DORINDO CARVALHO: EQUILÍBRIO FORMAL E REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA – por José Fernando Tavares

Essa perceção de uma problemática humana, nem sempre visível no espaço físico da composição, obnubilada pelo equilíbrio da forma geométrica, é justamente o aspeto que mais importa na presente exposição. Esse «olho do espírito» determina a erupção, ou emergência, da perspetiva humanística que tem marcado a totalidade do percurso criador de Dorindo Carvalho, até mesmo na obra gráfica, à qual desde sempre se dedicou. Não obstante a presença de uma geometria que procura o equilíbrio da cor através da enunciação da forma, essa presença geométrica não se circunscreve ao seu limite formal: ausculta essa outra presença não menos enigmática da qual emerge o rictus humano na sua mais significativa expressão. Se nesse rictus se identifica a dimensão dúplice do rosto humano, duplicidade que nos remete para a problemática de Jano (quadros nº 5 e 12), esse mesmo rosto também nos surge na sua dimensão espiritual, transfigurada na expressão encantatória da máscara, esse rosto tão autêntico onde toda a humanidade tende a ocultar-se para melhor se revelar. A máscara em chamas sobre um fundo negro e vermelho (quadro nº 7) representa esse encantamento do humano ao próprio humano, ou do humano perante natureza que o envolve.

A emergência do rosto a partir da indeterminação, aparentemente aleatória, da forma geométrica, representa essa transfiguração do humano face ao resplendor da luz. Justificam-se, desta maneira, os dois conceitos com que Dorindo intitulou a sua exposição: «formas e aparências». Esta simbiose que o artista procura entre a «forma» e a «aparência», permite ao espectador compreender a continuidade entre os dois conceitos, como se estivéssemos em presença de um só: trata-se de uma continuidade unificadora e universalizante, porquanto a aparência, em si mesma, jamais poderá prescindir da forma para autenticar o seu propósito. É esse, de resto, o papel da máscara: impor ao mundo a sua forma e emanar o grito da sua autonomia perante a complexidade desse mundo, o qual é, em simultâneo, conhecimento e perplexidade. É desta situação paradoxal que a pintura de Dorindo se alimenta para igualmente alimentar aquele que a contempla. A figuração do rosto no contexto de uma geometria calculada, mas nem por isso menos precisa nos seus fundamentos, conduz-nos a um princípio científico: à noção de relatividade, ou relativização, dessa emergência do humano no conspecto universal que sempre o caracterizou. Esta noção de «relatividade» face à situação do homem no universo, permite-nos compreender que não existem formas definitivas. A suposta «tirania» da forma geométrica, mais do que corresponder a um «complexo do rigor», veiculado pela experimentação matemática, corresponde também à própria indeterminação do universo no seu sentido cosmológico, pois a natureza é sempre a primeira força a surpreender, pela negação, as bases canónicas da suposta rigidez dos elementos, ou da forma fixa.

É a partir deste ponto que a noção de «pedra filosofal» aqui se impõe: trata-se de um mistério maior, jamais resolvido pela inteligência, que possui a particularidade de confrontar o homem com o seu próprio mistério. Esta imagem está presente na pintura de Dorindo e, em particular, nesta exposição: a presença dessa «pedra filosofal» que vem do fundo do tempo para questionar o saber e a ciência, surge nesta pintura sob a forma diamantina (quadros nº 12, 15, 16, 18), confundindo o mistério do mundo com o mistério do homem. O vermelho vivo da pedra faz-se rodear pela obscuridade ancestral (quadro nº 16), obscuridade na qual se radica o rosto humano (quadro nº 12). Adensa-se, assim, esse mistério maior na qual se encontram todas as interrogações: a qualidade e a presença do humano situam-se nesse enclave onde se dá o confronto entre o obscuro e o luminoso.

Prosseguindo na observação dos trabalhos que figuram nesta exposição, encontramos nalguns deles a imagem simbólica da maçã, a qual nos remete de imediato para a ideia clássica de «pecado original» associado à origem e ao destino do homem. Podemo-nos, assim, interrogar: que relação poderá existir entre o fenómeno paradoxal da claridade e da obscuridade com o princípio bíblico do «pecado original»? De acordo com o testemunho da arte, podemos vislumbrar essa relação através do insondável mistério da vida. Se o aparecimento do homem sobre a terra continua a ser um mistério ainda por explicar, a pedra filosofal representa essa dimensão obscura do humano na qual se radica o segredo dos segredos: aquele que encerra o sopro da vida. Na pintura de Dorindo assistimos à conciliação entre estas duas forças que estão na base do humano: o pecado original, que determinou os caminhos da condição humana, e a pedra filosofal, símbolo da imortalidade, da inteligência e do poder demiúrgico do espírito humano. A conceção bíblica de um «pecado original» associado ao primeiro homem fez com que o «fruto» da transgressão (quadros nº 6, 10, 11, 19) viesse dar origem ao elemento civilizacional que hoje conhecemos, personificado nessa pedra tão misteriosa quanto o cálice sagrado da tradição cavaleiresca, há muito desejado pelo Ocidente.

Não será, pois, por acaso, que a imagem simbólica do fruto proibido surja associada a esse outro símbolo universal que é a «mão». A mão (vigorosa, determinada) que se vislumbra na Capela Sistina, inspirada por Deus ao próprio Miguel Ângelo, mais não é do que o incontornável símbolo da criação associado ao espírito humano. Essa relação entre a «mão» e o «espírito», teorizada por Jean Brun no ocaso do século XX, é visível na obra de Dorindo e aqui presente nesta exposição (quadros nº 2, 10, 11, 4, 6, 15, 16, 18, 19, 20), assim como também já o havia sido no tributo a Miguel Ãngelo presente na exposição intitulada Os meus Mestres, ocorrida em 2011 na Mãe d’Água. O espectador pode observar duas mãos que se entrelaçam por cima da imagem dessa enigmática e rubra pedra filosofal (quadro nº 10), em que o preto, o ocre e o «vermelho sangue» se harmonizam, equilíbrio (sempre instável, como o homem) que se vislumbra em todos os trabalhos expostos.

 Fazendo a síntese do que foi dito acima, observam-se na pintura de Dorindo os grandes símbolos representativos do espírito imortal do homem: a suposta «maçã» do pecado original; a «pedra filosofal» do conhecimento esotérico; a indefinição da «máscara» enquanto representação da virtualidade do humano, que conduz à própria indefinição, ou hibridismo de género. Podemos ainda referir a «corda» como elemento cosmológico (quadro nº 18), essa «corda» mística que amarra o destino humano à pedra filosofal, ou aquela que se adivinha nesse outro quadro não menos misterioso (quadro nº 9), no qual as cores da portugalidade surgem «ensacadas» no interior de um túnel rodeado pela vermelhidão da «pedra», quadro que podemos associar ao destino messiânico e esotérico de Portugal.

A obra pictórica de Dorindo Carvalho possui essa qualidade essencial que se reconhece em toda a grande arte: possui a capacidade de surpreender aqueles que há muito a conhecem de perto. Esta qualidade confirmou-se na exposição antológica da sua obra realizada na Galeria Perve, em Lisboa, justamente intitulada «50 Anos, 3 Continentes» (título que confirma a intercontinentalidade do seu percurso criador), no verão de 2012. Se a confluência entre a geometria e a figuração constitui uma característica que definiu o seu trabalho desde o início, essa característica, tal como dizíamos no início desta breve reflexão, evoluiu para outras formas e perspetivas, no esforço contínuo de buscar novos caminhos para a «sua» arte, esforço que é particularmente visível na presente exposição, e que constitui um dos grandes méritos da força criativa de Dorindo Carvalho. Se considerarmos o artista como um demiurgo, então a «mão» de Deus, à semelhança desse «olho do espírito», confunde-se com a própria mão do artista, estabelecendo este último o equilíbrio entre a nossa perplexidade e a força enigmática da criação.

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