1910 – Salazar em Coimbra
1910 É um ano de grandes decisões. Salazar resolve definitivamente não ser padre e, em vez disso, ir tirar o curso de Direito para Coimbra.
A sua notoriedade como articulista e conferencista católico não pára de aumentar. Discursa em 23 de Abril de 1910 no púlpito da igreja do Vimieiro e em Agosto, em Viseu, no Colégio da Via Sacra onde fala sobre «Educação e Mocidade».
Defendia que «A Reforma» era a necessidade urgente, mas em primeiro lugar, antes de tudo, reformar o homem. Remodelar a inteligência da juventude, acabando de uma vez para sempre com os meninos prodígios que despejam, incessantemente, mas inconscientemente, o que aprenderam na escola.
António de Oliveira Salazar chega a Coimbra em plena revolução. Apesar da juventude dos seus 21 anos, Salazar dispõem já, nessa data, de um considerável currículo de actividades políticas, principalmente nos círculos católicos onde aplica o seu saber e assume algumas posições de relevo público.
Em Coimbra começa desde logo a envolver-se na agitação política que se vivia na Academia. Quando Salazar se matriculou na Universidade de Coimbra a vida portuguesa atravessava mais uma das suas grandes crises. A situação não era particularmente boa para os sectores religiosos onde se integrava o novo estudante ex-seminarista.
A personalidade e as convicções de Salazar formavam-se entre uma Monarquia Constitucional agonizante e a Primeira República que hostilizava sectariamente os adversários.
Salazar vai ter oportunidade de lutar pelas suas ideias através de jornais como A Folha, onde já colaborara anteriormente.
Dias depois de ser implantada a República em Portugal, A Folha, lançava as primeiras críticas ao novo regime. O jornal apresentava uma lista de algumas instituições ligadas à Igreja que estariam na iminência de serem visitadas e encerradas pelos republicanos. As congregações religiosas começavam a ser banidas de Portugal que também iria começar a ter um ensino laico, isto é, sem quaisquer referências – nos livros escolares – a Deus ou à doutrina católica. Os clérigos, em especial os jesuítas, começavam a ser «[…] expulsos da república, depois de lhes terem sido assaltadas as residências, de os prenderem com mais ou menos violência, e nem se lhes respeitando o direito de propriedade, pois lhes vão ser confiscados os bens». O jornal não compreendia como era possível fazer-se isso num País de milhões de católicos, a quem pedia para se unirem e lutarem.
Sensivelmente um mês depois da proclamação, a República era analisada pela Folha: «[…] a obra do governo provisório tem sido uma obra estreita e sectária, imposta pelas lojas [maçonaria] e centros revolucionários [carbonária]. […] O governo provisório está-se desacreditando pela sua incompetência».
Havia um natural desconforto entre a população, que A Folha aproveitava para fazer a sua propaganda anti-republicana e «[…] afirmar a sua dedicação e fidelidade à Igreja».
Numa altura em que a República se instalava por todo o País as investidas perpetradas contra a Igreja Católica eram cada vez mais frequentes. A Folha apresentou um caso em que um grupo de republicanos de Coimbra entrou nas instalações do Centro Monárquico (que mandara rezar uma missa pelo aniversário da morte de D. Carlos e do príncipe Luís Filipe) e do Centro de Democracia Cristã (onde iria ser inaugurado o retrato do Papa Pio X), destruindo todo o seu interior, «[…] furtando objectos, e lançando fogo aos destroços». Perante este cenário de destruição «a autoridade manteve-se impassível, e a polícia viu com indiferença os assaltantes, que nem sequer foram presos…». Por diversas vezes, questionou o Governo Provisório se essa era a tal liberdade que proclamavam. A Folha considerava que não.
As perseguições religiosas, durante a primeira semana de governo republicano, fazem com que nas prisões de Lisboa estejam encarcerados 128 padres e 233 freiras que aguardam a execução da ordem de expulsão, decorrente do diploma de 8 de Outubro. Os jesuítas, que estavam detidos no forte de Caxias e na prisão do Limoeiro, embarcaram no Cais das Colunas, a bordo do vapor «Burgmeister», que os conduziu à Holanda, onde alguns deles viriam a fixar residência.
A 9 Outubro, às 10 da noite, na estação do Cacém, foi preso o patriarca resignatário de Lisboa, cardeal D. José Netto, sendo conduzido por França Borges para a estação do Rossio e daí para o Quartel-General. O cardeal, ao ser detido, invocou as suas imunidades parlamentares de Par do Reino. Cerca das três horas da madrugada, na sala do Ministério da Guerra, onde se têm reunido os Conselhos de Ministros do Governo Provisório, Afonso Costa informa a imprensa que se vai deslocar ao quartel-general, acompanhado pelo seu secretário Germano Martins, para interrogar, «como delegado do governo», o cardeal Netto. Transcreve-se o interrogatório, de acordo com a versão publicada no jornal republicano O Mundo:
«Nomeado o tenente Teotónio de Almeida para redigir o auto e enquanto assiste o general Carvalhal, comandante da divisão, de pé, ao fundo, Afonso Costa manda entrar o cardeal Netto. – Queira V. Exa. Sentar-se. O cardeal senta-se fatigadamente num fauteil. O dr. Afonso Costa interroga-o: – O seu nome? – José Sebastião Netto, patriarca resignatário de Lisboa. – Cardeal? – Sim, cardeal sou. – V. Exa. pertence a alguma comunidade religiosa? V. Exa. decerto vai usar para com o ministro, que representa o governo, da máxima sinceridade. – Não há dúvida. Eu dei-me sempre bem com todos os governos. – Vive, portanto, em comunidade religiosa… – Vivo… – A que congregação pertence? – À de S. Francisco de Assis. – Quantas casas tem essa ordem em Portugal? O cardeal Netto hesita, rememora mentalmente, conta pelos dedos e a fim diz: – Quatro: Braga, S. Bernardino, Brancanes e… A última, os seus lábios mal a murmuram. Depois, o Dr. Afonso Costa explica que o governo vai fazer respeitar a legislação de Pombal e de Aguiar em vigor, e que portanto é necessário que o cardeal Netto, para permanecer em território português, prometa que não voltará a viver em comunidade e apenas a vida de família, com os seus parentes naturais, ou um amigo e com os criados necessários para o seu serviço. – Promete V. Exa… O patriarca resignatário replica imediatamente com doçura, num tom de voz que não oferecia dúvida: – Prometo. O Dr. Afonso Costa prosseguindo: – V. Exa. sempre que mudar de domicílio terá de o participar para o ministério da justiça. – Mesmo quando for para a Parede? – Não, pode ir para o campo, para uma praia, por dez, por vinte dias, isso é uma coisa provisória. O governo só deseja ter informação de mudança de domicílio, da residência habitual. E compreende-se que assim seja, pois que de outra forma a inspecção seria impossível e a lei seria iludida, sofismada, posta lamentavelmente de lado. – E agora? Agora V. Exa. Para onde se retira? – Vou para Espanha passar algum tempo, o que aliás já era intenção minha mesmo antes dos acontecimentos. Alguns amigos meus de há meses que me solicitam. Estava decidido a partir. – E volta para Portugal? – Sim, senhor. Sou português. – O governo da República não expulsa cidadãos portugueses, pelo contrário, atraí-los-á à pátria, protegê-los-á sempre que se coloquem sob a protecção insofismável das leis. Redigido o auto, nele se regista que o cardeal Netto será, do novo, entregue á liberdade. Ele e o ministro assinam a folha de almaço azul. E o ministro da justiça pergunta ainda: – V. Exa. Demora-se em Lisboa? – Eu desejava partir o mais breve possível para Leiria, a fim de arranjar as minhas malas para me pôr a caminho de Espanha. – Em que comboio? No da tarde? – Sim, senhor. Mas desejava também pedir que alguém me acompanhasse. – Não há dúvida. O governo da República garantirá a V. Exa. toda a protecção e facilitar-lhe-á os meios eficazes para chegar ao seu destino. – Poderia ir ao convento da Graça? – Tem V. Exa. Urgente necessidade de falar a alguém dali? – Apenas queria recolher os meus hábitos. – Pois bem, o cardeal Netto receberá tudo o que lhe pertence. O governo provisório far-lhe-á chegar tudo às mãos. O cardeal Netto repete: «Eu dei-me sempre bem com todos os governos.» O Dr. Afonso Costa insiste em explicar: – A atitude de V. Exa. vale pela sua alta situação, atitude que por certo influirá decididamente em muitos outros que estejam em igualdade de circunstâncias e facilitará a obra da República que se acaba de implantar em Portugal para a redenção da Pátria. Por fim, Afonso Costa determina que o cardeal Neto será acompanhado pelo Dr. Germano Martins e irá descansar para um hotel e que às sete da tarde seguirá para Leiria. O Sr. cardeal Netto pergunta: – Poderei esperar por um rapaz que me acompanhava? – Sem dúvida. Sente-se V. Exa. pode assistir ao seu interrogatório. Alguém parte a conseguir quartos num hotel, o que é absolutamente impossível e o cardeal Netto, então, resigna-se a esperar pelo comboio da manhã, das 7 e 10, para nele partir para Leiria.»
Eram dias difíceis para os representantes da Igreja. As perseguições aos elementos do Clero são de tal ordem que o governador civil de Lisboa, Eusébio Leão, publica um edital onde previne:«… o público contra boatos malévolos sobre a existência de frades em casas particulares. A casa do cidadão é inviolável. Ninguém «sem autorização especial» pode forçar o domicílio de quem quer que seja. A contravenção deste preceito será rigorosamente punida. As autoridades competentes estão procedendo com segurança e energia para resolver a questão religiosa». Já três dias antes mandara publicar um outro edital apelando ao «respeito pelas pessoas dos polícias, dos soldados municipais e dos padres».
De um modo geral, a República foi recebida em Portugal, senão com grande veemência, ao menos sem hostilidade capaz de lhe fazer frente. Se os homens, que a fizeram ou a receberam feita por um punhado de militares e marinheiros audaciosos, houvessem formado o trato e a acção mais no estudo que na propaganda política e na exaltação das praças públicas, talvez o regime tivesse enveredado por sistema distinto e tivesse um futuro mais promissor. Infelizmente muitos desses homens eram mais agitadores da multidão, não eram condutores dela. E sabe-se como um espírito exageradamente jacobino, demagógico, depressa estabeleceu entre parte da Nação, nomeadamente o Clero, e o novo regime um fosso difícil de transpor.
