EDITORIAL: AINDA A ALEMANHA

A visita de Angela Merkel ao nosso país , ao que parece muito curta, é marcante. Obviamente, que vem com objectivos eleitorais. Mas o simbolismo de que se reveste vai mais além. O tom de que se reveste parece claro: mostrar em casa que é muito respeitada, e, quanto ao lado de cá, vem acompanhada de empresários para incentivar negócios e, provavelmente obter para eles vantagens fiscais e de financiamento. Esperemos que não tenhamos de comprar mais nenhum submarino. A postura do governo português é claramente de submissão, obrigando-nos, a contragosto, a repetir o que disse Adriano Moreira: neste momento Portugal tem um estatuto de protectorado.

Adriano Moreira disse aquilo que toda a gente reconhece: o nosso país está numa posição de grande dependência. O problema são as razões  que nos conduziram até aqui, que é preciso entender, até para melhor tentar superá-las. Aí, a nossa direita põe-se a culpar os anos de governação socialista, as greves, etc., e tudo o que a contraria. Fogem á resposta. Na melhor das hipóteses, põem-se a falar em competitividade, e outros conceitos vagos.

Toda a gente reconhece que a Alemanha está bem colocada no que respeita a competitividade. Não sabe explicar o que é (parece que ninguém sabe muito bem), mas vamos para a frente com ela. Mas porque será que aceitam que a Alemanha é competitiva, e Portugal, não? Como explicam as diferenças?

As diferenças explicam-se por razões históricas, evidentemente. Os alemães, e alguns portugueses, gostam muito de pintar quadros do tipo: os alemães são assim, os portugueses são assado. Os méritos, o espírito trabalhador, a disciplina, a inteligência são deles, nós somos o oposto. Assim se explica porque recusaram divulgar o filme patrocinado por Marcelo Rebelo de Sousa (vão estranhar hoje só referirmos personalidades da nossa direita, e que personalidades! Acreditem que não há aqui nenhuma deriva).

Não gostam também que se recordem os anos em que não respeitaram os limites do défice, graças ao que conseguiram aumentar a produção, ter uma balança comercial positiva, e desemprego baixo. Vejam a propósito o trabalho de Sabine Foxman, que hoje publicámos logo de manhã, em três partes, As razões que levam a Alemanha a não ter nenhuma vontade de mudar seja o que for na Europa, seleccionado e traduzido pelo argonauta Júlio Marques Mota.

Pouco ou nada se fala sobre a importância da história recente. O conflito Leste-Oeste, a reunificação alemã, o processo de formação da União Europeia tiveram grande influência neste problema de competitividades diferentes. O papel desempenhado pela Alemanha valeu-lhe grandes apoios e tolerância por parte das restantes potências ocidentais, e uma enorme abertura dos mercados financeiros, os quais, é sabido, mas pouco dito, votam sempre à direita. O seu tecido industrial foi defendido, mantido e actualizado cuidadosamente. Ali, deslocalizações não houve, ou só excepcionalmente. Porquê? Os salários na Alemanha  não são mais altos do que em Portugal e noutros países, apesar de todas as limitações? Claro que são. Por isso têm tantos imigrantes.

1 Comment

  1. Diz a Angela ao Pedro:
    Dá cá, menino bonito,vamos lá corrigir os TPC.
    Diz o Pedro à Angela:
    Está tudo certo, tive explicações com o Vítor.

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