PADEIRA DE ALJUBARROTA – por Fernando Correia da Silva

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Ó Brites de Almeida, ó refilona: passas por Aljubarrota, burgo não muito longe do litoral. Numa taberna ouves uma conversa que desperta a tua curiosidade: a padeira da terra está muito velha e cansada, precisa encontrar urgentemente uma ajudante. Bebes mais uma caneca de vinho e arrancas, vais bater à porta da padeira. Ela mira demoradamente o teu rosto e os teus braços, parece impressionada com a tua frontalidade e o teu físico, contrata-te como ajudante. Dois ou três anos depois morre a padeira e tu recebes, de herança, a padaria. 

Ficas tranquila? Nem por isso, porque há notícias preocupantes a correr por todo o Reino: Leonor Teles, a viúva d’El Rei D. Fernando, tem uma filha,  D. Beatriz, casada com El Rei de Castela. E este, aconselhado pela sogra, a pretexto de defender os interesses da esposa pretende arrochar a pata sobre todos os portugueses, desde a arraia-miúda, à burguesia e à nobreza.  

Juan de Castilla começa por cercar a cidade de Lisboa. Quem salva os lisboetas é não só a determinação da arraia-miúda em resistir, antes quebrar que torcer, mas também uma peste providencial que se abate sobre as hostes castelhanas.  

Mais tarde portugueses e castelhanos defrontam-se nos campos de Atoleiros, perto de Fronteira. A vitória pende para o nosso lado porque o Condestável D. Nuno Álvares Pereira ensaia a técnica do quadrado que bebera na estratégia militar de Alexandre Magno. Para alguma coisa servem os livros com mais de mil anos de existência… 

Mas a batalha decisiva vai acontecer em 14 de Agosto de 1385 nos campos de Aljubarrota, 7.000 guerreiros portugueses contra 30.000 castelhanos. Estes sorriem do reduzido número de adversários, arrogância. Comandam as nossas tropas o Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o Mestre de Avis (D. João I). Mas a técnica do quadrado foi apurada e, apesar da desproporção numérica, os castelhanos outra vez são derrotados, gritos, relinchos, desespero.  

Tu, Brites, ouves o fragor da batalha e não te aguentas. Corres para o campo da peleja, recolhes a espada de um moribundo e tratas de juntar-te à tropa portuguesa e à arraia-miúda que perseguem os fugitivos, quem manda em Portugal são os portugueses, quero lá saber de Leonor Teles, a grande puta, e da Beatriz filha da puta! 

Desgrenhada, esfarrapada, ensanguentada, ao anoitecer chegas a casa. Estranhas que a porta do forno da padaria esteja fechada quando tens a certeza que a deixaste aberta. Tratas de reabri-la e dentro do forno vês sete soldados castelhanos que fingem dormir. Agarras na pá de ferro e começas a arrear porrada valente em todos eles. Gritando de dor, vão todos saindo, um a um. É quanto basta para que, dando um golpe na nuca de cada qual, todos eles tombem mortos. 

Este feito de, à saída do forno, matar à pazada sete castelhanos, é que te dá fama. Fantasia ou realidade? Talvez uma entrançada com a outra, a bordar a lenda que, desde o século XIV, prova que em Portugal só mandam os portugueses, e bem lixado está quem tal não queira entender!


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