EM VIAGEM PELA TURQUIA – 45 – por António Gomes Marques

(Continuação)

No que à Mesquita de Solimão I, o Magnífico se refere, não podemos deixar de fazer uma merecida referência à amada do sultão, de seu nome Roxelana, cuja história merece algum desenvolvimento, antes de falarmos do Bazar das Especiarias.

 Como outras mesquitas, também esta faz parte de uma instituição de caridade, em turco külliye, que integrava, neste caso, um refeitório da sopa dos pobres ― muçulmanos, cristãos e judeus, note-se ―; quatro escolas islâmicas, as madraças; uma escola de medicina; um caravancerai (que fornecia comida e alojamento aos viajantes e aos seus animais); e, rodeando a mesquita, um hospital. Existem ainda algumas destas estruturas, sendo que o antigo hospital é agora uma tipografia do Exército da Turquia e o refeitório para os pobres um restaurante aberto ao público.

 Interior da Mesquita Süleymaniye ou de Solimão I, o Magnífico

 

Atrás da mesquita, no jardim, existe um cemitério, estando ali também o túmulo de Solimão I, da sua esposa Roxelana, construídos separadamente mas junto um do outro e, no cemitério Mihrimah Sultana, encontram-se sepultados a filha de Solimão e Roxelana, a mãe e a irmã de Solimão, os sultões Solimão II, Ahmed II e uma filha de Mustafá II.

 Com o conhecimento que temos da história do Império Otomano somos de imediato levados a pensar que o papel da mulher nada tinha a ver com o exercício do poder, até então do domínio dos homens.

 Ora, Roxelana era uma escrava ucraniana, tendo sido comprada para o harém do sultão, Süleyman ou Solimão I, o Magnífico, no mercado de Constantinopla, sendo ali colocada como mais uma das 300 concubinas do sultão. Solimão I já tinha quatro esposas ou assim consideradas dado que o sultão não tinha casado com elas nem era tradição que os sultões casassem. Assim, uma destas quatro seria, naturalmente, a mãe do próximo sultão. No entanto, não tardou que Roxelana se tornasse a favorita do sultão, graças à habilidade para contar histórias e, o que não terá sido o menos importante, graças ao seu bom humor, o que lhe valeu o apelido de Khourrem, ou seja, a pessoa que sorri.

 Uma das concubinas, Gulfem, tinha tido um filho do sultão, o qual seria, naturalmente, o herdeiro do trono, que ao ver a ascensão de Roxelana não ficou nada agradada. Esta não hesitou em aproveitar-se da sua influência junto de Solimão I, conseguindo que Gulfem e o filho, Mustafá, fossem banidos para uma distante província do Império em 1534.

 Não tardou que Roxelana ficasse grávida do sultão, o que vinha ao encontro dos seus objectivos. No entanto, havia um outro obstáculo a eliminar – o Grão-Vizir (Primeiro-Ministro) Ibrahim, que tinha sido contrário à ligação do sultão com Roxelana. Esta conseguiu convencer Solimão I de que Ibrahim estava a planear derrubá-lo, acabando o Grão- Vizir por ser assassinado em 1536.

 Com os principais obstáculos removidos, Roxelana torna-se na primeira concubina e na principal ministra de Solimão I, convencendo este a fazer o que nenhum sultão tinha feito até então – casar-se, casamento este que surpreendeu o mundo islâmico. Ora, consumado o casamento, os filhos nascidos desta união seriam os herdeiros naturais do trono do Império Otomano, o que aconteceu.

 De mulher sem direitos, escrava, Roxelana morreu como sultana em 1558. É um caso verdadeiramente excepcional numa sociedade de homens como era o Império Otomano, transformando-se numa mulher poderosa, com clara influência no exercício do poder. (v. http://www.business-with-turkey.com/guia-turismo/roxelana_harem_sultao.shtml).

 Passemos então ao Bazar das Especiarias, o que nos vai permitir uma outra visão do viver turco.

 

 Fachada da Estação Terminal Sirkeci

 É um dos maiores mercados de Istambul, embora não tão grande como o Grande Bazar, ficando situado no bairro de Eminönü, onde desemboca o Corno de Ouro, que é um estuário que divide o lado europeu de Istambul e que, com o Mar de Mármara, forma uma península, com um importante porto de águas profundas, ao pé da estação de Sirkeci, uma das estações de uma das rotas do Expresso do Oriente (Paris-Budapeste-Bucareste-Istambul), havendo quem afirme ser o maior porto natural do Mundo. Aquando da conquista otomana, segundo a lenda, os Bizantinos deitaram muitos bens preciosos para a água, fazendo com que esta brilhasse como ouro, daí a sua designação.

 É um mercado de especiarias que, na sua maioria, vinham do Egipto, o que deu origem a também ser conhecido como Bazar Egípcio, tendo sido erguido com o produto dos impostos sobre as importações deste país.

 

Mercado das Especiarias ou Bazar Egípcio

Está situado num edifício que faz parte do complexo da Mesquita Yeni, projectado pelo arquitecto discípulo do grande Mimar Sinan, de que já falámos, de seu nome Koca Kasim Ağa, mas completado por um outro arquitecto, Mustafá, em 1660. As lojas que constituem o Mercado pagavam, com o seu arrendamento, as despesas do complexo. Continua a ser o que sempre foi, ou seja, o maior local de venda de especiarias de Istambul, com enorme variedade de frutos secos e sementes, assim como ervas aromáticas, mel, carne e afrodisíacos orientais, plantas. Hoje, também é possível adquirir ali o excelente caviar iraniano, havendo mesmo a possibilidade de comprar roupas e animais de estimação, sendo que estes já nada têm a ver com o original mercado de especiarias. Enfim, fruto dos tempos que correm.

(Continua)

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