CANTIGA, PARTINDO-SE – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Joam Roiz de Castel-Branco: sei que viveste na segunda metade do século XV. Mas estou aqui, ampara-me. Ou melhor: aguenta-me! Queria ouvir a tua CANTIGA, PARTINDO-SE.  Ela seduz-me, não sei porquê.                                                                           

– Sei eu o motivo da sedução. Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem mordido e comido a maçã do pecado. Sabeis disso?

– Sim, já ouvi falar disso.                                                                                                                                                                                                      

 – Os descendentes de Adão e Eva, tapam as suas partes pecaminosas mas não se aguentam e estão sempre a provar e a comer a maçã do pecado. Que nome dais a esse comportamento?                                                                                                                                      

  – Contravoltas da PAIXÃO?  

– Não está mal visto. Na minha CANTIGA, PARTINDO-SE um cavaleiro apaixonado, em vésperas de partir talvez para o além-mar, despede-se da bem-amada. Preciso dizer mais alguma coisa?

– Precisas dizer muito mais, ó Joam Roiz… Antes de ti, na corte os jograis tocavam e cantavam. Mas depois a poesia palaciana, da qual és um exemplo típico de trovador, limitou-se a declamar. Há porém um golpe de mágica na tua CANTIGA, PARTINDO-SE porque ela consegue incorporar a música no próprio texto. De tal forma que, no meu século XX (cinco séculos depois de ti…) Alain Oulman sobre ela compôs melodia que Amália Rodrigues interpretou. E o mesmo aconteceu com o nosso compositor e cantor Adriano Correia de Oliveira. Pergunto: que mágica foi essa que tu usaste?

 – Não foi mágica, foi engenho.                                                                                                                                                                                           – Explica lá esse engenho. 

– A CANTIGA é toda em redondilha maior, sete sílabas. E todos os versos têm dois acentos tónicos, ora na 3.ª e 7.ª sílaba, ora na 4.ª e 7.ª ora na 5.ª e 7ª. ora isto, ora aquilo. Desta forma consegui eu criar um ritmo avassalador.

– Está tudo explicado?                                                                                                

– Não, não está. Há também um engenho especial para as rimas. As dos primeiros quatro versos emparelham a rima do 1.º com a do 3.º e a do 2.ª com a do 4.º. E essas rimas encontram eco nos últimos quatro versos. E os cinco versos que ficam pelo meio, também rimam entre eles, o 5.º com o 7.º e o 8º. , o 6.º com  9.º

– É tudo?

– Não, ainda não. Falta apontar o advérbio tam, surda pancada que antecede tristes, termo este que domina toda a CANTIGA. Tam irrompe dez vezes. Duas nos quatro primeiros versos. Cinco nos cinco seguintes. Cinco em cinco é circunstância que favorece puxar a trela de cinco adjetivos. Mais informo que os três derradeiros tam surgem nos últimos quatro versos. Entendido?  

– Não sei. Canta lá essa tua CANTIGA para eu verificar se percebi.

E ele canta:

          CANTIGA, PARTINDO-SE

        Senhora partem tam tristes
          meus olhos por vós, meu bem,
          que nunca tam tristes vistes
          outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida. 

Partem tam tristes os tristes
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém
.

Partem tam tristes os tristes

tam fora d’esperar bem  

que nunca tam tristes vistes    

outros nenhuns por ninguém.

– Percebi e estou deliciado, ó Joam Roiz!

Dilui-se o trovador e as suas palavras começam a converter-se em água fresca. Antes que decorra um século LUÍS DE CAMÕES virá beber nesta fonte.

Leave a Reply