Transcrito do REFERENCIAL, boletim da Associação 25 de Abril, com autorização expressa da presidência da A25 e da direcção do REFERENCIAL. Temos o maior prazer em iniciar esta colaboração com um texto do Professor Galopim de Carvalho, conhecido principlalmente pela sua actividade científica, mas que tem bem sucedidas incursões na área da literatura de ficção, tais como: O Cheiro da Madeira (1994), O Preço da Borrega (1995) e Os Homens não Tapam as orelhas (1997).
Primeiro na escola primária e, depois, nos primeiros anos do liceu, cumprimos, sem quaisquer problemas, a filiação obrigatória na Mocidade Portuguesa, de início como lusitos, até aos 10 anos, e a seguir como infantes até aos 14. A farda, incluindo um par de botas, era dada pela delegação local às crianças cujas famílias não dispunham de posses para a comprarem e vendida, a preço relativamente acessível, às que não precisavam desse apoio. O “Fred”, Alfredo de seu nome, órfão de pai e mãe, aos cuidados de uma avó a trabalhar aqui e ali, onde quer que a chamassem, precisou dessa caridade. O meu pai, empregado de escritório, teve de me comprar duas, pois que,
enquanto uma ia a lavar, havia que vestir a outra. Não me comprou botas, porque botas já eu usava, das grossas e reforçadas com duas fiadas de cardas.
Não gostámos nem desgostámos de andar fardados de verde e castanho. Era uma roupa como outra qualquer, dizia este meu condiscípulo, numa demonstração de maturidade que sempre o acompanhou. Aos sábados de manhã, as actividades desenvolvidas no âmbito desta organização juvenil do Estado Novo tinham por instrutores uns tantos sargentos do exército, arregimentados para o efeito, a troco de um magro suplemento no soldo. Eram horas a fio de formaturas e exercícios de ordem unida, com “esquerda e direita, volver”, “em frente, marche”, e o inesquecível “um, dois, esquerdo, direito”, em preparação para paradas ao estilo da tropa. A par dos instrutores havia os comissários incumbidos de nos dar formação ideológica, quase todos recrutados entre os professores mais identificados com o regime ou que dele visassem tirar algumas regalias. O essencial do suporte logístico dos nossos acampamentos, deslocações e outras actividades, vinha-nos da tropa. Eram da tropa as viaturas que nos transportavam, as cozinhas de campanha e os cozinheiros que nos confeccionavam o rancho, e as enfermarias móveis e os enfermeiros que nos acompanhavam.
Nos desfiles, em cerimónias de comemorações patrióticas, a rapaziada marchava garbosamente, de passo bem acertado, para grande orgulho do “nosso sargento” e, ao passarmos pela tribuna, esticávamos o braço direito, num Heil Hitler à portuguesa, em saudação às personalidades militares, religiosas e civis ali presentes. Nas paradas, em formatura disciplinada, ouvíamos belas prelecções dos nossos comissários, exaltando o amor à pátria e à família e a obediência aos chefes. O nosso capelão falava do amor a Deus e à Virgem, de lírios
brancos e de pombas da mesma cor… Para nós, nesses anos, havia motivos de interesse nesta organização que não associávamos aos regimes totalitários, uma realidade que nos escapava completamente. Fora as grandes secas que eram a instrução, os desfiles e as paradas, a “Mocidade” facultava-nos a ocupação despreocupada de tempos livres e, no geral, agradáveis. Equipava as escolas com material desportivo e promovia actividades convidativas como ginástica, campismo e aviominiatura.
A sede da nossa ala dispunha de uma biblioteca juvenil, com obras bem escolhidas pelos mentores locais, e salas e jogos com ténis de mesa, laranjinha, damas, xadrez e outros do nosso agrado. Destas actividades, que mal ou bem praticámos, ganhámos um gosto muito especial pelo campismo e, curiosamente, foi este contacto com a natureza que nos permitiu conhecer o outro lado da moeda que nos era apresentada pelos nossos ideólogos. Esse outro lado não era acessível aos rapazes da nossa idade, nem eles tinham nisso natural interesse. Mas os crescidos conheciam-no e, destes, havia os simpatizantes e apoiantes do regime, os indiferentes, que eram a grande maioria, e os “da oposição”, apontados a dedo como sendo do “reviralho”, perseguidos pela polícia política, presos, alguns deles torturados e um ou outro assassinado.
Como “filhos” do regime e acarinhados pelos seus chefes, éramos, por assim dizer, membros de uma grande família onde cabiam as forças vivas da cidade, civis, militares e religiosas, as polícias e a GNR. O campismo selvagem que fazíamos permitiu-nos conviver com alguns resistentes ao regime, conhecer as suas ideias e as razões das lutas que travavam. Foram muitas as vezes que, com uma “canadiana” e outros equipamentos requisitados na sede da “Mocidade”, calcorreámos montes e vales, conhecemos herdades e os trabalhos que nelas se faziam. Das ceifas e debulhas, ao descortiçar dos montados de sobro, ao varejo e apanha da azeitona, tudo vimos ao mesmo tempo que conversávamos e, às vezes, confraternizávamos com os trabalhadores, sentados no chão, de navalhinha na mão, comendo pão com lasquinhas de queijo ou de linguiça. Participámos em vindimas, respirámos o cheiro do mosto, provámos o vinho novo pelo São Martinho e assámos e petiscámos toucinho, durante a destila, junto ao alambique, acompanhado de sorvinhos de aguardente. Vimos, num velho lagar, esmagar a azeitona com moinhos de pedra numa velha máquina da antiga fábrica metalúrgica do Tramagal, vimos espremer a pasta entre capachos, a separar o bagaço do mosto, e sentimos o forte aroma do azeite virgem a sobrenadar uma aguadilha suja. Bebemos água dos poços e molhámos os pés nos regos das hortas onde nos deixavam apanhar beldroegas com que fizemos muitas das nossas refeições.
Alguns destes trabalhadores rurais, soubémolo mais tarde, eram militantes do Partido Comunista. Com todos os defeitos sectários das militâncias, estes nossos amigos estavam certos em muitas das coisas que diziam. Sabiam ser homens desumanamente explorados por outros homens. Sabiam que, muitas vezes sem trabalho, não tinham pão para os filhos, numa pobreza de fazer dó, ao lado das montanhas
de cortiça e dos Mercedes dos senhores da terra. Eram homens a lutarem na clandestinidade contra esta aberração que foi a nossa sociedade ao longo da história. A vida separou-nos, cada um para seu lado, mas não perdemos o contacto. – Qualquer adolescente, na generosidade própria da sua condição de rapaz a abrir portas e janelas à vida, só pode alinhar ao lado dos explorados e oprimidos. – Disse-me o “Fred”, na última vez que o acaso nos juntou. – Foi no convívio com o mundo rural da nossa terra que escolhi o lado da barricada onde me situei para a vida.
E foi isso que me aconteceu. Sinto-me um filho do campo e irmão dos camponeses. – E acrescentou, num tom apreensivo. – Tivemos um vislumbre de mudança após a Revolução dos Cravos, mas os espertalhões que, ingenuamente, colocámos no poder, estão a reconduzir- nos à mesma indignidade. E é preciso voltar à luta. Eu ouvia-o com toda a atenção. Conhecera-o bem e era exactamente aquilo que eu esperava que ele dissesse. Esta evocação dos cravos trouxe- me à ideia uma reflexão que me ocorreu nesse Abril de 74.
– Os homens e as mulheres da nossa idade, estavam na fase mais pujante das suas vidas, quando foram apanhados pela revolução, – comecei eu por dizer. -Não revelaram o mais pequeno apego ao regime acabado de cair, no qual era suposto terem sido moldados. Não fizeram um gesto em sua defesa. A injecção de ideologia salazarista que, como nós, receberam na Mocidade Portuguesa, não surtiu qualquer efeito. O ditador faleceu quatro anos antes e, com ele, a filiação obrigatória na já então defunta organização. A Mocidade Portuguesa não fez nem os homens nem as mulheres que Salazar sonhou.
– Vê o meu caso e como eu há muitos. – Respondeu o meu amigo. – Os anos que se seguiram ao meu despertar para a vida e o desenrolar dos acontecimentos dentro e fora das nossas fronteiras, acabaram por caldear a minha maneira de ver o mundo e por definir o espaço da sociedade onde quero e gosto de estar. E olha, – continuou – quando, aos 17 anos, a “Mocidade” nos fez cadetes e nos obrigou a cumprir a milícia, este “Fred” que está aqui à tua frente já não era o filiado ingénuo e alheado da realidade social e política do nosso país. E quando a tropa, nesse tempo o sustentáculo armado do regime, me chamou a prestar serviço nas fileiras, abriu as portas a um resistente e antimilitarista convicto, fazendo a militância que lhe era possível fazer. O nosso povo – desabafou, em jeito de conclusão – está adormecido, alienado, praticamente morto e a suportar resignadamente este caminhar para o abismo.
No 25 de Abril, fiz as pazes com a tropa e hoje pergunto-me muitas vezes de que é que os nossos militares no activo estão à espera para varrerem de cena esta cambada que tomou conta do nosso destino? Tenho a certeza que, se um dia, eles decidissem vir para a rua, Portugal tornava-se a encher de cravos. Tantos ou mais do que da outra vez!
