Salvador Espriu, Intérprete da cultura catalã – por Manuel Simões

Salvador Espriu i Castelló (Santa Coloma de Farners, 1913 – Barcelona, 1985) publicou aos dezasseis anos o seu primeiro livro (“Israel”), em castelhano, mas é com a colectânea de contos, “Laia”, que em 1932 inicia uma aventura intelectual pessoalíssima, dando prioridade à poesia como meio mais eficaz para testemunhar a solidariedade dolorosa para com a sua gente perseguida. Ou como diz J.M. Castellet, no prefácio às “Obres completes, I.Poesia”: «o mérito mais importante d’Espriu (…) foi o de saber conciliar (…) a problemática espiritual (…) com o seu destino de membro de uma colectividade sujeita a tensões sociais e políticas, evidenciando os grandes temas da justiça e da liberdade».

Como exemplo paradigmático do seu empenho na busca da concretização de um sonho, transcrevo do seu importante livro “El Caminant i el mur”, de 1954, o poema “Pel meu mirall, si vols, passen rares semblances” (a tradução é minha):

Diante do meu último espelho, ao ver-me

inteiro, doente, talvez acabado,

talvez danado, tão pálido,

disse muito lentamente claras palavras

belas, frágeis, altas, as mais nobres

que encontrava no fosco da recordação.

Desde sempre, porém, ali havia

gordos, moles, viscosos bichos,

que dos cantos vinham até aos lábios

a mordiscar as palavras quando nasciam:

não sentes ainda o rumor profundo

de pergaminho, de ossos truncados, de vidro?

E no espelho, entretanto, reflectia-se

a pouco e pouco uma perversa imagem,

o signo da qual poderás entender,

se fizeres, como eu, a estranha prova

de perscrutar o teu bom fundo, a qualquer hora,

enquanto tentas de novo uma impossível,

inútil criação pela palavra.

Sobre este poema já Giuseppe Tavani, filólogo italiano e catalanista de referência,exprimiu uma interpretação convincente: «O espelho-recordação, com as claras palavras que o poeta diz lentamente, com gravidade hierática, representará a tomada de consciência por parte do próprio poeta, da sua catalanidade sufocada, oprimida, aviltada: uma tomada de consciência final, completada no momento da morte, no momento da verdade (…) A oposição, a resistência a esta criação vem como sempre da mentira, gordo, mole, víscido bicho que corrói e fragmenta e destrói a verdade, construída pelo poeta com as palavras no próprio acto de criação» (in “Poesia e Ritmo”, Lisboa, Sá da Costa, 1983, p. 102).

Com palavras se constrói , portanto,  o poema mas estas palavras assumem-se como armas, tal como noutros lugares é reiterado este sentido pelo poeta: «sabres de paraules em tallen els peus», sabres de palavras cortam-me os pés (“La pell de brau”, 1960) e são até a única arma contra o poder: «I puc alçar només/ unes fràgils paraules/ contra el desdeny/ dels senyors del poder» e posso alçar só frágeis palavras contra o desprezo dos senhores do poder (“Final del Laberint, 1955).

Salvador Espriu  escreveu também obras em prosa e para o teatro. Ricard Salvat, conhecido encenador que trabalhou em Coimbra nos anos sessenta com o CITAC e que, no momento em que estava aprontando um espectáculo sobre textos de Espriu, foi expulso do país pela PIDE, acabou por encenar como obras dramáticas “La pell de brau” e “Ronda de mort a Sinera”, esta última composta por fragmentos de vários textos de Espriu e apresentada até no Festival de Teatro de Veneza em 1971.

Leave a Reply