EDITORIAL – Cavaco Silva colaborou ou não com a PIDE?

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Todos sabemos o que foi a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a PIDE, odiosa para muitos, indispensável para outros. Há quem a compare à Gestapo hitleriana, há quem diga que não é tanto assim.  Há quem faça relatos pungentes das torturas, há quem diga – «não se metessem onde não eram chamados»… Sobre a PIDE, que Marcelo Caetano sugeriu que ia extinguir, mas à qual se limitou a mudar o nome, há opiniões para todos os gostos. Há um estudo, sério, asséptico, sem a ingerência de sentimentos de apoio ou de repúdio, um estudo baseado nos documentos existentes e que deliberadamente se furtou a descrições subjectivas – referimo-nos ao livro de Isabel Flunser Pimentel, A História da PIDE.

Objectivamente, a PIDE foi a polícia política do regime salazarista. Prendeu e deteve sem culpa formada, culpados ou suspeitos de conspirar contra o Estado. Objectivamente, submeteu a interrogatórios usando métodos de tortura como a estátua ou a tortura do sono, infligiu espancamentos, matou, em Portugal e nas colónias, um número indeterminado de cidadãos; indeterminado, mas que segundo os cálculos mais moderados ascende a milhares. Manteve presídios e campos de concentração. Os antifascistas têm dificuldade de falar sobre a PIDE de forma desapaixonada e só a conseguem descrever como uma organização criminosa e os seus agentes, dos estagiários aos directores-gerais, como seres asquerosos a que se hesita classificar como seres humanos.

Há meses atrás circulou na net a acusação de que Cavaco Silva fora colaborador da PIDE. Respeitando o que dissemos no editorial da nossa primeira edição em um de Agosto de 2011, recusámo-nos a divulgar o que poderia não passar de uma acusação empolada – pensámos que o presidente da República teria assinado, como muito boa gente fez, a «declaração anti-comunista», formalidade a que nenhum funcionário público, por mais democrata que fosse, conseguia furtar-se. O documento que agora vemos não é o da tal declaração, mas algo de mais complicado. Manuel Alegre tê-lo-á acusado de ter colaborado com a polícia política – Cavaco admitiu ter preenchido uma ficha, mas terá sido «por motivos académicos», disse.

Quando primeiro-ministro, condecorou dois ex-agentes da PIDE (recusando uma pensão a Salgueiro Maia – é um tema por demais explorado, não deixando por isso de ser significativo).

Compreende-se que, em nome de uma tradição de «brandos costumes», os responsáveis pelo MFA não tenham querido fuzilar os responsáveis pela polícia política – que um primeiro-ministro condecore agentes dessa miserável corporação «por serviços prestados à pátria», já é uma aberração. Se é verdade que Cavaco Silva foi colaborador da PIDE, por mais académicos que fossem os motivos, não existem na nossa língua palavras que permitam classificar o facto de o termos como supremo magistrado da Nação.

11 Comments

  1. Pois… Então o n.º 3 do Artigo 292º da Constituição da República Portuguesa manda condecorar os ex-agentes da PIDE?
    Só falta mesmo transladar o Hitler para o Panteão Nacional… Deixa-me estar calado para não lhes dar mais ideias.

  2. Quem não tem vergonha todo o mundo é seu . Eu tenho vergonha desta e de outras coisas,por isso sou um simples Contribuinte ,assim me classificaram ,nem Gente eu sou. Mas tenho vergonha.

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