AMAR OU NADA: O VERDADEIRO PARALELO DA GRÉCIA COM A REPÚBLICA DE WEIMAR, por Paul Mason

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(CONCLUSÃO)

Parte III

A nova política – conhecida como “Zeus hospitaleiro” é a de reagrupar os imigrantes e  de os colocar em campos : polícia vestidos à civil  ou de uniformes ostensivamente mandam  parar todas as pessoas de cor na rua, verificam os  seus documentos e se os documentos não estiverem em ordem são presos e vão, finalmente, para um campo de detenção de imigrantes.

Os grupos de direitos humanos protestam, e exigem o acesso aos campos, Aurora Dourada tem protestado fora deles, alegando que as condições são nesses campos demasiado  boas e que as deportações não são rápidas como deveriam ser  (cerca de seis mil foram detidos, com talvez três mil deportados). E mesmo com a polícia a apanhar os migrantes, a política de Aurora Dourada  é a de os aterrorizar  fora das ruas e montar uma campanha legal contra as empresas que os empregam.

Os meios de comunicação social gregos, entretanto, tomaram uma sugestão de Aurora Dourada reforçando nos seus artigos a associação dos  imigrantes com a criminalidade. Para aqueles que procuram uma visão alternativa, existem apenas os jornais da extrema esquerda: o principal jornal liberal – Eleftheropia, um equivalente ao Guardian  – faliu e foi fechado.

Economicamente, a coligação grega está-se a  preparar  para impor a mais recente e a última ronda de austeridade: 13.5 mil milhões de  euros,  um ano mais de mais cortes e de mais subidas de  impostos, a fim de liberar a disponibilidade de 31 mil milhões de euros de resgate.

No momento em que isto se leva ao  Parlamento, podemos esperar um enorme e indisciplinado protesto. Depois disso, a coligação só tem que permanecer  e esperar  que a sua própria base de apoio eleitoral  não tome o caminho que assumiram os partidos centristas na Alemanha depois de 1932.

Infelizmente para eles, no entanto, o apoio eleitoral está a deslocar-se.  Enquanto a Nova Democracia tem mantido a sua posição nas sondagens  com 27%  das intenções de voto (comparada  com 29% nas eleições), o  Pasok – o anterior  governo com base no  Partido Socialista – desceu para cerca de  5,5%, cara a cara  com o parceiro da coligação A Esquerda democrática . A soma combinada das intenções de voto dos partidos pró-austeridade é agora de cerca de  38%.

Aurora Dourada teve  14% nas sondagens da semana passada, enquanto o partido que se situa mais à esquerda, o  Syriza, lidera as sondagens com 30% (recebendo muitos votos dos comunistas, que agora representam apenas  5%).

No entanto, estas sondagens de  opinião são susceptíveis de serem  testadas  numas próximas  eleições. A UE está a trabalhar fortemente  para manter a actual coligação  e como o apoio do o Pasok diminui até ao fundo do poço, este  não tem qualquer incentivo para correr o risco de querer eleições  agora.

Assim para a maioria das pessoas que querem que a austeridade seja rapidamente parada, e que não querem ser gaseados, esfaqueados, ameaçados  ou até mesmo de ir  entrar em greve, há apenas a estratégia de “amar  ou nada”.

Curiosamente o uso de antidepressivos está a aumentar. O livro de Penny conta numerosas histórias  de antigos activistas políticos  que andam e vivem simplesmente atordoados pelas bebida e pelas drogas.

O que nos leva de novo para Silver Lake

 A ” importância do amor  ” na ópera de Kurt Weill  só começa na segunda metade da peça, com a chegada de Fennimore, uma jovem prisioneira num  castelo com os dois perdedores e com uma aristocrata reaccionária, que os enganou  para lhes roubar o dinheiro .

Uma vez que Fennimore aparece, a música torna-se hipnotizante e lírica; fica centrada sobre  o desespero em conjunto dos dois homens e da rapariga.

E na sequência final – um sonho de 15 minutos durante o qual os homens partiram para atravessarem  o Lago do castelo, certos também de que se vão afogar  – há aqui uma mistura de ecstasy e de desespero.

“You escape from the horror,” Fennimore canta; “that may destroy all we know. Yet the germ of creation will struggle to grow.”

“All this can be a beginning

“And though time turns our day back to night

“Yet the hours of dark will lead onwards

To the dawning of glorious light.”

Sempre me  esforcei intensamente  para compreender este final: porque é que nos últimos dias de Weimar, Kurt Weill não escreve nenhum hino de revolta contra o nazismo, em vez de um trabalho como este em que, em última análise, se exprime a resignação?

Nas ruas de Atenas  está aí a resposta. Podemos sentir  o que isto significa quando o sistema político – e até mesmo o estado de direito – se torna  paralisado e se atrofia.

A ” inércia de não se ter esperança” começa a pegar mesmo entre a classes média,  da mesma forma que a violência organizada racista se introduz e invade as  suas vidas.

Face a uma situação  económica ditada pelo Banco Central Europeu e pelo  Fundo Monetário Internacional  e a uma atmosfera que se assemelha  à rua Isherwood  de Berlim o impulso natural do ser humano  não é então o de lutar mas sim o de fugir.

Fugir para longe do perigo – a fuga para o casulo de drogas, para os relacionamentos, para os estilos de vida alternativos, seja ele a partir de  iPod.

Depois da confusão da primeira noite de  Silver Lake, em Leipzig,  vejamos  como é que o  seu Director, Douglas Sirk, descreveu a cena no teatro:

“Um bando paramilitar de nazis, Sturmabteilung, encheu  uma parte relativamente  grande do teatro e havia uma grande multidão de pessoas pertencentes ao partido nazi fora da Opera  com bandeiras e só Deus sabe com que mais, gritando e abafando tudo o resto. Mas a maioria do público adorou o espectáculo… E assim eu pensava no princípio, bem,  como as coisas vão vai ser uma meta muito difícil e que talvez não seja possível superar… [Mas] nenhuma representação, nenhuma canção, não foi possível parar este clima, esta marcha para a desumanidade. “(Citado em Kurt Weill On Stage,  por Foster Hirsch)

E vejamos como é que que o director de Corpus Christi, Laertis Vasiliou, cuja representação  foi uma vez mais interrompida  por manifestantes de extrema-direita em Atenas, na noite de quinta-feira, descreveu a realidade de agora numa  mensagem que acabou de me enviar:

“Nós mantivemos a representação  que começou com duas horas de atraso por causa da luta que se desenrolava fora do edifício do Teatro entre a  Polícia contra os fundamentalistas cristãos e os nazis. Foi um inferno. O barulho que vinha do lado de fora do Teatro abafava o que neste se passava com a representação  da peça: Houve pessoas   que foram espancadas pelos nazis   e pelos fanáticos cristãos. “

As diferenças com os últimos dias de Weimar, então, são claras. Sob a pressão internacional, o Estado grego ainda é capaz de defender o Estado de direito; os partidos centristas, embora atrofiados, ainda mantém a fidelidade de mais de um terço dos eleitores e  não houve nenhum avanço eleitoral decisivo ganho pela extrema-direita..

Fundamentalmente, não há nenhuma empresa grande ou grupo de media  e não há uma parte significativa da elite grega que tenha passado para a extrema-direita, como aconteceu na Alemanha de Weimar.

Mas esta fuga para a inércia, para a depressão, para a vida pessoal também pode ser mais pronunciada  do que em Weimar.  A Alemanha de Weimar era, afinal, uma sociedade de intenso envolvimento  político; de hierarquias políticas, de compromissos dos  movimentos sociais, dos sindicatos, dos  grupos de militares veteranos.

Assim como  a crise pode ter sido numa escala mais fraca do que a crise que desabou sobre a democracia na Grécia e a fez entrar em colapso, as forças que se unem na defesa da democracia também podem ser sido mais fracas.

Quando entrevistei Ilias Panagiotaros, membro do parlamento Grego pela Aurora Dourada há duas semanas, este foi bem claro quanto ao projecto do partido: se Syriza ganhas as eleições,  ” nós iremos ganhar as próximas que se lhe vão seguir “.

“A Revolução terá lugar depois de duas eleições, em que se irá dar  o primeiro lugar a Aurora Dourada; agora somos os terceiros, e talvez  ganhemos o  segundo lugar – portanto, não é um sonho que em um, dois ou três anos seremos o primeiro partido político.”

Os líderes da comunidade internacional, preocupam-se em negociar o pacote de uma desesperante austeridade que é suposta  preceder um resgate estratégico do país sabendo-se quais são as apostas ou antes os resultados das apostas.

Se eles falharem, será toda uma geração de jovens gregos que será abandonada,  deixada, como os protagonistas da peça de  Weill em The Silver Lake, com uma escolha entre o amar ou o nada.

Paul Mason, BBC Economics editor, Newsnight, Love or nothing: The real Greek parallel with Weimar, 26 de Outubro de 2012

Leave a Reply