EDITORIAL – A REBELIÃO DAS MASSAS

«Deixem a política para os políticos», palavras de Tito de Morais no 10º aniversário da Revolução de Abril. E é o que temos feito. Quando somos chamados a votar, lá vamos, pomos  a cruz onde entendemos (ou onde fazem que entendamos), dobramos o voto em quatro, metemos o papel na urna, cumprimentamos os elementos da mesa e vamos tratar da nossa vida. Deixamos a política para os políticos. O resultado, convenhamos, não é brilhante. E o que esta senhora diz em linguagem crua é aquilo que quase todos pensamos. Mas será que a culpa é só dos políticos? Nós, somos vítimas inocentes? Imagem2

La rebelión de las masas, obra do grande humanista espanhol José Ortega y Gasset (1833-1955), foi publicada em 1930 na Revista de Occidente. É um trabalho de uma grande profundidade, onde se fala pela primeira vez no «homem-massa». É um ser humano que recusa a originalidade e que proclama a vulgaridade como valor supremo. A massificação do gosto, das ideias e dos comportamentos. O marketing cria a massificação ou é esta que faz nascer o marketing? O que apareceu primeiro – a galinha ou o ovo?

Nas obras dos grandes teóricos, do século XIX até à primeira metade do século XX,  o papel revolucionário das massas é um dado adquirido. No entanto, não nos ocorre que alguma das revoluções que se verificaram no século XX tenha sido  liderada por um proletário – Lenine nasceu numa família da classe alta, Estaline, embora filho de gente pobre, foi seminarista, Mao era um bibliotecário filho de camponeses abastados, Fidel um advogado proveniente de uma família importante de Havana, «Che» um médico… É natural que assim seja, pois as massas não detêm os meios de difusão do saber e por isso os seus líderes, vêm das instituições escolares da burguesia, onde recebem a formação e ganham, inclusive, a consciência de que é necessário extinguir a injustiça social que os beneficiou. Mas as massas são sempre invocadas.  Os exemplos são muitos.

A Revolução Francesa mostra-nos como a burguesia ilustrada, impaciente por tomar o lugar da moribunda aristocracia, se serviu das massas populares, envolvendo-as numa trama onde esperava ser protagonista, reservando ao povo o habitual lugar de figurante. Sob o barrete frígio da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocultavam-se interesses económicos e ambições políticas da emergente burguesia. Sabemos o que aconteceu. O animal tomou o freio nos dentes e muitos dos que esperavam tomar o poder, ficaram com a cabeça cortada.  Quando se envolve o povo, as massas, numa revolução e se diz que ele é o protagonista, existe sempre o perigo de que ele acredite. Platão chaamava-lhe a turba. E expendendo os seus conceitos de democracia, excluía a turba de nela intervir.

Querendo evitar-se a balbúrdia de verões quentes, a chamada «democracia representativa» foi criada para impedir que a turba, as massas populares,  intervenham na cousa pública, metendo o nariz onde não são chamadas. A democracia representativa é uma espécie de democracia asséptica – ama o povo, mas não lhe suporta o cheiro. Portanto, cidadãos, «metam lá o papelinho dobrado em quatro quando nós dissermos, mantenham os impostos em dia, e deixem o resto connosco.

Deixem a política para os políticos, aconselhou Tito de Morais de cravo vermelho na lapela, em plena Assembleia da República, em 25 de Abril de 1984. O que a senhora no vídeo diz não é novo – é o que a maioria das pessoas pensa dos políticos. A questão é que todos somos políticos e temos de vigiar aqueles em que votamos, pedir-lhes contas – exigir que cumpram o que prometeram durante a campanha. A alternativa é a revolta, a rebelião ou mesmo a revolução. É isso que os políticos querem?

Deviam saber que a turba leva tempo a acordar, mas quando acorda…

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