GIRO DO HORIZONTE – DEMAIN, DEMAIN…- por Pedro de Pezarat Correia

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Paulo Portas encheu o peito de ar, engrossou a voz, apontou o dedo e disse: “Para o ano é que é?” Orçamento como este, para o ano, não passará nas malhas do CDS. Este ano passou para evitar uma crise política. Para o ano, decretou Portas, não haverá crise política e, se houver, parafraseando o seu primeiro-ministro, que se lixe a crise política.

As promessas de Portas valem o que valem, temos disso amarga experiência.

Estas conversas de meninos – agarrem-me se não eu… – trazem-me à memória recordações da minha infância. Aí pelos anos de 1943 a 1945, no meu 1.º ou 2.º ano no Colégio Militar, um simpático tenente de engenharia que do alto do seu metro e noventa nos dispensava uma enorme benevolência, professor de Francês, fazia-nos decorar e declamar um breve poema em que um “jeune enfant” prometia:

»Demain, demain je serais sage.

»Bonne mère, je le promet.»

Ao qual a mãe, já escaldada das suas promessas não cumpridas, respondia:

»Enfant, je comprend ton langage.

»Demain tu veux dire, jamais.

»Ainsi, ne dit pas a ta mère

»Demain je serais sage. Mais,

»Dit-lui d’une voix sincère,

»Je le veux être dès a présent.»

            Portas não aprendeu com este professor e, repito, as suas promessas valem o que valem. Valem o mesmo que as suas garantias de que vira, em Washington, provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque, argumento com que justificou o envolvimento de Portugal na guerra de agressão a este país, que W. Bush e a sua sinistra equipa, acolitados por Blair, protagonizaram. Com os pesados custos que se conhecem.

            Já não há paciência para ouvir esta gente, todos os dias, a todas as horas. Portas e Coelho, Gaspar e Álvaro, Relvas e Relvas. Relvas, licenciado em equivalências, regressou em força, com aquele sorriso gélido de quem acabou de apunhalar alguém. É óbvio que, no que se mete, estraga, sai escândalo ou trapalhada. Os seus apoios são beijos de morte, como lhes chamou Marcelo Rebelo de Sousa. Mas pelo caminho vai fazendo estragos. Ainda não se sabe o que vai sair da RTP, mas sente-se que já deu cabo dela. Desconhece-se o que vai resultar da reforma da malha administrativa autárquica, mas já se percebeu que o processo está inquinado à nascença. Relvas tem a desfaçatez de vir falar em transparência. Ninguém melhor do que Relvas para falar de transparência. Nesta matéria ele é a imagem de marca deste pseudo-governo. Desde as minhas primeiras participações nesta Viagem dos Argonautas que venho falando do discurso simulado. No limite o discurso simulado está a transformar-se num discurso obsceno. É já na nossa dignidade que estamos a ser atingidos.

Esperemos que os portugueses encontrem forma de dispensar Paulo Portas de, no próximo ano, ter de descobrir novas formas esfarrapadas para justificar o seu silêncio perante mais um orçamento intolerável. E de o libertar das humilhantes trocas de esgares trocistas dos seus parceiros da bancada do governo na Assembleia da República, Coelho e Relvas, quando a oposição o confrontasse com a hipocrisia das suas promessas face ao enorme aumento de impostos (Gaspar dixit). Nessa altura, provavelmente, Portas já estará a piscar o olho ao PS a procurar assegurar a boleia em futuro governo.

Entretanto adensa-se o nevoeiro sobre as contrapartidas pela aquisição dos submarinos. É a confirmação da vantagem estratégica do submarino, o benefício da opacidade dos oceanos. E este oceano dos negócios de armamentos é mesmo muito opaco.

17 Dezembro 2012

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