SALAZAR E A I REPÚBLICA – 21 – por José Brandão

1912 – A República do presidente Manuel de Arriaga

Na Presidência da República estava agora o vetusto Manuel de Arriaga. Apesar de ter em cima de si mais de setenta anos, o venerável ancião entendia que a República tinha sido implantada antes do tempo.

Manuel José de Arriaga Brum da Silveira é eleito Presidente da República em 24 de Agosto de 1911, proposto por António José de Almeida, chefe da tendência evolucionista, contra o candidato mais directo, Bernardino Machado, proposto pela tendência que no futuro irá dar origem ao Partido Democrático de Afonso Costa.

O mandato presidencial de Manuel de Arriaga é marcado pela crescente divisão e rivalidade no seio da família republicana, onde Afonso Costa cedo emerge como figura tutelar, e ainda pelas primeiras incursões monárquicas e pela legislação anti-clerical.

Manuel de Arriaga estabelece a residência oficial do Presidente da República no primeiro andar do palacete anexo ao Palácio de Belém, pagando 100 escudos mensais de renda.

O presidente levava a vida a ser assediado com cartas portadoras de pedidos, que iam das vulgares esmolas a dinheiro para enxovais, estudos, instrumentos, livros, e até cautelas de penhores para desempenhar. Nos vastos salões do palacete alugado, ou no Paço de Belém, Manuel de Arriaga oferecia, ora pequenos lanches para pobrezinhos, cegos, inválidos ou órfãos; ora comemorava os aniversários da República com banquetes presidenciais servidos de acepipados Menus, como o de 7 de Outubro de 1912 fornecido pela pastelaria Marques e que constava do seguinte repasto:

Potage creme de volaílle, Madere dry, Hors d’oeuvre, Petítes tímbales de riz de veau Sterlet, Mignonnettes de soles a lá Massena, Bucellas; Filets de boeuf a lá financiere, Collares rouge; Foie gras a lá Strasbourg a lá gelee, Sauterne Roti: Perdreau roti sur canape, Champagne frapee; asperges d’Argenteuil, sauce riche, Entremets. Bombe National Democratique, Porto 1850. Dessert: Eau mineral Lombadas, café, cognac et Bennedictine.

Como noticiava um jornal da época, «participavam no banquete político oferecido pelos Sr. Dr. Manuel de Arriaga, todos os homens em evidência que até hoje têm servido a República».

Contudo, nem Machado Santos, nem Carlos da Maia, ou qualquer revolucionário da Rotunda, estava na mesa «de vinte e oito talheres, enfeitada com grande profusão de flores e cristais», que comemorava o segundo aniversário da República.

Era um banquete republicano que em nada ficava atrás dos da antiga monarquia e que vinha dar razão ao poeta Guerra Junqueiro que, antes do 5 de Outubro, tinha já avisado:

«Quando se fizer a República o que se há-de ouvir não é um grande ruído de espadas: é um grande ruído de talheres…»

Junqueiro jamais deixaria de clamar contra os desvios e desmandos praticados pelas novas autoridades republicanas ou por gente a mando destas.

«A política – dizia Junqueiro a Lopes de Oliveira, escassas semanas após o 5 de Outubro – a política, que devia ser um sacerdócio, é frequentemente uma corrupção; o político, que devia ter cérebro, não tem, muitas vezes, senão estômago. Para que lhe não vejam a cabeça vazia usa um chapéu alto reluzente; para que lhe não descubram o estômago cheio, disfarça-o numa sobrecasaca severa… Dir-me-á que não tenho boas impressões nem da política, nem dos políticos. Ah! Meu amigo! Para fitar o sol, com respeito, é preciso pôr lunetas pretas; para observar a política com optimismo, é preciso pôr lunetas cor-de-rosa. Pelo que respeita aos políticos há sem dúvida excepções respeitabilíssimas em todos os campos; a maioria, porém, considera a Pátria, não um altar, mas um bufete…

– Sim, fui deputado! Tive essa grave doença – mas fiquei vacinado para toda a vida!»

E, não tinha passado um ano sobre a mesma data, para o poeta dizer:

«Vou-me embora, vou-me embora… E não volto mais a Lisboa! A República está perdida…

Vou encerrar-me na minha casa, acabar a minha obra, fazer o meu testamento… Não quero solidariedade com esta gente: preciso defender a minha alma… Corremos para o abismo; estamos num atoleiro…»

A 5 de Março,António José de Almeida apresenta um projecto de amnistia, que englobaria os monárquicos presos por atentarem contra o regime republicano. A proposta serviu de apresentação do partido evolucionista, e foi recusada.

Entretanto, em 17 de Junho, no Tribunal do Segundo Distrito do Porto eram julgados vários dos invasores de Vinhais: padres Domingos Pires, José Maria Fernandes, Abílio Ferreira, Firmino Augusto Martins, Manuel Lopes, David Lopes, o capitão Jorge Camacho, o conde de Mangualde, capitão Remédios da Fonseca, capitão-médico José Augusto Vilas Boas, tenente Figueira, capitão Henrique de Paiva Couceiro.

O julgamento não conseguia pôr termo às incursões. Julgados à revelia, dias depois, entre  6 e 8 de Julho de 1912, as forças monárquicas de Paiva Couceiro entram, pela segunda vez, em Portugal tentando tomar a praça de Valença, o que não conseguem. Entrarão no dia seguinte em Trás-os-Montes tentando capturar Chaves, onde são completamente desbaratados, deixando alguns mortos e feridos no campo.

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