EDITORIAL: A REELEIÇÂO DE OBAMA NÃO VAI TRAZER NADA DE NOVO À POLÍTICA NORTE-AMERICANA

 

Alguns acham que a reeleição de Barack Obama é um acontecimento promissor. Leiam a reportagem de Jonathan Freedland, no Guardian. Sob o título A Odisseia de Barack Obama continua, classifica a caminhada de Obama como improvável (refere-se obviamente à sua carreira política), e que ele fez história por ser o primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos, e também por ter conseguido ser reeleito, apesar dos ataques dos republicanos e da direita norte-americana em geral. Freedland assinala também que, antes de Obama, apenas três presidentes democratas tinham conseguido ser reeleitos desde 1900: Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt e Bill Clinton.

Freedland assinala também que, para além dos ataques furiosos da direita, Obama teve de enfrentar a situação económica e a taxa de desemprego elevada. Não se esquece de referir, é verdade, que os republicanos preconizam medidas muito mais severas contra os imigrantes, o que fez perder votos a Romney entre os hispânicos, e não só, e os disparates violentíssimos de vários responsáveis do partido sobre o direito a abortar por parte de mulheres vítimas de violação, o que afastou muito eleitorado feminino. Não refere, a propósito, estimativas que indicam que Hilary Clinton teria ganho a Romney por uma margem bastante superior.

Não se pode negar a Obama qualidades políticas. Contudo parece que o seu forte não será a firmeza nas suas convicções. Recordem-se, em política internacional, as promessas que fez, em 2008, sobre Guantánamo, a situação dos palestinianos, ou a presença das tropas americanas no estrangeiro. E há um consenso generalizado sobre que as ordens (chamam-lhe autorização) para matar Bin Laden foram dadas para se granjear uma aura de duro. Os comentadores de esquerda (classificação que é difícil atribuir a Obama) prevêem que ele vai continuar a favorecer a alta finança, a apertar os sindicatos, apesar de os democratas, teoricamente,  os apoiarem, a ser o aliado  incondicional de Israel e a esquecer os palestinianos, evitar as questões relacionadas com o meio ambiente, enfim fugir a tudo que lhe possa acarretar choques graves com o establishment.  Terá problemas com a maioria republicana na Câmara dos Representantes, é verdade. Mas não parece que assim consiga atrair a esquerda, dentro e fora do partido democrata.

O presidente reeleito terá vencido o seu rival na câmara dos grandes eleitores, e no voto popular. Contudo nunca é demais insistir nas grandes limitações do sistema eleitoral americano. Por exemplo perto de 120 milhões de eleitores votaram nos candidatos. Contudo os EUA têm mais de 300 milhões de habitantes. Isto quer dizer que quase outros tantos americanos em idade de votar não o fizeram. Porquê? Por outro lado, não é verdade que o sistema dos grandes eleitores serve para eternizar o predomínio dos dois grandes partidos, republicano e democrata? Cujas políticas acabam por ser muito parecidas em muitos pontos essenciais, como se pode concluir pela análise da história recente do país. Onde está a liberdade de opção?

1 Comment

  1. Na política externa – querida imperial – não se tem visto, ao longo dos tempos, Obama inclusive, diferença de relevo entre “elefantes” e “burros”; já na política interna e nas matérias ditas de “costume” não tem sido indiferente ter uns ou outros.

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