria, que vigiem e que penalizem os alunos que não aprendem por si ou com as famílias procedendo à sua retenção”

“(…) As crianças e jovens que têm dificuldades vão continuar a serem excluídos. Da escola e da sociedade… essas crianças vão continuar  a ser tratadas como portugueses de segunda. (…) Os professores foram ensinados de determinada maneira e tendem a replicar o modelo que conhecem.

 

(…)Temos que substituir as soluções únicas da velha escola tradicional, reforçada agora por soluções de empobrecimento cultural inspiradas na América dos anos 1980, por uma gestão comparticipada dos programas, pela entreajuda entre os alunos, pela individualização de contratos de aprendizagem e uma forte colaboração que forme para a cidadania democrática.

(…) Chegámos a um ponto em que até os bons professores que se mantém no ensino temem ficar desempregados e o país corre o risco de que se tornem nuns cordeirinhos, que obedecem cegamente às manipulações  da administração. Os professores estão muito ansiosos, já não querem gastar tempo a falar de estratégias de ensino que melhorem as aprendizagens porque também   estão obcecados com a avaliação. A que têm que fazer constantemente aos alunos e a avaliação final de ciclo, externa às escolas. Além disso, eles também vão ser examinados através dos resultados dos alunos, por via da avaliação do desempenho. É um inferno ser professor neste contexto. O trabalho dos professores é pago por nós e deve ser avaliado. Mas uma coisa é avaliar o conjunto do trabalho do professor, incluindo a sua atitude no seio de uma equipa pedagógica, outra é avaliar o professor como se faz com qualquer outro funcionário público. É que a natureza do trabalho dos professores é muito particular por ser crucial para o desenvolvimento humano, a preservação e a renovação da herança cultural.”

 *Entrevista ao Notícias Magazine de Outubro de 2012

Sérgio Niza é Professor do Instituto Universitário – ISPA e Director do Centro de Formação Cooperada do Movimento da Escola Moderna e da Revista «Escola Moderna», é membro cooptado pelo Conselho Nacional de Educação.

Recentemente foi publicada a obra “Sérgio Niza – escritos sobre educação”, com organização de António Nóvoa, Francisco Marcelino e Jorge Ramos do Ó, pelo Movimento da Escola Moderna e Edições tinta-da-china, Lisboa.

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