RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Nota sobre o texto Aqui as pessoas  vivem. Em Portugal as pessoas sobrevivem

Nicolas Bourcier

De Portugal para o Brasil, para o mundo, para onde haja um português obrigado á força das circunstâncias a abandonar o   país, para um amigo meu de nome Pedro que num  outro Brasil procura fazer o mesmo que o Pedro Louro da peça, para todos os migrantes que o são por  força do destino que lhes é imposto, a todos eles dedico com muito carinho  o trabalho de composição desta peça.

Júlio Marques Mota

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Os expatriados da crise:  1/6 – Aqui as pessoas  vivem. Em Portugal as pessoas sobrevivem ,

” Aqui, as pessoas vivem. Em Portugal, as pessoas sobrevivem”.

 

Não consigo dizer que aqui Cristo mantenha sempre os braços abertos

Pedro fuma a sua pequena cigarrilha tranquilamente, como quem apendeu a saborear a beleza dos momentos calmos. Sentado a beira da janela, de costas para o Corcovado onde reina Cristo Redentor, de braços cruzados, Pedro Louro tenta esboçar um sorriso ao lembrar-se do seu Portugal, agora longínquo e de antes da crise, desses anos de um outro tipo de  insatisfação e de uma outra inquietação nos inícios dos anos 2000, quando o gabinete  de arquitectos  que ele próprio tinha montado na cidade de Cascais, cidade portuária, suave e turística a 30 km de Lisboa, não parava de receber encomendas. Quanto a estes anos deixa-nos escapar, sem qualquer emoção especial. ” Talvez os melhores anos de minha vida”, conclui.

 Pedro Louro

 

Com 47 anos de idade Pedro Louro partiu para longe da sua terra natal. Pai de família, separado da sua antiga companheira, chegou num dia de Dezembro de 2011, sozinho ao Rio de Janeiro. Pedro nunca tinha estado no Brasil, nem mesmo para passar férias. Diplomado em Arquitectura pela Universidade Técnica de Lisboa, com mais de 20 anos de experiência no ramo,  Pedro diz ter simplesmente querido  escapar de uma crise que lhe levou quase tudo.

Foi uma amiga, uma luso- brasileira a viver desde longa data  em Niterói, uma cidade situada do outro lado da baía do Rio de Janeiro, que o entusiasmou com a ideia de que o país  estava  em forte crescimento . Como muitos, ele comprou um bilhete de avião, fez as malas, recuperou algumas economias e obteve um visto de turista por três meses nos serviços consulares do Brasil para tentar encontrar um futuro melhor.

Ele sabe que o seu caso está longe de ser um caso isolado. Por exemplo, o número de cidadãos espanhóis no país quase que dobrou nos últimos dois anos. E mais de 50.000 portugueses chegaram ao Brasil em 2011. Ainda muito recentemente foi criada uma página no Facebook para ajudar os estrangeiros que procuram aqui trabalho. Esta já atraiu mais de 40.000 visitantes. Um espaço virtual onde todos os dias mais de 500 pessoas, na sua maioria portugueses fazem parte da comunidade que visita esta página. “O que é que quer, o sistema em Portugal deixou de funcionar. Tudo é extremamente lento, os projectos não avançam. Isto já  não é sustentável. ‘

Pedro Louro disse que sentiu o início da crise em 2006. As ordens de encomenda  secaram, os contratos passaram a ser bem mais espaçados, a começarem a ser já raros. Pedro aguentou mais de dois anos  graças aos lucros havidos no passado, nos anos anteriores. De oito arquitectos passou a ter só dois no seu gabinete. Depois, ficou apenas ele, por conta própria portanto. Aceita alguns trabalhos de planeamento urbanístico. Dois anos depois, ele vê-se obrigado a partilhar o seu atelier com outros arquitectos. A queda torna-se irresistível.

No terreno, ele ainda procura diversificar a sua oferta, acredita em dada altura ter encontrado  um filão na preparação de estudos para valorizar  os espaços públicos. Trabalho perdido. A crise é muito forte. As falências multiplicam-se . Ele levanta os ombros: “O sector da construção em Portugal caiu no ponto morto. “

No Brasil, instala-se na casa da sua amiga , diz-nos. Na sua  carteira, uma lista de oito arquitectos que ficaram em casa mas prontos a saltarem sobre o primeiro avião,  à mínima oportunidade de negócio. “Eu vim sem preparação, com o desejo de ver as pessoas frente a frente, com o meu currículo e com as minha realizações debaixo do braço. “

Por enquanto, ele não encontrou sapato para a sua medida. Alguns biscates num atelier e numa galeria de arte, mas nada mais. Ele acrescenta, com um largo sorriso: “Ao vir, pensei que encontrar trabalho seria bem mais rápido. As pessoas  receberam-me com uma tal amabilidade , todos me disseram que me iriam ajudar, e depois, não se viu grande coisa . ” Não consigo dizer que aqui Cristo mantenha sempre os braços abertos”.

Numa conversa informal, um empresário brasileiro disse-lhe que se ele tivesse sido um engenheiro, teria então encontrado trabalho imediatamente. Uma profissão altamente solicitada dado o rápido crescimento do investimento industrial e das infra-estruturas, foi o que me disse. “Claramente, estava a avisar-me de que eu precisava de um ano para encontrar trabalho à minha medida. O Brasil é um país complexo mesmo para aqueles que falam a língua! “

Então Pedro tem paciência. Ele acabou de conseguir e com sucesso a sua inscrição na Faculdade de Gestão da cidade. As aulas começam em Julho deste ano, a 700 reais por mês (282 euros). Depois, acrescenta: “Estou convencido de que as coisas acabarão por funcionar, pois há uma onda de energia que impulsiona este país. ” Aqui, as pessoas vivem. Em Portugal, as pessoas sobrevivem”.

Sobre uma vintena de candidaturas enviadas, Pedro Louro conseguiu uma entrevista numa grande empresa de arquitectos  em Niterói. Três outros encontros foram depois realizados , diz ele. “Fiquei surpreso com a exigência profissional dos meus interlocutores, a quem foi necessário tudo mostrar projectos de execução, os detalhes das minhas capacidades profissionais  durante mais de uma hora em cada um dos encontros. Fizeram-me compreender que não estavam a contar comigo mas uma vez que estava ali, sejamos profissionais a corpo inteiro, não brinquemos. “

Pedro Louro espera uma resposta afirmativa. Ele quer acabar de uma vez por todas com o status de imigrante ilegal, ele deseja obter documentos em regra, a fim de ser capaz de poder viagem até Portugal e em paz. E continuar a fumar a sua cigarrilha durante longos e frutuosos anos no seu país de adopção.

Nicolas Bourcier (Rio de Janeiro, correspondente) 1. Les expatriés de la crise de l’euro 1/6 – « Ici, on vit. Là-bas, on survit », Le Monde, 27 de Julho de 2012

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