Por volta de 1554, numa povoação chamada São Paulo, nos altos de Piratininga, perto do riacho Anhangabaú e dos rios Tamanduateí e Tietê, uma pequena multidão de crianças índias senta-se em círculo no pátio do Colégio. Duas delas avançam para o centro. Uma veste uma camisa vermelha, cor do Inferno. Outra veste uma camisa azul, cor do Céu. Estamos, portanto, a assistir ao confronto entre um diabo e um anjo, conforme as lições de Gil Vicente. Araras a grasnar e os dois rapazes que não param de berrar um com o outro. Mas não entendo o que dizem porque falam tupi e essa língua eu não domino. Quem me ajuda é o Padre José de Anchieta que traduz:
ANJO – O peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procura perdição
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
DIABO – Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!…
Mal me podem resistir,
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair.
ANJO – Se caem, logo se levantam,
e outros ficam de pé.
Os quais, com armas da fé
já resistem e te espantam
porque Deus com eles é.
Para gáudio dos adultos, a criançada não pára de vaiar o Diabo. Acho que o autor da peça e dos diálogos em tupi e em português, é o próprio José de Anchieta.
É ele ainda quem me traduz do tupi para português as palavras que ouvi no início desta conversa: Piratininga é Peixe Seco. Anhangabaú é Água doEspírito Mau. Tamanduateí é Rio de Muitas Voltas e Tietê é Água Boa. Diz-me que, para facilitar a comunicação entre brancos e nativos, os jesuítas desejam que a língua portuguesa no Brasil absorva essas e outras palavras tupis.