MUNDO CÃO – GANHOU UM REPUBLICRATA -por José Goulão

As eleições presidenciais norte-americanas suscitaram, como sempre, uma vaga mediática que alimentou os cofres dos grandes impérios mundiais do sector. Em tempos que são de vacas magras, principalmente para os consumidores e que, por isso mesmo, se estendem aos produtores, há que explorar a magnitude de um fenómeno que, nem de perto nem de longe, corresponde à importância do que está em jogo.

A única dúvida que existe atualmente numas eleições presidenciais nos Estados Unidos da América é saber qual o candidato republicrata que ganha. No limite poderão existir divergências entre um mal maior e um mal menor nunca devendo perder-se de vista que o mal menor é um senhor da guerra que em vez de ser um trauliteiro arrogante e ignorante pode ser um cavalheiro polido, bem falante que promete paz enquanto pratica a guerra, que diz preocupar-se com os pobres enquanto defende o essencial daquilo que interessa aos ricos, que anuncia negociar para resolver guerras que nunca mais acabam enquanto envia aviões sem piloto assassinar supostos “terroristas”, uns atrás dos outros, sem que essa prática sinistra configure qualquer crime, seja submetida ao Tribunal Internacional de Haia ou esteja ao alcance de qualquer comum tribunal.

Ganhou um republicrata da vertente Partido Democrático embora saibamos que essa tendência se multiplica em várias correntes de interesses antes de atingir a fronteira em que tudo se passa a decidir segundo o rótulo “republicano”. Ganhou Barack Obama, o presidente em exercício, o que para muitos, e com alguma razão, justiça lhes seja feita, significa que é preferível um que já se conhece em relação a outro que movendo-se como enguia, com ideias “a la carte”, procura  conquistar um certo eleitorado aqui, outro ali, sem critério ou convicções, conduzido apenas pelo oportunismo de chegar a ser inquilino da Casa Branca.

Desculpem a redundância, mas um presidente dos Estados Unidos é sempre um presidente dos Estados Unidos. Não será elegante chamar-lhe marioneta porque a estrutura que o envolve, um micro universo do sistema de decisão no país, tem um efetivo poder que resulta da representatividade que lhe advém não do funcionamento da democracia mas do jogo de interesses pessoais, de grupo e das rivalidades conjunturais  dentro do complexo militar e industrial que governa os Estados Unidos da América… e o mundo.

No fim do caminho da sua atuação, porém, estão objetivos e resultados difíceis de distinguir olhando para democratas e republicanos, os dois braços do partido único governante. Obama e Romney queriam, por exemplo, derrubar Assad na Síria; manter os senhores da droga e da guerra no poder no Afeganistão; garantir o status quo insalubre no Kosovo através da manipulação da NATO; assegurar que os contribuintes paguem se os bancos e as grandes multinacionais seguirem uma gestão em que metem os pés pelas mãos; dominar o Iraque mesmo que isso seja a continuação de uma política que, a prazo, vai destruir o país;  reverenciar as ditaduras fundamentalistas religiosas da Arábia Saudita, do Qatar, do Bahrein e do Kuwait para que os interesses imperiais prevaleçam em todo o Médio Oriente e no Índico; enfim, aturar, mesmo fingindo que não aturam, as manobras do poder dominante de Israel sobre o momento de atacar o Irão e tentar acabar de vez com as possibilidades de negociar com os palestinianos.

Valerá realmente embandeirar em arco com a vitória de Obama à custa da derrota de uma figura arcaica e oriunda de uma política à moda do faroeste de antanho?

Francamente acho que não. As ilusões sobre Obama há muito que se esfumaram mesmo entre aqueles que sustentaram, cheios de boa vontade, o benefício de uma dúvida que, em boa verdade, nunca teve condições para sobreviver. Seria pior com Romney? Jamais o saberemos. Para pior já basta com Obama.

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