SALAZAR E A I REPÚBLICA – 24 – por José Brandão

Eu queria que a República fizesse por convicção o que a monarquia fez por cobardia. Eu queria que todo o funcionário público, como todo o homem, tivesse este indiscutido direito, direito sem o qual não há liberdade e portanto dignidade humana: o de proclamar bem alto o seu ideal e de trabalhar para ele pelo pensamento e pela palavra. Eu quereria a liberdade para todos e a penitenciária para os que atentassem contra ela.

Ora a República tem sido terrivelmente reaccionária sob este ponto de vista – e eu não a ataco aqui por ser uma república muito radical, mas por parecer uma monarquia muito absoluta.

E não se queira confundir o rigor perante os actos, que eu sou o primeiro a reclamar, com rigor perante as opiniões, que eu absolutamente condeno. Se alguma coisa tem havido na República de condenável em relação aos monárquicos, é este disparate tétrico: ter-se sido de uma sentimentalidade demasiada perante as suas arremetidas e de uma extrema severidade perante as suas acusações! É que o cérebro português é em geral confuso e caótico; seria necessário um Sócrates para lhe dar o prazer e o hábito das ideias claras; por isso, uns, como alguns democráticos, querem o maior rigor para a imprensa, porque confundem a ordem pública com o silêncio absoluto, e outros, como alguns evolucionistas, querem a máxima benevolência para os conspiradores, porque confundem a tolerância perante as opiniões contrárias, que são sagradas e legítimas, com as acções revolucionárias, que são subversivas e condenáveis.

Um outro defeito que se pode assacar à República é não ter tido até agora verdadeira preocupação em escolher para os lugares de maior responsabilidade os homens de comprovada competência. Temos um exemplo recente no Ministério da Instrução Pública. Isso é triste e revoltante.

Outro defeito ainda é todo o seu falado rigorismo (rigorismo que não existe senão sob o ponto de vista da liberdade de opinião) não ter sido senão epidérmico e superficial, permitindo que continuassem exercendo funções públicas e do mesmo modoque as exerciam homens da mais provada incompetência ou do mais incrível desmazelo ou do mais evidente banditismo.

Ora a República não se proclamou, suponho eu, para fazer a paz imediata, para contentar a toda a gente, mas para fazer a guerra a todos os incompetentes, a todos os desmazelados e a todos os bandidos. A República tem pecado – e o paradoxo vai talvez irritá-lo, meu amigo – por falta de rigorismo. Eu queria afinal – não é curioso? – mais gente descontente. Porque era sinal que se tinha feito nesta terra tão prenhe de abusos obra de justiça e de saneamento público. A República tem desagradado aos monárquicos? Pois bem: ter-me-ia desagradado muito menos a mim se mais lhes tivesse desagradado. Porque, exceptuando meia dúzia de realistas bem-intencionados, pode-se afirmar afoitamente o seguinte: a República tem desagradado aos republicanos pelo que tem de monárquico, isto é, de semelhante ao antigo regímen, e aos monárquicos pelo que tem de honesto, de firme e de intransigentemente republicano.

Tais são os principais erros e defeitos que se podem, em boa justiça, atribuir aos dirigentes republicanos (e englobo todos nesta acusação; eu posso ser justo; não tenho partido político).

Mas ao lado disso é bom não esquecer que já devemos à República – é bom lembrar ao mesmo tempo esta coisa que aos olhos dos censores do actual regímen parece insignificante – que ela ainda não tem três anos completos de existência.

Não seria sério esperar-se a salvação do mundo destes três anos incompletos: Deus era Deus e levou seis dias a fazê-lo. Outros republicanos virão, mais iluminados, menos estreitos, mais idealistas na fé e mais realistas na acção, que façam o que estes ainda não conseguiram nem conseguirão fazer: uma república larga, progressiva, em que caibam à vontade todas as opiniões, uma república de competências e de autoridades. […]»

Era mais uma manifestação de inquietação vinda de um conceituado pensador republicano. Raul Proença alertava para as fragilidades da República.

E, como o país não andava firme, em 20 de Outubro, nova tentativa de revolução monárquica levada a cabo por civis e liderada por João de Azevedo Coutinho.

O plano original contemplava o Porto, sob a direcção do capitão Jorge Camacho, e a capital, mas só saiu em Lisboa. Outros dos implicados eram os coronéis Seabra de Lacerda e Bessa, Moreira de Almeida (pai e filho), o tenente Pereira de Matos, Cunha e Costa, Constâncio Roque da Costa e José Lobo de Ávila Lima. Os conspiradores conseguem sublevar alguns polícias das esquadras, tentando atacar o Quartel da Guarda Republicana e a Escola do Exército. Azevedo Coutinho tentou, sem sucesso de monta, sublevar a Marinha. Foram rapidamente dominados, com a preciosa ajuda da carbonária e da rua republicana, seguindo-se a prisão de vários dos implicados, muito embora Azevedo Coutinho tenha conseguido sair do país. Afonso Costa afirmara ter conhecimento da revolta, pois tinha um homem «infiltrado». Para além dos acontecimentos da capital, verificaram-se cortes de linhas telegráficas e levantamentos noutras localidades como Viseu e Viana do Castelo. Cumpre referir, no âmbito desta intentona, o ataque e destruição do museu da revolução, com a perda de várias peças. Por outro lado, são destruídas em Lisboa, as redacções dos jornais O Dia (dirigido por um dos implicados, Moreira de Almeida) e a Nação.

No país não pára a onda de prisões de gente de todos os quadrantes políticos e que deixa preocupados destacados dirigentes republicanos.

A propósito dessas detenções, a 4 de Novembro de 1913, o jornal  República publica uma entrevista a António José de Almeida: «Falei então ao sr. António José de Almeida sobre a visita às prisões e Lisboa. Foi motivo para que ele verberasse, uma vez mais, os processos do sr. Afonso Costa.

– Contra estes processos, disse-me, já eu protestei na Câmara e não cesso de protestar, tanto no meu jornal como nas assembleias públicas. […] Contudo não posso admitir que qualquer indivíduo suspeito de preferências pelo monarquismo seja preso pela mais arbitrária das formas e acho perfeitamente intolerável que os presos estejam, até ser julgados, numa longa detenção preventiva – e as mais das vezes ainda em que escandalosas condições! Repito o que já disse este regime que não tem nada de republicano, que é a própria negação de República, não pode continuar durando. E é que não durará. Dê lá por onde der, e no intuito de lhe por cobro, empregarei toda a minha energia…»

Leave a Reply