EM VIAGEM PELA TURQUIA – 39 – por António Gomes Marques

Outra das coroas de glória da política externa de Atatürk, foi a assinatura do Tratado de Saadabad, em 8 de Julho de 1937, pela Turquia, o Irão, o Iraque e o Afeganistão, preservando as fronteiras comuns e em que os signatários se comprometiam a consultar-se em assuntos de interesse comum e a não cometerem actos de agressão contra os territórios de qualquer dos países. No entanto, este pacto terminou cinco anos após a morte de Atatürk.

 

Atatürk recebendo a visita do rei britânico Eduardo VIII

A política diplomática em prol da paz desenvolvida por Atatürk com o Ocidente e com os países de Leste que com a Turquia faziam fronteira revelou-se ter sido a mais acertada, bastando relembrar o que aconteceu após a invasão italiana da Albânia, em 7 de Abril de 1939, com os conflitos a surgirem incessantemente, culminando na II Guerra Mundial, levando, nomeadamente, à destruição de grande parte do Sudeste Europeu, tendo sido a Turquia o único Estado a conservar-se intacto depois do conflito.

Mas um país não pode consolidar-se sem desenvolvimento económico, o que levou Mustafá Kemal, muito bem secundado por İsmet İnönü, a tomar a iniciativa de mobilizar todos os recursos do país, sob controlo do Estado de modo a eliminar o controlo estrangeiro da economia turca. Desenvolveram as comunicações, decisão fundamental para a concretização do objectivo definido, começando por um aspecto aparentemente contraditório ao não investir os seus recursos no porto de Istambul, dominado por empresas estrangeiras, canalizando esses recursos para outras cidades, tornando o país mais equilibrado.

A Turquia republicana não herdou do Império Otomano uma burguesia industrial, absolutamente necessária para o desenvolvimento económico pretendido. Quando a República foi estabelecida, não havia sequer potenciais investidores turcos, daí o papel que o Estado teve de desempenhar, nomeadamente na criação de fábricas produtoras de alfaias agrícolas e de outras ferramentas mais pesadas, tendo também sido o Estado a criar uma indústria têxtil.

Mustafá Kemal em visita a uma fábrica têxtil, em Bursa (v. Wikipédia)

A produção de tabaco foi por Kemal considerada fundamental para a independência económica que pretendia para a Turquia, acabando com o monopólio francês, nacionalizando a companhia francesa Regie, assim como o aumento de produção do algodão, possibilitando a criação de uma verdadeira indústria algodoeira, já pujante no início da década de 1930.

Criou também o primeiro banco turco em 1924, İş Bankası, que constituiu o início da criação de um sistema bancário turco até aí inexistente, constituindo-se ele próprio no seu primeiro cliente.

Três anos depois fundou as Ferrovias Estatais Turcas, a que deu grande prioridade pela importância que uma rede ferroviária tem no desenvolvimento de qualquer país, com os seus mais de 3.000 quilómetros de extensão, acabou por ligar todo o país.

Não descurou o desenvolvimento das estradas, recuperando mais de 13.000 quilómetros de estradas arruinadas, construindo e conservando as pontes necessárias a essa rede.

A Turquia não deixou de sofrer as consequências da Grande Depressão, mas as medidas tomadas por Atatürk, nomeadamente definindo políticas económicas integradas e, para controlar as taxas de câmbio, criando um banco central, cujo êxito se vem a confirmar pelo primeiro empréstimo, concedido por uma empresa americana, conseguido logo em 1930. A confiança no Estado Turco estava estabelecida.

«Na área económica (…) o programa do partido é o estatismo», são palavras de Mustafá Kemal, mas o Partido Liberal Republicano, de curta duração como vimos, fundado pelo seu amigo Ali Fethi Okyar, teve aqui um papel fundamental ao conseguir originar um programa económico liberal, que levou ao fim de muitos monopólios estatais e, consequentementa, ao investimento no país de capital estrangeiro.

Segundo Andrew Mango (o. c., págs. 477/8), Mustafá Kemal sempre teve apoios de membros da esquerda radical, «a maioria dos quais perdeu gradualmente o seu radicalismo». Ainda segundo o mesmo autor, o escritor esquerdista radical Yakup Kadri (Karaosmanoğlu), que foi também um dos publicistas de Mustafá Kemal, e um grupo de marxistas fundaram o magazine Kadro (Célula?), que, nas suas páginas, divulgou a ideia de «que o Kemalismo foi um terceiro caminho entre o capitalismo e o socialismo».

Em 11 de Junho de 1937, Atatürk faz doação das suas quintas ao Estado.

O primeiro boletim oficial dando conta do estado de saúde de Atatürk é divulgado em 30 de Março de 1938, a 17 de Outubro entra em coma, o que volta a repetir-se em 8 de Novembro, falecendo a 10 de Novembro de 1938, às 9:05 horas, no Palácio Dolmabahçe.

No dia seguinte, İsmet İnönü é eleito Presidente da República.

Em 21 de Novembro, Mustafá Kemal Atatürk é sepultado no Museu Etnográfico em Ancara.

O Partido Republicano do Povo, em 26 de Dezembro, numa convenção extraordinária, proclama Atatürk «Líder Eterno» e İsmet İnönü «Líder Nacional».

Em 10 de Novembro de 1953 Atatürk foi transferido para o novo Mausoléu, construído em Ancara, de que já falámos.

Túmulo de Mustafá Kemal Atatürk

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