EDITORIAL: A CIMEIRA IBERO-AMERICANA

 

Lendo as notícias sobre a Cimeira Ibero-Americana que decorreu em Cadiz no fim de semana passado, percebe-se que  o aspecto mais interessante que dela resultou foi o que se pode resumir num pedido de socorro à América Latina por parte da Espanha. Portugal, claro, andou por lá discretamente (por um lado, ainda bem: imaginem que o Cavaco largava mais uma das dele). O  El País, numa das notícias, tem um título assim: O rei pede apoio à América Latina (chama-lhe Iberoamérica) para superar a crise económica. Lendo os textos, percebe-se que se falou de muita coisa, mas que a crise europeia foi o tema principal. Inclusive, houve direito a choradinho: no mesmo artigo, o autor, Miguel González, afirma que passou a época em que a Espanha se apresentava como modelo de transição democrática e milagre económico. Quando até se permitia andar a dar conselhos. E agora olha com inveja a América Latina, a crescer mais de 3 % ao ano, e procura imitar as sua receitas. Até Juan Carlos de Bourbon (é assim que se escreve?) o reconheceu, ao que parece.

A Cimeira não foi um êxito, apesar de todos os esforços em contrário. Faltaram 7 chefes de estado (Cuba, Venezuela, Argentina, Uruguai, Guatemala, Paraguai e Nicarágua), tendo estado presentes 16. Evo Morales e Rafael Correa não estiveram até ao fim. Bastante significativo foi que na declaração final se preconizaram “políticas contracíclicas  que permitam manter e incrementar os níveis de actividade económica e de trabalho decente”. Mariano Rajoy e Passos Coelho assinaram este documento, a pesar de contradizer as políticas que ambos aplicam nos seus países.

Se, pelos padrões habituais, alguém fez boa figura na cimeira foi Dilma Rousseff. Já ontem apresentámos aqui um vídeo com o seu discurso. Nada de muito original, mas demarcou posições e não hesitou em recordar aos anfitriões, muito abalados pela crise e ansiosos pelo incremento do comércio e mais intercâmbio com a América Latina, que os países do seu continente já tinham passado pela austeridade, e tiveram de optar por outras alternativas. Entretanto os europeus não aprenderam nada. Não usou estas palavras, mas deixou-as no ar. E referiu a importância de defender a democracia (vê-se logo que nunca proporia a sua suspensão, ao contrário de certas figuras que conhecemos). Entretanto o entusiasmo entre o Brasil e a Espanha parece muito maior do que entre o Brasil e Portugal.

O El País dá grande relevo e muitos encómios à presidente brasileira, que não parece contrariada com o facto.  A seguir à cimeira foi a Madrid fazer reuniões com  Rajoy, e  mostrou interesse no reforço dos laços económicos. Ela parece muito forte tecnicamente, o que não é vulgar num/a presidente. Defende o reforço das classes médias, mas não vai muito mais longe. Parece estar perfeitamente integrada no regime capitalista. Diz querer regular o sector financeiro, mas quando era Ministra da Energia, com Lula da Silva, deu prioridade ao aumento intensivo da produção de electricidade, no âmbito da campanha Luz para Todos, usando a hidroelectricidade em moldes que agravaram a desflorestação e puseram ainda mais em risco as comunidades indígenas. O objectivo de chegar à meta de todos os brasileiros poderem ter electricidade sobrepôs-se a outros, em certa medida também muito importantes. São aspectos que Dilma deveria considerar, na óptica de desenvolvimento sustentável.

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