REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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O euro, stop ou então? Entrevista com Philippe Murer

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012,

(continuação)

Parte II

– Quid do federalismo ?

murerentrevista - IV

Para Philippe Murer, a política conduzida pelo BCE desde 1999 reforça os problemas da zona ao centrar-se na inflação e contribuindo para a sobreavaliação do euro. No entanto, as diferenças de competitividade são sobretudo de natureza estrutural e não poderiam ser resolvidas senão concebendo transferências orçamentais entre países. É a via do reforço da coordenação das políticas económicas, que se pode sintetizar numa só palavra, federalismo.

Sobre esse ponto, ele pensa que não é razoável considerar  avanços em termos de federalismo a curto prazo, porque o federalismo é um processo lento, que irá exigir ainda dezenas de anos, e não é possível esperar muito tempo quando estamos perante uma situação de crise a ter de ser resolvida muito rapidamente. Além disso, os povos da Europa, não são por acaso favoráveis a esse federalismo e, sendo assim , a única opção é então a de lhes impor um federalismo orçamental, contra a sua vontade, o que só pode levar a um falhanço a mais ou menos longo prazo. Aliás, ele considera que isso equivale a impor o casamento a um casal que não funciona desde há muitos anos, esperando ingenuamente que isso os irá ajudar a resolver os seus problemas.

Acrescento, também, que é o contrário que parece acontecer, porque mesmo que as nossas elites produzam relatório sobre relatório (cf o último saído das mãos de Barroso) para defender uma maior integração política, as tensões crescem entre os povos, como pode ser visto na Alemanha, onde os jornais criticaram severamente a Grécia ou na Holanda durante as suas eleições, em que  a cisão com o sul da Europa foi claramente levantado por alguns.

murerentrevista - V

Murer, por fim, lembra um outro factor que poderia permitir a redução das diferenças entre os países europeus, a saber, uma maior mobilidade dos trabalhadores que deixariam os países em crise, onde já não encontram emprego, para irem à procura de trabalho na Alemanha ou na Holanda, por exemplo. Ainda aqui, isto não funciona na prática, porque os cidadãos europeus, mesmo se eles se sentem europeus, não têm actualmente o sentimento de fazer parte de uma só nação, única, na qual seria indiferente trabalhar num país ou noutro. A mobilidade intra-europeia, é pois muito pequena.

Gostaria de acrescentar que uma das principais blocagens para essa mobilidade é a barreira do idioma, o que explica que os trabalhadores americanos são muito mais móveis de um Estado a outro. Mas pode ser que o passaporte europeu de Jacques Attali vai resolver esta questão… uma pequena piada, dita de passagem.

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Último ponto sobre mobilidade, verifica-se hoje que muitos trabalhadores procuram deixar a Grécia, a Espanha ou Portugal, especialmente os jovens confrontados com o desemprego em massa, mas muitas vezes o seu destino não é um outro país da zona euro. Por exemplo, em Portugal há desde 2009 um êxodo maciço e muito preocupante de trabalhadores, muitas vezes de jovens e licenciados, que é orientado principalmente para as antigas colónias portuguesas, como o Brasil ou Angola. O próprio Governo incentiva esta emigração, e esta atinge uma dimensão tal que já se aproxima dos valores da grande vaga migratória da década de 1960, o que representa à evidência uma terrível admissão do fracasso das políticas de rigor e das reformas que supostamente eram e são aplicadas para melhorar a situação do país…

murerentrevista - VII 

(continua)

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