GIRO DO HORIZONTE – BARACK OBAMA REELEITO – por Pedro de Pezarat Correia

Expressei nesta mesma coluna, no passado dia 29 de Outubro, a minha desilusão com a experiência do primeiro mandato presidencial de Barack Obama nos EUA. Mas também reconheci que, provavelmente, a responsabilidade era mais minha do que dele, porque nunca deveria ter alimentado ilusões excessivas. O contexto político dos EUA é o que é e, nele, a projecção dos nossos conceitos de democracia participativa, de política de esquerda, de Estado social, de independência nacional, de paz universal, choca-se com uma realidade em que estes paradigmas, com os contornos europeus, não se encaixam. Nos EUA tudo é equacionado na sua própria perspectiva que é a do orgulho imperial, capitalista, conservador, individualista.

Mas também afirmei que não era por isso que encarava as eleições americanas com alheamento ou neutralidade. Continuava a desejar vivamente a vitória de Barack Obama. Por isso fiquei satisfeito com os resultados. Com uma diferença substancial em relação a 2008, uma vez que agora já não alimento ilusões. Estou mesmo preparado para medidas que me desagradarão profundamente. O que vier de positivo, será ganho. Até porque o presidente vai ter de continuar a confrontar-se com uma maioria hostil na Câmara de Representantes, inconformada e vingativa, em relação à qual vai ter muito que negociar e fazer cedências. Esperemos que, ao menos, seja capaz de definir prioridades de política externa em relação às quais não haja transigências. Por mim gostaria de ver, entre elas, o ambiente, Guantânamo, o Afeganistão, a Palestina. E, muito em especial, o problema da proliferação nuclear nos termos transparentes em que o colocou no célebre discurso de Praga de 5 de Abril de 2009, em que, corajosamente, se vinculou ao respeito integral pelo espírito equilibrado do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

De qualquer forma não tenho dúvidas de que com a eleição de Mitt Romney não seria a mesma coisa. Pelo menos vimo-nos livres da repetição do pesadelo da década de 80, em que o ocidente – e o mundo por tabela – sofreu os efeitos da parceria Reagan/Thatcher, com grandes responsabilidades na crise que hoje pesa sobre as nossas vidas. Uma parceria Romney/Merkel seria um enorme risco, em que não estaríamos livres de um conflito global como solução para a crise financeira-económica-social. A eleição de Obama já não foi a onda de euforia de 2008, mas foi certamente um respiro de alívio. Nos tempos que correm, já não é mau.

Depois de reeleito, Obama declarou, no seu discurso de vitória, que o melhor ainda estava para vir. Não é uma retórica entusiasmante. Admito que apenas se estivesse a referir à política interna mas, mesmo em relação a essa, o termo de comparação não tranquiliza ninguém. Melhor em relação a quê? Confrontado com o péssimo do passado recente, qualquer mau já será melhor. Irão os americanos que o apoiaram e o mundo que ardentemente desejou este resultado, conformar-se só porque se passa do péssimo ao mau? Esperemos que tenha sido apenas uma frase de menos inspiração ditada por um momento dominado pela emoção e que Obama vá bem além disso.

 Assinale-se que se confirmou que há uma realidade em mudança nos EUA e na América em geral. O crescimento das comunidades de raiz hispânica, latina, africana e asiática, estão a provocar uma revolução demográfica. Os EUA da arrogância “wasp” (white, anglo-saxon, protestant), parecem ser cada vez mais passado e em perda progressiva. Por isso também cada vez mais extremista e radical. Os republicanos terão de se libertar desse fardo até porque o tea party é, em grande parte, a sua expressão actual. Mas atenção, porque os democratas também não são completamente imunes ao saudosismo do orgulho “wasp”. E esse poderá ser um dos maiores desafios de Barack Obama.

12 Novembro 2012

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