SALAZAR E A I REPÚBLICA – 20 – por José Brandão

 

1912 – Salazar e O Imparcial

Em 22 Fevereiro de 1912, ainda em plena efervescência da política anticlerical da República, é lançado o Imparcial, órgão do Centro Académico da Democracia Cristã de Coimbra, que agrupa sobretudo católicos mas também monárquicos e integralistas. Tinha como director Gonçalves Cerejeira. A redacção do semanário era, inicialmente, na Rua da Matemática, passando depois no seu segundo ano para a rua da Trindade, em Coimbra.

Logo num dos seus primeiros números, o Imparcial assume claramente as suas ligações conservadoras. Aos adversários que acusavam o jornal de reaccionário, responderam sempre que era precisamente essa a sua linha e os que assim o chamavam mais não faziam que «lisonjear o seu orgulho».

Salazar colabora com este jornal, escrevendo regularmente, assinando com o pseudónimo de Alves da Silva e tornando-se o 1.º secretário do jornal. A 14 Março, inicia actividade de publicista no Imparcial, com o editorial não assinado «Tristezas que pagam dívidas», onde protesta contra a situação existente, e faz sua a afirmação de que «Portugal era um cataclismo em marcha». Em fins de Março iniciou Salazar a sua colaboração sistemática no Imparcial. Escreveu uma série de oito «Cartas a uma Mãe», e tratava mais uma vez do seu tema predilecto: a educação. Nelas diz: «eu tenho para mim que nenhuma educação pode ser boa se não for eminentemente nacional».E «educar é dar a Deus bons cristãos, à sociedade cidadãos úteis, à família filhos ternos e pais exemplares». Mas a sociedade não pode nivelar ou equiparar todos de forma indiscriminada há-de ter-se em conta que não são iguais os homens, e, voltando a Salazar: «o princípio da igualdade no tratamento escolar, que passa sem o auxílio dos pais, é suficientemente prejudicial para que lhe demos apoio»; «na escola nem todos devem ser tratados igualmente»; «não temamos assim ofender a justiça»; «não, respeita-se ainda mais, e cumpre-se a caridade…». E para que sejam sólidos e de boa têmpera os homens, a educação «deve ser dura, sem comodidade, sem facilidades»: e porque já estão afeitos às durezas da vida, «os filhos das classes pobres estão nas escolas conquistando os primeiros lugares». E invocando Montaigne – «é preferível uma cabeça bem formada a uma cabeça bem cheia» – deve-se elogiar mais a inteligência do que o saber: «eu sinto uma simpatia imensa pelo cábula inteligente das escolas portuguesas». E estas oito cartas prolongaram-se, na sua publicação, até fins de Janeiro de 1913, e Salazar adoptava no Imparcial o pseudónimo de Alves da Silva. E no fundo a teoria das «Cartas a uma Mãe» era a mesma que já fora exposta nas conferências do liceu de Viseu e do Colégio da Via Sacra. – Refere Franco Nogueira, no seu livro biográfico sobre Salazar que irá ser aqui amplamente citado dado o seu vasto conteúdo informativo. *

*Franco Nogueira, Salazar – Volume I, Civilização Editora, Porto, 2000, pp. 82 e 83.

Com 22 anos Salazar ocupava lugar distinto nos quadros de o Imparcial.

Lançado decididamente na luta contra as medidas republicanas, o grupo do Imparcial defendia-se em todos os domínios e contra-atacava sem hesitações. Em artigos violentos, insurgia-se contra a perseguição aos católicos, e reclamava completa liberdade religiosa para a Igreja. Nas «Aguilhadas», Diogo Pacheco de Amorim agredia violentamente os vultos da política republicana.

Na sequência da publicação do Imparcial, o campo católico prossegue a reorganização das suas fileiras reactivando o Centro Académico de Democracia Cristã, para que é escolhida uma nova direcção. E, em Maio de 1912, é eleita uma nova chefia do Centro. Diogo Pacheco de Amorim conseguira ser eleito presidente da Assembleia-Geral; o padre Cerejeira obtinha a vice-presidência da Direcção e Oliveira Salazar e Teixeira Neves preenchiam os lugares de primeiro e segundo secretários. Seguiam atentamente a política e os políticos de Lisboa, principalmente aqueles que entravam em contestação pública ao novo regime.

No verão de 1912, Salazar deslocava-se até Viseu e no dia 10 de Junho entregava no liceu um requerimento a pedir exame singular da língua alemã. Submeteu-se a provas escritas e orais logo depois, a 16. Saiu aprovado com 15 valores. Regressou imediatamente a Coimbra para os actos grandes na Faculdade de Direito. Apresentou-se a actos, nas quatro cadeiras em que se matriculara alcançou um 17, um 18, e dois 19. Em 15 de Agosto, reunia-se a congregação da Faculdade. Para o ano lectivo de 1912-1913, Salazar inscrevera-se nas três cadeiras do 3. ° ano e em mais duas cadeiras do 4.º ano. Ao mesmo tempo, matriculou-se na Faculdade de Letras, na cadeira de Língua e Literatura Inglesa. Mas tem tempo ainda para a polémica, na actividade política e no jornalismo do Imparcial. Em «Bacharéis e homens úteis» comentava um escrito de Alfredo Pimenta n’O Século e fustigava os ministros que «não procuram homens para bem desempenhar os lugares, mas criam os lugares para bem servirem os homens». Nessa altura já o Imparcial tratava Salazar com a maior distinção.

Mas no Outono as autoridades encerraram o CADC.

Não desanimaram, no entanto, os elementos combativos que desencadearam uma campanha sem abatimento. Apelavam para os novos: «Juventude católica portuguesa, é absolutamente preciso que retomemos o nosso lugar nas fileiras de Cristo, e continuemos a honrar o Seu nome, as tradições da pátria, e um trabalho probo e árduo em prol da redenção social da nossa raça!».

Um mês e meio depois, em 8 de Dezembro de 1912, reabre o CADC sob a direcção de Cerejeira e Salazar. Regozijavam-se: «Hoje, eis-nos de novo no nosso posto, aceitando a peleja de todos os adversários no mesmo pé de lealdade que para com eles usamos». A reabertura foi celebrada com uma sessão solene. Ia continuar o combate a que se juntavam vozes que o Imparcial logo aplaudia.

O dirigente republicano António José de Almeida havia afirmado: «Ah! em Portugal, de facto, não há governo. A nossa república vive em plena ditadura, porque é a ditadura dos bandos. Quem manda é o franquismo das ruas. Quem impera é a tirania dos outros. Suprema miséria! Suprema vergonha!» De imediato o Imparcial, com regozijo, anota, comenta, enaltece as palavras do tribuno republicano. Seguidamente, é Afonso Costa e Alexandre Braga que são atacados sem contemplação. Reivindica-se a liberdade de consciência católica, e a de viver em paz.

Mas, a perseguição anti-clerical não abrandava. Os bispos de Coimbra e Viseu tinham sobre si a proibição de residirem nos distritos das suas dioceses.

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