EDITORIAL – O homem do leme

Salazar tinha os seus gostos. A série que José Brandão aqui publica diariamente, fala-nos sobretudo da sua juventude. Quando ascendeu ao poder, era evidente a  sua intenção de moldar um Portugal que fosse, não parte da aldeia global em que o mundo se transformou, mas uma grande aldeia semelhante à que o viu nascer. Já para o fim, dizia-se que gostava muito de ouvir a Amália cantar a «Casa Portuguesa». A letra do Reinaldo Ferreira (filho) ia ao encontro da imagem que ele idealizara – «a alegria da pobreza, está nesta grande riqueza, de dar e ficar contente» (por exemplo – a alegria de pagar impostos e nada receber). Do Fernando Pessoa, como é óbvio, diz-se também, gostava dos poemas da Mensagem., sobretudo do «Mostrengo» – o mostrengo para Salazar seria o comunismo internacional, as reivindicações dos trabalhadores, os murmúrios da burguesia bem-pensante… E devia identificar-se com o timoneiro, que não largava a roda do leme por mais que o mostrengo ameaçasse .

Circulou por aí um vídeo em que o rosto de Salazar se vai aos poucos convertendo na face de Passos Coelho. De facto, o primeiro-ministro tem vindo a adoptar uma pose salazarenta – os óculos, o tom ponderado de quem tem o monopólio da sensatez e espalha pérolas de sabedoria entre uma cambada de atrasados mentais.

Só na pose se pode estabelecer a comparação. O QI de Passos Coelho deve estar uns pontos abaixo. Salazar era tacanho, mas não era estúpido. Pode também estabelecer-se um certo paralelismo na maneira como enfrentam o mostrengo, ou seja, o conjunto de forças, argumentos, vontades, que lhes são contrárias. Este governo não se demite. Passos Coelho assume também a posição que Pessoa atribui ao homem do leme. Está amarrado à maldita roda e não a larga nem por mais uma.

Ontem, a greve geral, diga-se o que se disser, foi um êxito. Não sendo de modo algum decisiva, veio aumentar o clamor que de todos os quadrantes do espectro político (incluindo o próprio PSD), reclamam a demissão deste governo que nem aos seus donos agrada. Está a matar a galinha dos ovos de ouro. Se destroi o tecido produtivo, se coloca a maioria dos portugueses em situação de pobreza, se desse modo, o mercado interno deixa de funcionar, o que vai ser dos bancos e das grandes empresas?

Mas o Pedro, olhando por cima dos óculos, como fazia o António, teima – manda a vontade que o ata ao leme, a vontade da troika e da senhora dona Angela. Mas até estes parecem não estar contentes. Provavelmente só os militares poderão resolver a questão e oxalá a resolvam bem.

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