O BOTAS – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet 

1936: agitação vermelha vaza de Espanha para Portugal. Reagimos: barreira militar, Legião Portuguesa, cruz de Aviz, invocação de Aljubarrota! Mando que os meus legionários vistam camisas verdes, assim não se confundem nem com a milícia do Rolão Preto, nem com a Falange do Franco. São convocados os funcionários do Estado e todos aderem à Legião; os incapazes de exercícios militares, juram fidelidade ao regime.

No mesmo ano crio a Mocidade Portuguesa, também camisas verdes. Ali os rapazes aprendem a amar e a defender a Pátria, bravos lusitos. E nas escolas imponho um livro único, passaporte para Deus, Pátria e Família.

Nacionalistas, legionários e lusitos, de braços estendidos em saudação romana, andam sempre a marchar pelas ruas, congregam multidões, fazem grande alarido:

– Quem vive?

– Portugal, Portugal, Portugal!

– Quem manda?

– Salazar, Salazar, Salazar!

Contudo, para além da algazarra à superfície, deteto o profundo silêncio da Nação. Somos tristes, eu o disse, mas há aqui um excesso de tristeza. E isto é perigoso, a caldeira do silêncio também pode explodir. Há que montar uma válvula de escape.

Chamo ao meu gabinete os homens da Censura. Digo-lhes que aliviem o rigor sobre as revistas do Parque Mayer, que alarguem o espartilho e deixem passar as alusões à minha pessoa, desde que não sejam ofensivas. E o público sacode-se a rir com os números do António da Calçada ou do Santo Antoninho da Estrela. Só mando cortar O Botas. É alcunha de mau gosto. Não se pode brincar com um defeito físico que me obriga a usar botas ortopédicas, daquelas de elástico, para disfarçar.

Também chamo ao meu gabinete o Agostinho Lourenço. Digo-lhe o que direi mais tarde ao Silva Pais:

– É conveniente que os descontentes tenham sítios onde possam desabafar sem perturbar mais ninguém. Os Cafés podem servir para isso.

Quanto mais estrondosas são as gargalhadas no Parque Mayer e quanto mais se conspira nos Cafés, mais avassala a minha ausência, omnipresença.

(Cartoon de João Abel Manta)


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