SOBRE “NASCER PARA A VIDA” – TEXTO DE ADÃO CRUZ – por Paulo Rato

Nada do que é humano é linear, simples e redutível a um único ponto de vista, por mais “profundidade de campo” e “dimensão panorâmica” que assuma, como é o caso deste excelente texto do Adão que, mais do que apresentar soluções, equaciona questões. As próprias palavras raramente têm uma acepção única, indiscutível e perfeitamente delimitada. E também não carregam, em si mesmas, qualquer culpa, melhor assacada – se necessário – a quem as usa. Esta ressalva foca-se apenas numa parte do texto do Adão e do “acrescento” da Augusta, não no todo e muito menos no “espírito de abrangência” que neles se procura.

Não tenho tantas reservas como as expressas, quanto à palavra “tolerância”. É que, na minha opinião, tolerância não se confunde com “aceitação”, já que se pode tolerar e não aceitar, como aceitar não tolerando.

Objectivamente, não é meu igual quem se caracteriza por uma ignorância que se afasta demasiado da minha acumulação cultural (expressão mais rigorosa que “de conhecimentos”) ou, no polo oposto, por uma sabedoria que já não alcançarei: cabe-me “tolerar” a existência de ambos, procurar as razões que, em grande parte, justificam a, infelizmente, tão alargada área da ignorância, e situar os mais sábios (que não confundo com “eruditos”, que podem ser vazios de conteúdo em tudo o que ultrapasse essa erudição), tendo em conta que, por maior admiração que me suscitem, não deixam de permanecer sujeitos à condição humana, tão frágil nos seus fundamentos, cruzamento indecifrável de uma imensidão de combinações genéticas, de resultantes tão frequentemente imprevisíveis.

Por outro lado, só aparentemente as características do neo-liberalismo, que está a tomar conta das sociedades “modernas” e que também faz parte de uma “cultura” que – como vemos – nada tem de uniforme, se integram na mesma “cultura” a que eu pertenço, como pertencem o Adão e a Augusta: os seus valores denegam, na prática, os valores civilizacionais que reivindicamos como nossos, isto é, do que tendemos a crismar de “civilização ocidental”, de que é património fundamental um cânone, dolorosamente gerado pelo cruzamento entre os ditames do Iluminismo e a violência concreta da Revolução Francesa que, desembocando não mais que no triunfo da burguesia ascendente, vem a integrar algo de tão basilar como a Declaração Universal dos Direitos do Homem e tudo o que, no sentido de esclarecer o conteúdo intrínseco do que eles enunciam (por causa, justamente, da tal flutuação de sentidos das palavras), de mais justo e rigoroso se lhes vem acrescentando.

Por tudo isto, o debate sobre o “multiculturalismo” está bem longe de se aproximar de um patamar alargado de consenso (aquele que não vale só por si, como refere o Adão). Cada “cultura” é feita de avanços e recuos civilizacionais: quem se lembra da série televisiva sobre o célebre chefe zulu Tchaka, recordará que o protagonista “revolucionou” o método que algumas tribos haviam encontrado para resolver os conflitos, transformando algo parecido com uma exibição ou jogo – em que raramente alguém ficava ferido – numa “guerra a sério”; muitos retiveram, decerto, a valia da criatividade guerreira de Tchaka (considerado um herói do anti-colonialismo), que proporcionou uma forte oposição ao avanço e instalação do colonialismo europeu… Mas, civilizacionalmente, qual era o método de resolução de conflitos mais avançado, onde estava a maior sabedoria e clarividência: em Tchaka ou na civilização que produzira o tal método não-violento?

Considero um dado adquirido a aceitação, a nível geral, das culturas diferentes da minha como estando numa mesma “horizontalidade”: o reconhecimento, com pouco mais de um século, da existência de uma Arte africana e do valor da Arte oriental (e, depois, das dos povos indígenas americanos, dizimados pelo “homem branco”, em nome do “progresso”… e do “Senhor”, claro!), bem como a sua interpenetração crescente com a Arte ocidental, de raiz europeia, é um exemplo reconhecível de que outra atitude é irracional. Porém, o ciclo de avanços e recuos civilizacionais que, por vezes, desemboca em usos intoleráveis e inaceitáveis, à luz do referido cânone e do que de mais justo e humanista foram produzindo civilizações e filosofias, conduz-nos a enfrentar o desafio de proclamar o anacronismo e a desumanidade desses usos, não raras vezes defendidos como “tradicionais e culturais”.

Uma atitude demasiado “compreensiva e horizontal” em relação, por exemplo, ao estatuto “concedido” às mulheres pelos machos virilóides dessas “culturas” – como é o caso de várias das ramificações do Islamismo ou, mesmo (convém não esquecer!) das comunidades ciganas – significaria respeitar o que deve ser energicamente combatido, sem tergiversações (e é, para mim, irrelevante que algumas mulheres se juntem, na ignorância e no fanatismo, às posições machistas, o que a nossa civilização tão bem conhece sem, por isso, lhe reconhecer validade). Até porque, se não o fizermos, as “novas” correntes ideológicas “ocidentais” (de facto, o culminar do percurso do capitalismo, antes do “cul-de-sac” final), com a preciosa ajuda da linha oficial da “santa madre” Igreja Católica Apostólica Romana e outras fiéis depositárias das posições mais reaccionárias da religião cristã, se encarregarão de recuperar o “lugar tradicional” da mulher, perante cuja liberdade e igualdade plena de direitos os tais virilódes milenarmente se acobardam até ao mais insensato e vil dos terrores. Já tivemos exemplos recentes desta “convergência”, em manifestações conjuntas “de protesto” de crentes monoteístas, por pretensas ofensas “blasfemas” a Maomé, manifestações que foram, na realidade, contra a liberdade de expressão e a Democracia, procurando, como é habitual, impor as ideias e práticas desses “crentes” a toda a sociedade, isto é, incluindo quem não pensa nem “crê” como eles, sem qualquer tolerância ou sombra de aceitação do outro!

1 Comment

  1. Pois, na minha opinião, tolerar também não se confunde com aceitar. Acho mesmo é que tolerar encerra já o propósito de não aceitar. Considero-o, para além da atitude de superioridade que pressupõe em relação ao outro, um comportamento um pouco cobarde. É como quem diz lá no seu interior: – “fala pr’á aí!”. Aceitar sem tolerar é-me muito difícil de imaginar. Confunde-se mais com hipocrisia.
    Também acho que reconhecer a diferença de grau em que várias pessoas se encontram relativamente a experiências várias, seja experiências vivenciais, de saber, culturais, daquilo a que apelidas de “acumulação cultural”, etc., etc., etc., é apenas a percepção dum facto, não tem nada a ver com tolerância. Não gosto de interpretar o pensamento dos outros, mas creio haver na “tua” tolerância algo semelhante a empatia que me parece espelhar melhor o conteúdo do teu discurso.
    Lê lá este texto que escrevi há pouco onde, embora menos elaborado do que a tua exposição, creio ter conseguido explicar o que penso sobre essa questão da diferença de acumulação cultural.
    http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/18/falar-de-todo-o-jeito-augusta-clara/
    Um abraço

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