O Pai – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa

(Adão Cruz)

Era perversa:

dormia toda nua, os peitos soltos e   brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos   largos, róseos, distendidos.

Durante o dia andava em casa com as   blusas desabotoadas e sentava-se de qualquer maneira com os   fatos a subirem-lhe sempre a meio das coxas, deixando antever entre as pernas uma   escuridão macia,   amolentada na sua meia penumbra.

Era perversa:

deitava-se nos sofás, ao comprido, os braços atirados   para trás e ficava   assim, toda lisa, ao seu alcance, sem mal, a passar a língua aguda pelos lábios já húmidos.

Era perversa:

de um louro fundo, a pele penugenta,   os olhos de um azul duro, sempre adormentados.

Era perversa:

rodeava-lhe com os braços o pescoço, os seios a   esmagarem-se-lhe de encontro   ao peito e o hálito morno, sedoso, a roçar-lhe a boca, a rastejar-lhe perto, como que   entorpecido de saliva.

Deixava a porta entreaberta,   esquecida, enquanto se despia devagar, a descobrir o ventre brando, os ombros   magros, devagar em breves movimentos, em secretos sons e pactos com a infância.

Era perversa:

trazia os cabelos em desalinho e mornos de sono quando o beijava de manhã, a dar-lhe os bons-dias, com uma distracção do hábito tomada.

Era perversa:

dormia toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos largos, róseos, distendidos.

Quando entrou no quarto o homem hesitou, a olhá-la, a fixá-la no seu sono, mas logo avança, silencioso, e de manso pára junto à cama a hesitar novamente. Depois estende uma das mãos, desliza-a na curva suave do peito, na anca quente, doce, os dedos crispados a entranharem-se já nos pêlos sedosos do púbis.

Curva-se quando ela acorda e tapa-lhe a boca com força, brutal, mantendo-a deitada, firmemente, debaixo do seu corpo agora ao comprido sobre o dela.

Era perversa:

tinha um riso liberto, sedento, e uma maneira envolvente de olhar os outros; um odor enlouquecido a entreabrir-se aos poucos, como um fruto, obsessivo: obsessivamente, obsessivamente.

Indiferente, Mariana sente que ele sai de dentro de si, sujando-a de esperma também por fora. Depois vê-o que se levanta da cama, se veste à pressa e se vai embora sem a olhar, todo o tempo mudo, mesmo enquanto a forçara, mudo mesmo quando a tivera, rendida, afundada naquele torpor, de onde não quer sair nunca mais, cada hora mais fundamente perdida.

«— Tens de deixar esta casa — disse-lhe ele numa voz neutra, monocórdica — não podemos continuar a viver todos juntos na mesma casa depois do que se passou. Foste a culpada de tudo, bem sabes que foste a culpada de tudo, eu sou homem; sou homem e tu és provocante, perversa. És perversa. Uma mulher sem vergonha, sem pudor. Não te quero ver mais, enojas-me, repugnas-me, enver­gonhas-me. Tu percebias, sei que percebias, que sabias como me punhas. Eu sou homem minha puta».

– Claro que sou uma puta, podes estar tranquilo, pai, sou uma puta.

«— Grande cabra — chamou-lhe a mãe quando ela se dirigia para a porta da rua, agarrada às paredes para não cair. — Grande cabra».

23/4/71

(in Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas, Moraes Editores)

 

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