PEDAGOGOS PORTUGUESES – HELENA CIDADE MOURA (1924-20129 por clara castilho

“Hoje que a iliteracia rói a nossa Liberdade, nos diminui como Povo e afecta profundamente a nossa Democracia e a nossa rentabilidade, será altura de repensarmos na dinâmica cultural que a resistência ao Fascismo, nos legou.”– assim termina Helena Cidade Moura o texto sobre seu pai, Hernâni Cidade, no site do Instituto Camões.  Penso que esta frase sintetiza o pensamento desta mulher e o que fez como cidadã.

Helena Cidade Moura, dirigente do Movimento Democrático Português – Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE), foi deputada na Assembleia da República nas três primeiras legislaturas após o 25 de Abril. Já antes a sua intervenção cívica fora sempre uma componente da sua vida. Participou na campanha eleitoral de 1969, no quadro das “comissões democráticas eleitorais” (CDE). Era conhecida a sua ligação a instituições e iniciativas dos católicos progressistas. Também a sua presidência do Centro Nacional de Cultura em 1961  é de assinalar.

A sua vida profissional, foi preenchida pela investigação e ensaio literário. Facto que prova a sua intensa actividade são as 138 entradas com o seu nome, na Biblioteca Nacional, na maioria dedicada a Eça de Queiroz. Não escreveu romances mas são conhecidas as suas poesias. A primeira publicação, de 1955, foi “O Mundo sem Limites” e seis anos depois “O Tempo e a Esperança”. O seu terceiro livro, “Memória e Ritual”, já é de poesia.

Helena Cidade Moura deixou ao país a dinamização de mais de 4400 campanhas de alfabetização a seguir ao 25 de Abril. No Manual de Alfabetização, publicado pela Caminho em Maio de 1979, que relata uma experiência de alfabetização numa zona rural a 20 kms de Lisboa, Helena Cidade Moura escreveu, como dedicatória do livro:

“Àqueles que cortam à noite as estradas desertas a pé ou de motoreta contra o vento e contra a chuva e se dirigem à luz acesa na escola da terra adormecida.
Aos jovens que trocam as noites de descanso ou de convívio pelo grupo de alfabetizandos e que no fim de pouco tempo trazem no olhar as marcas da luta daqueles que passaram a ser os seus companheiros.
Àqueles que mal acabado o exame da 4ª classe entendem que devem alfabetizar os seus vizinhos. E depois de um dia de trabalho vão à noite à escola transformar em vida participada os gestos dos professores letrados que os ensinaram.”

Da  entrevista de Rogério Mendonça publicada na revista Livros&Leituras a 25/04/2010 e encontrada na página da Associação Nacional de Investigação e Acção em Leitura e Literacia podem retirar-se alguns excertos interessantes.

O que pode a sociedade fazer para pôr as crianças a ler

“Eu penso que o mais importante é que as crianças achem que a leitura é um caminho possível para chegar a outras coisas, não será ficarem estagnados a lerem uma banda desenhada ou um jornal mas, com isso, encontrarem caminhos para chegarem a outras coisas e isso aprende-se lendo e, à medida que incrementam o gosto pela leitura, eles criam uma relação diferente com o mundo. Depois de adultos, formam a sua própria personalidade enquanto leitores mas, em crianças, se seguirem o caminho da leitura, sentem-se mais acompanhados e seguros nesse caminhar”.

Qual o conselho que tem para dar aos políticos deste país para elevar o nível de literacia dos portugueses?

“Que trabalhassem muito, muito, com muita confiança e com muita ligação à realidade. Os discursos, já ninguém os ouve, mas quanto às ações, as pessoas percebem-nas e, nesse campo do agir, há muita coisa a fazer e eu gostava de ver os políticos mais empenhados na transformação do país, assumindo as próprias culpas. Também existem pessoas a trabalhar, mas sem grande convição, falta-lhes a tal alegria e persistência que tinha Paulo Freire. É preciso acreditar que se possa ter um objectivo”.

Talvez a sua última intervenção pública tenha sido na apresentação, em 2007, do livro colectivo “Literacia em Português”. Aí,  Helena Cidade Moura confirmou o seu projecto de intervenção cívica e cultural: «Pretende­-se com este livro difundir o interesse e a capacidade de análise despertados para o fenómeno da Literacia, que tem atrasado, nos últimos anos, o nosso caminhar colectivo, tem afectado a capacidade de organização da nossa vida em comum, tem ajudado a adormecer a consciência cultural do País».

Continuamos a precisar de pessoas com esta força de vontade e esta capacidade de intervenção.

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