Esta foi a conversa que ouvi entre o empregado e uma idosa senhora, ao sentar-me numa esplanada da praia de Labruge. A D. Matilde, dos seus noventas ou noventas e tais, era uma senhora muito magra, toda aperaltada, casaco de pele pelos ombros, um fino colar ao pescoço e um reluzente copo de tinto à sua frente. Ninguém mais, além de nós os dois e o empregado. Aproveitávamos a réstia de sol que este generoso Dezembro oferecia de mão beijada.
É tudo do tempo, tu também me saíste cá um pândego…! E pensando bem até é verdade. Não tanto do tempo em termos meteorológicos, mas do tempo dos anos, do frio da vida a chegar ao fim, do tempo frio da mentira e da desilusão.
– Isso é que é falar, mas a Senhora ainda tem muitos anos à sua frente.
– Claro que tenho…!
– Mas olhe, D. Matilde, que essas notícias que está a ler no jornal são de ontem. Esses mortos todos são de ontem.
-Eu quero lá saber dos mortos. Sempre me preocuparam os vivos e nem esses agora me preocupam, embora não seja indiferente ao que se passa. Olhe, olhe, está a ver esta pouca vergonha? Mais um padre, preso por pedofilia, por abusar sexualmente dos seus alunos.
O mar imenso está muito calmo na sua maré cheia. As pequeninas ondas parecem brincar, enrolando as cristas brancas, de lés-a-és ao longo da praia. À tona de água espreitam as pontas negras das rochas, denunciando os enormes rochedos submersos.
– É sempre assim, e sempre assim foi. Olha, tu estás a ver as pontas daquelas rochas? Isto é o que a gente vê, mas os grandes rochedos estão escondidos. Sabes o que eu quero dizer, Ó Macedo? São todos uns malandros, uns hipócritas, uns falsos. Não temos o direito de generalizar, mas neste caso…é que não é só aqui e ali, é em todos os sítios, em todas as nações, em todos os continentes…e aos milhares! Vergonha das vergonhas!
– Ó D. Matilde, a Senhora foi professora, não foi?
– Durante mais de meio século.
– O que é que ensinava aos seus alunos? A dizer tão mal dos padres e dos bispos… neste andar ainda vai parar ao inferno.
– Não me obrigues a pedir outro copo de vinho. Não quero nada com eles. São uns falsos e uns hipócritas. Se soubesses o que é aquele Vaticano! A minha fé é cá comigo. No inferno estamos nós. Eles inventaram essa treta para criar terror nas pessoas. Olha que eles não têm medo do inferno, o inferno é para os outros. Quanto aos meus alunos, o que sempre lhes ensinei foi que pensassem antes de acreditar no que quer que fosse, e que considerassem como seus maiores inimigos a mentira e a falsidade. Ensinei-lhes a descobrir que a razão é a sua maior riqueza.
– Quantos anos tem a Senhora, D. Matilde?
– Metade com outro tantos.
Vale a pena chegar a esta idade com a lucidez desta pacata velhinha, um inesperado e verdadeiro achado entre os humanos, nesta tarde cinzenta. Não resisti a dirigir-lhe a palavra:
-A Senhora desculpe eu meter-me na conversa, mas gostava de lhe dar os meus parabéns pela sua cabeça tão limpa, sobretudo nesta sua idade de metade com outros tantos. Confesso que estou plenamente de acordo consigo e gostei muito de a ouvir.
-Nesta paz da beira-mar eu lhe digo, meu caro Senhor, que se o Senhor não estivesse de acordo, para mim era igual ao litro. Mas se está de acordo é bem mais agradável. Ao longo da minha vida e sobretudo da minha vida de professora sempre lutei contra a falsidade, a hipocrisia e o obscurantismo, venha ele de onde vier.
Do mar soprava agora uma brisa leve com forte cheiro a maresia. O sol espreitou de novo como que agradado com a conversa. Ainda continuámos a falar por algum tempo, o tempo de mais um copo, sem que sentíssemos qualquer ponta de frio.