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Maus tempos se anunciam para a Europa
Coimbra, em 16 de Setembro de 2026
Maus tempos se anunciam para a Europa: as guerras aí estão e com elas a Alemanha a armar-se até aos dentes, a preparar-se talvez para uma III Guerra Mundial, com guerras de genocídio em diversos pontos do globo, e sem que nenhum líder politico do G7 se atreva a pronunciar a palavra paz, antes pelo contrário, preferem falar em guerra para defesa da democracia e até o “socialista” António Costa nos vem dizer que nos podemos preparar para a guerra ou para proteção contra ela, e isto é uma linguagem curiosa.
António Costa vai mais longe e diz-nos que “considera que é essencial investir mais em defesa, mas isso não significa deixar de lado o Estado social europeu.” Quer isto dizer que a Europa pode investir em canhões e que mesmo assim pode produzir manteiga em abundância, mas isto é o contrário do que nos diz Paul Samuelson no seu célebre manual de Economia em que, segundo ele, mais canhões implica menos manteiga. A propósito, relembro aqui as suas palavras de quando era ainda primeiro-ministro de Portugal, em que nos dizia que os investimentos em armas são investimentos altamente rentáveis porque geram um multiplicador de rendimento igual a 3.
Em Novembro de 2022 e numa peça dedicada ao meu saudoso amigo Jaime Ferreira, a propósito do belicismo de António Costa escrevi:
“Vivemos tempos difíceis e tão difíceis que nos é praticamente impossível descortinar o que será o amanhã, nosso, dos nossos filhos, dos nossos netos, enquanto Vossas Excelências se aprazem com tiradas criativas e de mau gosto direi eu. E isto é válido tanto para o nosso Primeiro-ministro, para quem o dinheiro gasto em fabricar armas terá um efeito multiplicador do rendimento igual a 3, como para o nosso Presidente da Républica, o homem que nunca questionou os prazos do PRR nem a sua conceção, e que agora se apraz criativamente a “ameaçar a Ministra da Coesão Territorial” a quem nunca perdoará se os prazos não forem cumpridos. Mas as tiradas criativas de ambos são múltiplas e não vale a pena ir por aqui. Entretêm-se assim enquanto o país sofre”.
Em Março de 2025, numa entrevista dada a Andrea Neves da Antena 1 António Costa afirmava:
“O presidente do Conselho Europeu considera que uma interrupção temporária da guerra – um cessar-fogo – na Ucrânia só serviria para dar oportunidade à Rússia de se fortalecer e voltar a atacar, o que seria um erro estratégico.” (…)
E reafirmava-se ainda nessa entrevista:
“António Costa considera que é essencial investir mais em defesa, mas isso não significa deixar de lado o Estado social europeu”.
Quer isto dizer que a corrida aos armamentos, na opinião deste “belicista”, não impede a Europa de produzir os canhões que precisa para a guerra e a manteiga que necessita para alimentar a sua população e sem escassez! Não deixar de lado o Estado social europeu. Esta afirmação vinda de quem vem só daria vontade de rir, se ela não traduzisse uma situação dramática do modelo social europeu. E se tomarmos Portugal como exemplo do Estado social europeu, Portugal é um bom exemplo da decomposição desse Estado social europeu e muito antes de se passar a fazer a corrida aos armamentos que se está já a fazer. Com efeito, na minha nota de 2022 acima citada, escrevi:
“Sublinho aqui que os PRR, país a país, foram estabelecidos na urgência, com timings apertados e com as economias a estarem fortemente desarticuladas por múltiplos fatores, entre os quais sublinhamos o Covid, a rutura das cadeias globais de abastecimento, e os mercados de trabalho totalmente disfuncionais. Em Portugal, por exemplo, esperam-nos uma Odemira em cada esquina, Universidades onde se chega a ser remunerado ao nível da empregada doméstica e com o silêncio de muita gente, campos agrícolas onde quase se trabalha ao nível da escravatura, no setor serviços, entre os quais a banca, onde não há horários de trabalho, os hospitais onde faltam quadros, onde faltam carreiras profissionais, onde faltam camas pela política de austeridade durante anos seguida e com o aval de Centeno e de Costa, uma função publica de onde cheguei a receber emails relativos a um processo escolar da minha neta no secundário a um sábado e à meia noite, etc., etc. Nem na função pública há horários a cumprir, no ensino em que tudo caminha para o descalabro e onde já é notária a falta de professores. Mas ao ouvi-los, senhor Presidente da República e senhor Primeiro-Ministro, parece que tudo vai pelo melhor dos mundos possíveis, o de Cândido de Voltaire”. Fim de citação.
Podemos dar um exemplo da Saúde neste país e de agora, 16 de setembro de 2026. Alguém, um funcionário público ligado ao sector da Saúde, tem como diagnóstico provável um cancro. São feitos exames, uma TAC e uma ressonância magnética, e há mais de um mês que se aguardam os respetivos relatórios para estabelecer a terapêutica conveniente. Trata-se de alguém que passou grande parte da sua vida profissional a salvar e a cuidar de vidas em perigo e agora, que chega a sua vez de ser cuidada, descobre que as estruturas de saúde que ajudara a sustentar não a sustentam a ela porque muitos dos serviços de saúde públicos passam a ser externalizados para o sector privado. Até os relatórios são externalizados.
Falamos do socialista António Costa e este é um dos dirigentes menos reacionários que presidem aos destinos da Europa. Com socialistas como este ninguém vai longe, o mesmo acontecendo ao país que também não foi nada longe. Com uma maioria absoluta na Assembleia acaba por entregar o poder à direita dura e a transformar o Chega, o partido da extrema-direita populista, no segundo maior partido na Assembleia da Républica. E a seguir vai assumir a Presidência do Conselho Europeu! Costa fala assim e não vale a pena voltarmo-nos para Úrsula van der Leyen ou para Kaja Kallas, em que os suas ideias são ainda mais reacionárias. A Europa é isto, se nos situarmos nas suas instituições de primeiro plano.
Se olharmos para os principais países europeus o quadro não é melhor: a Inglaterra está em decomposição evidente, a Alemanha vive agora sob o pavor da AfD, com o seu líder a ser ainda pior que Luís Montenegro (leia-se a propósito Adam Tooze sobre Friedrich Merz), a Itália vive sob o poder de uma fascista e isto mesmo que o seu governo o não esteja a ser, a França a viver com o pavor de Marine Le Pen. E podíamos continuar. Daqui se infere que o belicismo europeu tem pernas para andar, mas para isso precisa de dinheiro para investir, precisa de ir aos mercados e possivelmente precisa de “secar os mercados de capitais”. Mas “secar os mercados de capitais” significa taxas de juro a subir e mais, significa ausência de dinheiro para aumentar a produção de manteiga. Costa sabe-o e mente quando diz que as despesas em material de guerra não colidem com o modelo social europeu!
Pergunta-se; mas isto vem a propósito de quê? Vem a propósito da Europa que se desindustrializou, da Europa que perdeu já a batalha da indústria automóvel, a conversão da Wolkswagen para indústria híbrida ilustra esta triste realidade, da Europa que perdeu já a batalha da IA, e já agora, da Europa, acrescente-se, que perdeu já a batalha do ensino e da preparação das gerações futuras [1] [2], vem a propósito desta Europa que para alimentar os grandes grupos financeiros e industriais precisa de recriar a máquina de guerra. Mas como com estruturas produtivas degradadas não se pode aumentar uma máquina de guerra e a produção de manteiga e isto em simultâneo, aumentar a máquina de guerra neste contexto significa logicamente mobilização de recursos para o setor de material bélico e como é que isto se faz? Através da poupança, mas o aumento desta significa então baixa de qualidade de vida das populações que serão levadas a poupar para sustentar a máquina de guerra criada. Como assinalam Alfredo Soad-Filho e Jack Taggart (aqui) num artigo publicado por A Viagem dos Argonautas e intitulado Os dividendos do Ministério da Guerra:
“O que diferencia a atual corrida aos investimentos militares é a dimensão sem precedentes com que o financiamento privado se tornou predominante, tanto a nível nacional como internacional: gestores de ativos, fundos privados de investimento e fundos de capital especulativo (hedge funds) influenciam cada vez mais as indústrias militares. Esta hibridização sem precedentes entre os setores militar e financeiro é impulsionada por duas mudanças. Primeiro, o agravamento das tensões geopolíticas entre as grandes potências — nomeadamente os EUA, a China, a Rússia e a UE —, bem como os conflitos recentes na Ucrânia, na Palestina e no Irão, têm gerado fortes exigências por investimentos militares e pelo rearmamento. Segundo, os investidores ocidentais procuram retornos mais seguros num contexto de estagnação económica persistente.
O resultado é aquilo que chamamos de “militarização financeirizada”; isto é, uma importante via de acumulação e, ao mesmo tempo, uma resposta à intensificação da rivalidade imperial e um fator que contribui para ela. Isso é particularmente evidente na “corrida armamentista da inteligência artificial”, uma competição entre as grandes potências pelo domínio dos sistemas de armas autónomas, que reforça a importância estratégica do desenvolvimento de modelos de IA de fronteira [avançados] e atrai capital especulativo. A indústria de armas autónomas tornou-se, assim, fortemente dependente do investimento privado para financiar a expansão industrial e a infraestrutura intensiva em capital necessária para novos avanços em IA (…)
O aprofundamento da financeirização dos setores militares e de defesa nacionais é resultado de duas crises. A primeira é uma crise estrutural das economias neoliberais: a perda de dinamismo das economias ocidentais avançadas e altamente financeirizadas tem levado à busca por retornos garantidos pelo Estado. A segunda é o aumento da instabilidade geopolítica, impulsionada, por sua vez, por uma ampla gama de problemas contemporâneos: a crescente concentração de riqueza, a deterioração das condições de trabalho, o acumular de dívidas incobráveis, o aumento dos custos da habitação, a retirada de serviços públicos e de direitos universais e, não menos importante, as mudanças climáticas e a disputa por energia, minerais e outros recursos [negritos nossos, JM].
A convergência entre os setores militar, financeiro e tecnológico constitui uma poderosa forma de enfrentar essas crises sobrepostas, permitindo que cada setor consolide o seu poder e gere retornos financeiros. Paradoxalmente, toda essa estrutura depende de injeções de recursos financiados pelos contribuintes — que frequentemente levam os Estados a reduzir recursos destinados às despesas sociais, numa tentativa de aparentar equilíbrio orçamental — e dos investimentos dos fundos de pensão. Assim, os trabalhadores arcam com as consequências da militarização financeirizada, enquanto os seus próprios fundos de pensão a financiam [negrito nosso, JM].” Fim de citação.
Esta é a mesma lógica que presidiu às políticas de austeridade impostas com a Troika, a que se deu o nome de austeridade expansiva. Era preciso poupar para eliminar o défice e reduzir a dívida, uma política que faria depois crescer a economia, lembremo-nos de Passos Coelho, e que aqui recebe outra explicação: é preciso poupar, é preciso investir essas poupanças nos mercados financeiros e estes mercados financiarão a economia de guerra que nos fará depois crescer. Entretanto procura-se colocar as poupanças destinadas às reformas nesses mercados garantindo assim as disponibilidades financeiras de partida para este arranque belicista e sem forçar demasiado as taxas de juro para poupar a dívida publica por essa via.
E os ideólogos ao serviço dos mercados financeiros começam já a aparecer. No caso português o relatório Bravo é estabelecido nesta direção, o relançamento de Passos Coelho no plano político, o homem da Troika, não o esqueçamos, segue essa mesma trajetória e lá fora começa-se já a ler o mesmo discurso: a austeridade que favorece a riqueza de todos. E os textos que sobre esta temática iremos publicar, oportunamente, serão os seguintes:
- O Keynesianismo está morto? de Andy Haldane ex-economista chefe do Banco de Inglaterra The Financial Times
- O keynesianismo finalmente morreu? Jamie Parker-Institute Adam Smith
- Está o Keynesianismo morto ? Michael Roberts
- O escândalo que pode custar caro à extrema-direita latino-americana) Kurt Hackbarth de Jacobin
- Argentina: Milei recarrega as duas baterias- The Economist
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Notas
[1] Sobre ensino não me quero pronunciar. Hoje, dia 16 de setembro, um professor envia uma carta aberta ao diretor do Jornal Público que passo a transcrever:
“Época especial de exames — que resultados?
Fiz parte do conjunto dos professores convocados para a classificação dos exames nacionais da época especial, especificamente das disciplinas de Biologia e Geologia. Não admira que o grosso dos alunos que se apresentaram a exame corresponda aos menos bem preparados. Porém, há aspectos particulares que causam desconforto e sobressalto.
Explico: classifiquei 52 respostas de duas perguntas abertas, de 16 provas, relativamente a uma delas, e de 36 provas relativamente à outra. Esta é uma pergunta que aparece em manuais e livros de exercícios da disciplina. Pois em 36 respostas, 29 obtiveram a classificação de zero, em seis por não haver resposta, e em 23 por não haver discurso perceptível ou minimamente coerente (desde a ortografia à noção de conceitos e à articulação linguística básica).
A sensação foi tal que não me abandona a dolorosa e vexante interrogação: como é possível haver alunos nestas condições ao fim de 11 anos de escolaridade ou que sejam pré-universitários (fim do 12.º ano)?
José Batista d’Ascenção, Braga
[2] Uma das pessoas que reviu este texto enviou-me a seguinte nota:
“Em conversa com amigo sobre a educação, transcrevo o que ele me disse e garantiu ser de fonte segura, eis aqui algumas das respostas dadas por licenciados em comunicação (!!!) que se candidatavam a estágio num meio de comunicação social, e tendo ficado elucidado…com o grau de conhecimento deles (alguns exemplos):
– Regiões autónomas de Portugal – Lisboa e Coimbra
– Capital da Bielorrússia – Kiev
– União Europeia tem mais de 50 países
– Capital dos EUA – Nova Iorque
– Idioma que se fala no Chile – inglês
– Idioma que se fala na Austrália – australiano
Parece demasiado mau para ser verdade, mas foi assim, e quem os entrevistou ainda está a recuperar do trauma !!!” Fim de citação
As notas 1) e 2) dispensam quaisquer comentários.


