EM VIAGEM PELA TURQUIA – 56 – por António Gomes Marques

Como o leitor terá percebido, Istambul é o que pode dizer-se uma das minhas cidades. Visitei-a por duas vezes, como referi mais do que umaImagem1 vez, com 21 anos a separar essas visitas e, como seria natural, sobretudo num país em crescimento acelerado, as diferenças para melhor são acentuadas. Não me refiro aos altos e modernos edifícios, o que menos me agrada, mas à vida que sentimos ser a dos turcos. Diz Orhan Pamuk, na já citada obra «Istambul – Memórias de Uma Cidade»: «Mas os vestígios arruinados dos grandes impérios não são, em Istambul, como monumentos históricos num museu à semelhança das grandes cidades ocidentais, não são como objectos que se protegem, de que as cidades se orgulham e que expõem com honra. Em Istambul, as pessoas limitam-se a viver no meio desses vestígios históricos.» (pág. 107).

Desta vez, encontrei uma cidade limpa, melhores transportes públicos, melhor parque automóvel, mais tranquilidade nas caras das pessoas, pormenores importantes que me pareceram evidentes. Não é de estranhar, sabendo-se que, depois da China, a Turquia é a economia com o mais rápido crescimento no mundo, o que será uma das razões para que nunca, nos muitos quilómetros feitos na Anatólia e depois em Istambul, tivesse encontrado pessoas com aspecto de quem tem fome. Não estou a dizer que não haja, estou a dizer que não vi.

                       

Chafariz na Praça do Hipódromo

Gostaria de ali passar, no mínimo, um mês, para sentir a cidade de outra forma, para ter a possibilidade de visitar  todos os seus bairros, dos mais ricos aos mais pobres, e assim poder ter uma opinião mais fundamentada e, já agora, para sentir na pele esse sentimento de que nos fala Pamuk, o hüzün. Diz Pamuk: «Agora, no entanto, esforço-me por falar não da melancolia de Istambul, mas do hüzün (muito próximo da melancolia), um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade. Tal significa ter a capacidade de ver os locais e os momentos em que o próprio sentimento se mistura ao ambiente que o comunica à cidade.» (pág. 101). Ora também eu gostaria de experimentar esse sentimento, mas não me parece que seja possível sem uma vivência profunda na cidade. Dir-me-ão que será também necessário ser turco, mas não serão os portugueses dos povos que melhor poderão interiorizar tal sentimento? Quem sabe se um dia não terei possibilidade de fazer a experiência!

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Do Palácio Topkapı, vista parcial de Istambul

Da primeira vez que ali estive quem mandava eram os militares, agora os militares estão submetidos ao poder político, uma das condições para a adesão à União Europeia. Em contrapartida, também me pareceu haver alguns sinais de que há forças poderosas para destruir uma das maiores conquistas de Mustafá Kemal Atatürk – a separação da religião e do estado, separação essa de que os militares pareciam ser um suporte. Vi mal? Espero bem que sim, pois se houver algum partido político que consiga devolver o domínio do poder à religião, o progresso da Turquia, na minha opinião, sofrerá um duro revés. Oficialmente, a Turquia continua a ser uma república secular, sem religião oficial, garantindo a Constituição liberdade religiosa e de consciência.

Evidentemente, o Islão é a religião dominante, o que não significa que toda a população de origem turca seja praticante. Das várias leituras que fizemos sobre a religião na Turquia, não conseguimos chegar a uma única conclusão; se é verdade haver concordância na percentagem de população muçulmana, 97%, já o mesmo não acontece quanto ao número de praticantes da religião do Islão. Há quem afirme que 99% dos muçulmanos são praticantes, há também quem diga, o que corresponde ao que ouvimos na própria Turquia, que os praticantes não serão mais do que 66-70% da população; mas também alguém nos disse que 70% da população assume ser crente da religião do Islão, embora apenas 30% seja realmente praticante.

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Navegando no Bósforo

A população não muçulmana, 3%, é na sua maioria cristã. Destes, católicos romanos não serão mais do que 5.000, havendo também judeus, católicos e ortodoxos arménios, católicos caldeus e outros. Ateus ou agnósticos serão cerca de 3% da população, percentagem esta reafirmada por vários, o que impossibilita que 97% dos muçulmanos sejam praticantes do Islão.

Relembrando o que escrevemos na pequena biografia de Mustafá Kemal Atatürk, a Constituição da República da Turquia é peremptória ao obrigar à rigorosa observância do secularismo, não abrindo, portanto, qualquer excepção, apesar do peso percentual que o islamismo tem no seio da população do país.

Lembramos também que existe a proibição de usar determinado vestuário, caracteristicamente muçulmano, nas escolas e universidades assim como em edifícios públicos, inclusive o lenço para cobrir a cabeça das mulheres, o hijab, considerado símbolo muçulmano. Algumas tentativas do poder islamita, agora no Governo, têm havido para acabar com estas proibições.

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