Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Cada vez há mais e mais estudantes que deixam de se tratar por falta de tempo e de dinheiro- Um olhar sobre a França
Nathalie Brafman
O custo de vida, habitação, cuidados médicos, a crise económica não tem poupado os estudantes. Mais da metade deles vive com menos de 400 euros por mês. É o que se conclui do terceiro inquérito nacional “saúde e condições de vida dos estudantes” realizada pela Mutuelle des étudiants (LMDE) junto de 8.500 estudantes e publicado terça-feira, 22 de Maio de 2012. Resultado: os estudantes estão cada vez mais propensos a trabalhar, eles eram 48% em 2003, são agora 68 por cento, sete anos mais tarde.
Esta insegurança financeira cria constantes trade-offs em termos das suas despesas, incluindo a saúde. Eram 23% em 2008 a declararem ter abandonado os cuidados médicos durante o ano passado, a taxa chegou a 34%, segundo o inquérito mais recente do LMDE. “É duas vezes mais do que acontece na população em geral.” “Mais grave, enquanto em 2008, esta renúncia tinha apenas a ver com os cuidados médicos mais caros, dentários e ópticos, hoje essa renúncia atinge os cuidados mais correntes ,” diz Gabriel Szeftel, Presidente da LMDE.
Para além da falta de tempo e de automedicação, as razões financeiras são realmente as principais causas desta desistência, desta renuncia em se tratarem. Os alunos sofrem, como o resto da população, com o recuo no esquema básico de saúde. Daí a necessidade de subscrever uma via complementar-saúde, de acordo com Gabriel Szeftel, mas aqui mais uma vez, as desigualdades permanecem: quase 20% dos estudantes não subscrevem esta via complementar de protecção na saúde contra 6% da população em geral.
As respostas para o apelo a testemunharem sobre o acesso aos cuidados de saúde no jornal Le Monde confirmam isso. “Tratar de mim, não é minha prioridade, eu não tenho nem o dinheiro nem o tempo para isso,” diz Ombeline Duprat. Com 25 anos, esta aluna no mestrado em história da arte na EHESS trabalhava vinte horas por semana na biblioteca nacional. Ela vive com 640 euros por mês, tem como despesas para aluguer de casa 425 euros sem os encargos adicionais de água e luz – um apartamento que partilha com outras duas pessoas em Val-de-Marne. Ainda gasta cerca de 150 euros para a alimentação e alguns hobbies. De repente, para se cuidar da saúde ela prefere o famoso ‘ isto vai passar “ou mesmo” um comprimido vai dar resultado “.
“Ombeline considera que a sua situação financeira se tinha deteriorado ao longo dos anos. “Tudo é calculado, eu gasto cerca de 80 euros para me alimentar. “Eu prefiro pratos caseiros e felizmente eu posso almoçar por um euro no trabalho”. Tem mais de quatro anos de “galera” à sua frente porque quer preparar uma tese, mas admite que ela não sabe bem “se ela está pronta psicologicamente para viver mais quatro anos sob essas condições”.
Estudante em administração económica e social na Universidade de Lille II, Alexandre Guérillot diz-nos que tem um orçamento “calculado euro a euro , especialmente a partir do final da segunda semana do mês “, para explicar a sua desistência dos cuidados de saúde. “Se eu tenho de dispor dos honorários das consultas e do custo dos medicamentos , então eu não posso comer durante vários dias, acrescenta ele. O cálculo é feito rapidamente, prefiro antes depender do meu sistema imunológico que até agora não tem trabalhado mal no que diz respeito às patologias benignas”.
Porque uma das razões dadas também pelos estudantes no nosso apelo ao testemunho mas que não aparece no inquérito do LMDE tem a ver com o ritmo lento dos reembolsos. “Especialmente quando o médico não está equipado com um terminal carta Vitale e que os alunos devem adiantar os seus custos, sejam eles membros do LMDE ou Smerep, os seus dois seguros de saúde. ” Já faz seis meses que eu tenho um dente do siso que me incomoda, por vezes me dói, mas desisti de ir ao médico , porque eu sei que preciso ir ao dentista e, depois, fazer radiografias, mas tendo em conta os atrasos no reembolso, espero primeiro por conseguir ter dinheiro de lado”, diz Sophie Caille, 21 anos, estudante de Bordeaux.
A saúde dos estudantes deve ser um dos principais projectos do novo governo, diz Emmanuel Zemmour, Presidente do Sindicato dos alunos, UNEF. Porque, na sua opinião, a pretexto de que essa população pode bem, as autoridades públicas (82% de acordo com o LMDE), nunca estiveram realmente preocupadas com a saúde dos alunos. E este tema foi também vítima de uma fragmentação das competências entre os ministérios da saúde e do ensino superior. Assim, no governo de Nicolas Sarkozy, é Valérie Pécresse e depois Laurent Wauquiez que foram os interlocutores dos alunos.
Em Dezembro de 2006, Laurent Wauquiez, então deputado da maioria em Haute-Loire, tinha estabelecido um levantamento do estado de saúde e da protecção social dos alunos. Na época, ele sublinhou “uma degradação inquietante ” e uma “saúde dos alunos negligenciada “. Para evitar que a ausência de uma cobertura complementar implica desistências aos cuidados de saúde este sugeriu nas suas dez propostas para o “plano de saúde do aluno” a criação de um cheque-saúde de 100 euros, permitindo que os estudantes subscrever um seguro de saúde.
Em 2007, Nicolas Sarkozy, recém eleito Presidente da República, prometeu a criação de um cheque nacional de saúde de 200 euros. Essa promessa nunca viu a luz do dia. Para superar esta falta, algumas regiões têm posto em marcha um auxílio suplementar de saúde: Ile-de-France, França- centro… No total, 20.000 estudantes beneficiam de um tal mecanismo
O lançamento de um cheque-saúde nacional, o estabelecimento de centros de saúde nas universidades para facilitar as consultas, pois é previsto num decreto de 2008… A UNEF pretende trabalhar para que a sua voz sobre estes temas seja ouvida. .
Nathalie Brafman, De plus en plus d’étudiants renoncent à se soigner, faute d’argent et de temps, LE MONDE | 22.05.2012




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