MUNDO CÃO – CONSCIÊNCIA? QUANTO É QUE VALE ISSO EM DINHEIRO? – por José Goulão

Recordemos a definição clássica de parasita, um ser que vive à custa de outro prejudicando-o. Apliquemo-la agora ao conceito de lobby, essas coisas que surgiram clandestinamente na sociedade e que agora, em alguns sítios paradigmáticos da civilização, ganharam estatuto legal. Concluiremos que o decalque só não é perfeito porque a dimensão e os efeitos destes monstros não podem comparar-se aos praticados por pequenos seres vivos contra os seus hospedeiros.

O caso do fracasso, mais um, da conferência da ONU contra as alterações climáticas, agora realizada em Doha, no Qatar, é mais do mesmo. O mundo já se habituou a isso com aquela conformada apatia que pode resumir-se em já que não os podemos vencer ao menos não nos juntamos a eles. Os lobbies das grandes indústrias, dos devastadores dos terrenos agrícolas e afins em nada se ralam com isso e continuam a mandar como sempre. Assim vai caminhando o planeta para o abismo, uma subida de quatro graus na temperatura mundial em alguns anos é apenas mais um calorzinho e se os gelos dos polos derreterem, se algumas ilhas desaparecerem sob as águas, se milhões de pessoas se afogarem ou tornarem refugiadas talvez venham a ser parte das lendas das novas atlântidas dos nossos vindouros, se os houver.

Doha à parte, queria chamar-vos a atenção para dois exemplos de práticas de lobby comuns dos nossos dias e que têm consequências devastadoras; como as operações decorrem em bastidores ou em circuitos limitados raramente o cidadão comum tem acesso à informação necessária para que depois possa associar causas e efeitos.

O Parlamento Europeu discute esta semana uma coisa que tem o título neutro de “Tratado de Comércio Livre entre a União Europeia, a Colômbia e o Peru”. Os autores do documento, entre os quais pontifica a honorabilíssima e Nobel Comissão Europeia do doutor Barroso, esqueceram-se, porém, de nele incluir cláusulas de salvaguarda que travem abusos ambientais, protejam direitos humanos e evitem grandes operações financeiras, entre elas as lavagens de dinheiros bem sujos resultantes do fabuloso negócio da coca da Colômbia.

Nos últimos dias, centenas e centenas de organizações não governamentais inundaram as caixas de correio dos deputados pedindo-lhes que não aprovem o tratado porque sem as citadas salvaguardas ele institucionalizará o crime, a corrupção, os ataques ao ambiente.

O voluntarismo de milhares de cidadãos empenhados nestas denúncias de pouco vale, em geral, perante o poder dos loobies. A diferença de poder está no dinheiro. O lobbies esbanjam carradas porque têm muito e estão seguros de que vão fazer muito mais porque se é verdade que nem todo o ser humano tem um preço a experiência diz-lhes – e diz-nos – que muitas vezes se vendem os que fazem número suficiente para criar maiorias de decisão. Longe de mim insinuar que fulano ou cicrano se deixa corromper pelo dinheiro dos lobbies mas, perdoem-me a comparação, isto é um pouco o caso dos espanhóis que não acreditam em bruxas… pero que las hay…

Há poucas semanas o Parlamento Europeu debateu, e abriu as portas, à exploração do chamado “gás de xisto”, uma atividade que garante a obtenção de combustíveis fósseis a preço “muito competitivo”, como assegura o léxico neoliberal, mas que inutiliza imensidões de recursos de água e envenena por eternidades vastidões de terrenos próprios e adjacentes onde é praticada e os ares respirados por milhões de pessoas em redor. Que o digam os cidadãos da região canadiana do Quebeque. Isto é, os valores em dinheiro são prometedores, mas os custos em vidas humanas, saúde e meio ambiente são terríveis.

Isso não é problema dos lobbies, como já perceberam, porque eles só tratam de negócios, dinheiro e aquilo que este pode comprar. Nos dias dos debates parlamentares, a cidade de Estrasburgo, onde decorrem as sessões plenárias do Parlamento Europeu, os lobbies industriais do gás de xisto montaram os seu circo, nem sequer muito discreto, oferecendo grandes banquetes, organizando badaladas conferências e fornecendo luxuosa documentação sobre as virtudes extraordinárias dos novos combustíveis e não apenas omitindo mas também caluniando as teses humanistas e ambientais que denunciam o nefasto negócio.

O que valem em comparação com isto as mensagens bem fundamentadas mas modestamente depositadas no meio de toneladas de documentação com que lidam os centros de decisão? Valem certamente a consciência tranquila de cidadãos que as produzem e entregam, que lutam não apenas pelo que acreditam mas também se esforçam para alertar outros dos perigos que correm.

Consciência? Quanto é que vale isso em dinheiro?

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