PIRATININGA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 Por volta de 1554, numa povoação chamada São Paulo, nos altos de Piratininga, perto do riacho Anhangabaú e dos rios Tamanduateí e Tietê, uma pequena multidão de crianças índias senta-se em círculo no pátio do Colégio. Duas delas avançam para o centro. Uma veste uma camisa vermelha, cor do Inferno.  Outra veste uma camisa azul, cor do Céu. Estamos, portanto, a assistir ao confronto entre um diabo e um anjo, conforme as lições de Gil Vicente. Araras a grasnar e os dois rapazes que não param de berrar um com o outro. Mas não entendo o que dizem porque falam tupi e essa língua eu não domino. Quem me ajuda é o Padre José de Anchieta que traduz:

 ANJO –     O peçonhento dragão

e pai de toda a mentira,

que procura perdição

com mui furiosa ira,

contra a humana geração!

Tu, nesta povoação,

não tens mando nem poder,

pois todos pretendem ser,

de todo seu coração,

imigos de Lucifer.

DIABO –   Ó que valentes soldados!

Agora me quero rir!…

Mal me podem resistir,

os que fracos, com pecados,

não fazem senão cair.

            ANJO –    Se caem, logo se levantam,

                        e outros ficam de pé.

                        Os quais, com armas da fé

                        já resistem e te espantam

                        porque Deus com eles é.

Para gáudio dos adultos, a criançada não pára de vaiar o Diabo. Acho que o autor da peça e dos diálogos em tupi e em português, é o próprio José de Anchieta.

É ele ainda quem me traduz do tupi para português as palavras que ouvi no início desta conversa: Piratininga é Peixe Seco. Anhangabaú é Água doEspírito Mau. Tamanduateí é Rio de Muitas Voltas e Tietê é Água Boa. Diz-me que, para facilitar a comunicação entre brancos e nativos, os jesuítas desejam que a língua portuguesa no Brasil absorva essas e outras palavras tupis.


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