SALAZAR E A I REPÚBLICA – 25 – por José Brandão

 

1913 – Salazar e as repreensões de Cerejeira

 

Depois das suas férias de Natal no Vimieiro, prosseguiu Salazar nos começos de 1913 a sua actividade jornalística, de doutrinação e combate. Batia nos mesmos temas e outros afins, mas crescia em audácia e agressividade. Completara a oitava e última das «Cartas a uma Mãe» em Janeiro, e ainda nesse mês publicava a «Justiça das reclamações universitárias». Era uma crítica áspera ao procedimento do governo. Este acolhera sem compreensão um grupo de alunos que se deslocara a Lisboa para reclamar liberdade de matrícula na Universidade; os estudantes haviam regressado «mais com nojo do que com desânimo»; e Salazar mais uma vez aproveitava o pretexto para condenar o ensino que se praticava. Depois, nas «Gerações Perdidas», logo em Fevereiro, tomava à sua conta um artigo de António Granjo na República. E protestava, por causa das deficiências do ensino, haviam-se desperdiçado gerações. Estavam inutilizadas «para a dignidade e o brio nacional, para a virtude e para a honra, para a família e para a humanidade, para a ciência e para a vida fecunda e útil». E por tudo isto flagelava «os políticos diariamente entretidos em perseguições odientas e frivolidades pueris». Salazar afirmava: «isto não pode nem deve continuar assim». E lança um repto ao ministro do Interior: «Mande-nos V. Ex.ª gente nova, ou gente velha com ciência nova, de forma que os princípios expliquem os factos, visto que os factos não são capazes de explicar os princípios.».

Em 17 de Abril, Salazar publica: «Os lentes de Direito e as novas teorias jurídicas – Ao sr. Ministro do Interior – Queixa». E em 17 de Maio: «Os lentes de Direito e as novas teorias jurídicas – II –Ao sr. Ministro do Interior – Queixa.» Artigos que saem no Imparcial, n.º 55 e 59.

21 de Janeiro de 1913. O Governo publica uma Portaria que considera a declaração pontifícia, publicada nas «Acta Apostolicae Sedis» atentatória do disposto na Lei de Separação do Estado das Igrejas.

14 de Março. É apresentado na Câmara dos Deputados um projecto de lei que visa constituir o Panteão Nacional na igreja de Santa Engrácia, em Lisboa. Os republicanos sentiam a necessidade de consagrar algumas figuras da história de Portugal, sendo, igualmente necessário criar um local que não estivesse associado quer à família real, quer às dinastias que reinaram em Portugal. A Igreja de Santa Engrácia fora fundada em 1568, por iniciativa da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, tendo ruído em 1681 a capela-mor, que fora concebida por Mateus do Couto (Sobrinho). A sua reconstrução, iniciada a partir de 1683, foi de novo comprometida pelo terramoto de 1755, que abalou substancialmente a estrutura do templo.

Terça-feira, 10 de Junho de 1913. São lançadas bombas sobre o Cortejo Camoniano, realizado em Lisboa e que desfilava do Terreiro do Paço ao Chiado e à estátua de Camões, reunindo centenas de pessoas, com a participação de bandas musicais, escolas e outras associações, estando o Governo e o corpo diplomático a assistir. Um grupo de desempregados, com a bandeira «Pão e Trabalho» pretende tomar lugar no cortejo, sendo a polícia chamada a intervir. Na rua do Carmo são arremessadas bombas sobre este cortejo matando um vendedor de hortaliças, um operário de Castelo de Vide, um dos próprios implicados e havendo, ainda, a registar vários feridos. O Governo, responsabilizando os sindicalistas pelo sucedido, responde a este incidente com dureza, efectuando um grande número de prisões, encerrando a Casa Sindical e fazendo deportar alguns dos presos, entre os quais o anarquista Pinto Quartim.

Em 10 de Julho o governo de Afonso Costa corta as relações com o Vaticano e fecha a embaixada de Portugal junto da Santa Sé.

Por essa altura fora perseguido um estudante de Medicina, Augusto Mendes, e Salazar e Cerejeira resolvem entregar-se a uma troça ao governo. Numa paródia de um suposto edital, Salazar dizia: «Consta-nos que o nosso director não escreveu mas faz tenção de escrever» um edital em que «Manuel Gonçalves Cerejeira, bacharel formado em Teologia, padre católico ordenado em Portugal, donde jura não sair nunca por falta de dinheiro para viajar, antigo aluno do seminário de Braga», faria saber «a todos os alunos que pertencem ao Centro Académico de Democracia Cristã de Coimbra, e em especial ao sócio Augusto Mendes, que lhe é expressamente proibido fazer publicar no Imparcial qualquer artigo de sua lavra, porque sendo irmão de nada menos que três jesuítas expulsos por Marquês de Pombal e Sucessores, não queira o diabo, quer dizer, o Sr. Ministro do Interior acreditar que isto é um jornal de jesuítas e em consequência disso não só o vejamos suspenso, mas ainda presos ou desterrados os redactores, os quais são todos alunos das escolas de Coimbra, a quem faz muita diferença não concluir o corrente ano lectivo». *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 93.

De regresso a Coimbra, das férias sempre passadas no Vimieiro, Salazar matriculou-se nas duas cadeiras do 4º ano que faltavam e em todas as do 5º ano. E mais uma vez recomeçava a luta. Em Coimbra era já uma figura respeitada e movia-se entre os nomes mais significativos da sociedade. Apesar de ser uma pequena cidade de província, Coimbra não deixava de revelar uma actividade cultural relativamente intensa, especialmente nos espectáculos de cinema mudo, nos clubes recreativos e culturais, nos cafés, nas conferências e, sobretudo, devido à existência de dois teatros onde acorria a pequena e média burguesias urbanas. Sendo também uma cidade universitária, os estudantes participavam nas actividades culturais da cidade, embora também se envolvessem, por vezes, em conflitos com alguns sectores de população da cidade.

Salazar surgia não apenas como estudante destacado, mas principalmente como defensor acérrimo da causa católica. Neste ano lectivo despertou para o sentimento e fazia-se frequentemente acompanhar – segundo diz Franco Nogueira – por raparigas «de boa sociedade ou moças tricanas». Chegou mesmo a publicar uma crónica sentimental que lhe valeu uma severa reprimenda do amigo padre Cerejeira alertando-o de que como dirigente católico não seria benéfico entregar-se «àqueles passatempos».

Abandonando o pseudónimo de Alves da Silva, e assinando-a com um simples S, publicou então uma crónica muito sentimental, muito literária, muito adjectivada, muito rebuscada, a que chamou «Ela». Não era segredo para ninguém a autoria da crónica: amigos e conhecidos. ficaram estupefactos.

Como curiosidade, como diz Franco Nogueira, segue o texto integral dessa crónica que tanto zelo terá causado ao amigo íntimo padre Cerejeira:

«Chamava… Nunca lhe soube o nome. Demasiado pálida talvez, era duma magreza delicada e fina. Condescendia em sorrir, mas tinha nos olhos negros, macios de veludo, a expressão indefinível duma tristeza profunda. Todos os dias à tardinha, quando eu passava, a via no amplo terraço que dava para o poente, naquela ela casa branca que era os meus encantos, erguendo-se sossegada, linda, afogada em roseiras, na exuberância aprazível do pomar. Para além era a extensão das terras cultivadas, os pinheirais sombrios, casais dispersos de gente humilde… Era dali que costumava ver fugir o sol, incendiando o céu e a palidez das nuvens, e esconder-se atrás dos altos cabeços que se atropelavam, estrangulando numa volta o rio do apertado vale. Ali se ficava a cismar, olhando os montes longínquos, envoltos na névoa baça do entardecer, no azulado fumo dos lares que àquela hora revivem no calor dum fogo, na frugalidade de uma ceia pobre. Não vi nunca que chorasse; mas notava-se-lhe sempre o mesmo olhar longo, aveludado, triste… Era isto por Agosto, em terras de província, cortadas de ribeiros claros, cobertas de verdura. Explodia do seio da terra vestida e linda, a vida, em festões de flores, em relvados viçosos, em frutos esplêndidos pendidos dos ramos avergados. As regas refrescavam o solo, enegreciam-no, enquanto sóis estonteantes de luz e calor estoiravam pelo céu imenso, desmaiado. Havia canções pelo ar, musgos macios revestindo as rochas, e sombras frescas, e águas murmurantes, e ranchos de moças a mourejar, cantando e rindo os seus amores. Respirava-se um ar são e sentia-se no fundo d’alma a ânsia infinda de viver. As próprias noites tinham o vago encanto das noites em que a terra dorme um sono leve, embalada pelo som confuso de mil sons dispersos, que se erguem para o céu diáfano em nuvens de aromas esquisitos. Era bem comunicativa a alegria inocente das coisas, mas impotente afinal, contra o mistério daquela tristeza constante. Não lia, não falava. Havia ali um pensamento único, absorvente, necessariamente trágico – chama  fatídica a atrair e a queimar as asas da borboleta celeste. E ninguém a interrompia na meditação dolorosa – fina e branca entre os cachos enormes de glicínias roxas, vicejando no terraço triste, voltado ao poente. Estrelava-se o céu, e lá ficava cismando, o olhar perdido no horizonte imensa, aquele olhar longo, meigo, dolorido, expressão adorável de ternura e de saudade… Disseram-me depois que, em vésperas de noivado, repentinamente, a ferira, sem dó, uma grande desgraça…» S. *

*Franco Nogueira, ob. cit., pp. 98 e 99.

Afora esta «graça», nas colunas do Imparcial a sua prosa torna-se mais combativa, defende a liberdade religiosa, denuncia o que considera como perseguições republicanas.

Salazar e Cerejeira constituem a partir do CADC a Federação das Juventudes Católicas Portuguesas, que organiza o I Congresso em Coimbra em 1913 e nessa ocasião Salazar estreia-se como orador em Coimbra. Em nome da direcção do Centro fala de Deus, Pátria e Família, da liberdade da Igreja, da educação, do papel das elites.

Na passagem do terceiro aniversário da República, esta era asperamente condenada. Num primeiro artigo, publicado no Imparcial n.º 85, Salazar ocupava-se de «Questões Universitárias Os princípios e as leis»: «Não se querem nas aulas alunos que estudem, querem-se alunos que estejam». Depois, nos meados de Dezembro, foi a Braga, numa viagem de acção e combate. Discursaram Francisco Veloso e Manuel Cerqueira Gomes. E depois falou Oliveira Salazar.

Entre os católicos de Braga, o seu nome era já conhecido e admirado: e as suas palavras foram «aplaudidíssimas». Foi a sua oração havida por todos como «peça literária» que, por vezes, «comoveu até às lágrimas as distintas damas presentes», como recorda Franco Nogueira.*

*Franco Nogueira, ob. cit., pp. 97 e 98.

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