EM VIAGEM PELA TURQUIA – 63 – por António Gomes Marques

(Conclusão)

 Falando ainda do Médio Oriente e da preocupação na defesa de Israel, será que o povo deste país se sente hoje mais seguro depois dos problemas criados com a Turquia pelo Governo de Israel?Imagem1

 O actual Presidente da República da Turquia, Abdullah Gül, cuja eleição parece ter trazido preocupações à União Europeia por professar a religião muçulmana e dela ser praticante, é um europeísta e defensor da adesão da Turquia à União Europeia, em consonância, portanto, com o Primeiro-Ministro, Recep Tayyip Erdoğan, realidade que Bruxelas também não poderá ignorar e, direi ainda, usar em proveito próprio.

                    

Abdullah Gül 11.º Presidente da República da Turquia

 Para além da posição dos dois principais representantes da Turquia, há ainda que considerar a posição de uma outra figura fundamental na definição da política externa da Turquia, que é a do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros desde 1 de Maio de 2009, o Professor Ahmet Davutoğlu, de que transcrevemos algumas partes do seu artigo «Turquia, Portugal e a Europa», publicado no jornal Público de 14 de Julho de 2010:

 Imagem2«A adesão da Turquia à UE irá também providenciar a energia fresca e o dinamismo de que a União necessitará no futuro. A nossa adesão representará uma oportunidade para a UE reforçar o seu estatuto global. A Turquia e a UE partilham da mesma visão para o futuro do nosso continente: uma Europa que reforce o seu soft power e faça singrar os seus valores universais, que não seja monolítica, que promova a diversidade, que seja um actor confiante na política global. A adesão da Turquia ajudará a Europa a transformar esta visão numa realidade.

À esquerda –   Ahmet Davutoğlu 

Na União Europeia, Portugal adoptou uma abordagem baseada em princípios no que diz respeito ao debate sobre a adesão da Turquia, o que muito apreciamos. Portugal tem vindo a defender a condução das relações com a Turquia de acordo com o princípio pacta sunt servanda (os pactos devem ser respeitados), um pilar central do projecto de integração europeia. Como nós, Portugal também acredita que o dom da UE de conseguir a transformação democrática nos países da adesão só pode fazer a sua magia caso o processo seja justo e credível. Portugal está também plenamente consciente do papel da Turquia no sentido de ajudar a integrar a sua vizinhança, económica, social e politicamente, na economia global, promovendo assim os interesses europeus em muitos aspectos.»

 A terminar o seu artigo, escreve o Professor Ahmet Davutoğlu:

 «Evidentemente, ainda há terreno para cobrirmos em termos de reformas. Mas continuamos determinados a cumprir a nossa parte no caminho da nossa futura adesão. Porém, não permitiremos que se esqueça que esta é uma relação de dois sentidos. A União também tem de respeitar os seus compromissos para com a Turquia e isolar o processo de adesão de quaisquer obstáculos artificiais. Porque este empreendimento representa uma oportunidade única para fazer a história de maneira correcta, o que nenhum dos lados se pode dar ao luxo de deixar passar.»

 Também há oposições sérias à adesão da Turquia, que não poderão ser escamoteadas. Os alemães, receosos do aumento da emigração turca na Alemanha e da influência islâmica dentro da UE, no que são acompanhados pela Senhora Angela Merkel, e os franceses, na presidência de Nicolas Sarkozy, que diziam estar a conceder-se um estatuto de parceria privilegiada à Turquia, para além de levantarem a questão arménia. Contudo, a actual chanceler alemã, logo que tomou posse deste cargo, declarou comprometer-se a respeitar as obrigações assumidas pelas instituições da UE.

 Há também quem aponte como obstáculo a questão geográfica, lembrando que a parte europeia, a Trácia Oriental, ocupa apenas 3% da área da Turquia, assim como também se apresenta como obstáculo à adesão o facto de a Europa ser maioritariamente cristã e, como tal, sempre desconfiada em relação à religião islamita, esquecendo esta gente o papel que a Turquia há vários séculos vem desempenhando no xadrez europeu.

 Há também países, como a Áustria, por exemplo, que consideram que a adesão da Turquia sairá muito cara aos cofres da União Europeia, nomeadamente, tendo em conta que a agricultura turca é ainda muito arcaica, havendo também quem aponte a questão dos direitos humanos, dando como exemplos a existência de presos políticos e a questão curda e o problema de Chipre.

 Para além das vantagens que já referimos na adesão da Turquia, esquecem também os que são contra tal adesão da vantagem que adviria para a política de defesa da Europa, do contributo arbitral da Turquia para a resolução da questão do Médio Oriente e, para além das vantagens já apontadas nas questões económicas, da possibilidade da Europa poder ter na Turquia a via para a expansão dos ideais democráticos que defende. Também a dimensão da Turquia levanta algumas objecções, tendo em conta o poder de decisão com que contribuiria se se chegar a acordo na U. E. que bastará a maioria de dois terços para a aprovação das políticas comuns.

 Há um outro factor que considero de grande importância e que seria enriquecedor da União Europeia e que tem a ver com a população da Turquia, que é maioritariamente jovem, proporcionando assim um tão necessário rejuvenescimento da Europa dos 27. (Para ver mais pormenorizadamente os prós e os contras para a adesão da Turquia, consulte-se «Ponto d’ Interrogação – Revista online,17/03/2010»

 É chegado o momento de terminar este «Em Viagem pela Turquia», deixando uma fotografia que tirámos numa das pontes que liga a Anatólia (a parte da Istambul asiática) à parte europeia da Turquia, a Trácia Oriental (a parte da Istambul europeia), na esperança de que tal ligação seja também um símbolo de união e de expansão da União Europeia com a adesão da Turquia como seu membro de pleno direito. Este sonho turco é também o nosso sonho!

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A caminho da Istambul europeia, sobre o Bósforo

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