TEMPO QUE PASSAM OS PAIS A CUIDAR DE SEUS FILHOS – O TRABALHO PAGO E O NÃO PAGO NAS FAMÍLIAS in OBSERVATÓRIO DAS FAMÍLIAS E POLÍTICAS DE FAMÍLIA por clara castilho

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Trabalho pago e não pago corresponde àquele que se destina aos cuidados a ter com a família e sobre os quais não recai qualquer compensação remuneratória. Já lá vai o tempo em que às “donas de casa” cabiam estas tarefas, não exercendo elas outro tipo de tarefas à ordem de “patrões” a não ser os maridos….Hoje, na grande maioria, trabalham muitas horas fora de casa e depois ainda têm que manter o lar. Conhecemos tantas famílias, cada qual com o seu género de organização diária. Numas os pais ajudam, noutras só um pouquinho e noutras “sentam-se no sofá a ver televisão”, como me dizia um menino, à espera de terem o jantar confeccionado na mesa.

 Pois o Relatório do Observatório das Famílias e Políticas de Família, de 2012, dá-nos dados referentes a este assunto.

 A fixação crescente e consistente das mulheres no mercado trabalho tem modificado a organização da vida familiar, ao impulsionar a consolidação de modelos de duplo emprego no casal, em detrimento do modelo de ganha-pão masculino e mulher doméstica (Wall, Aboim, & Cunha, 2010; Wall & Guerreiro, 2005).

 Ainda assim, a participação de homens e mulheres no mercado de trabalho é pautada por diferenças de género de ordem vária: as mulheres têm remunerações mais baixas, posições mais desqualificadas e mais precárias (ver Wall et al., 2011) e trabalham, em média, menos 4h semanais do que os homens.

 Contudo, Portugal está muito longe da diferença de 10h de trabalho entre homens e mulheres registada em países como a Irlanda, a Alemanha e a Holanda, em parte resultante do forte peso que o trabalho feminino a tempo parcial tem nestes países (ver gráfico 1), dando assim uma maior representação a modelos de divisão do trabalho pago de “ganha-pão e meio” no casal – nos quais as mulheres reduzem o horário de trabalho para assumirem responsabilidades domésticas e parentais (Wall & Guerreiro, 2005).

Em Portugal, os homens dedicam, em média, 16h por semana aos cuidados aos filhos, estando ainda longe das 23h que as mulheres passam a fazer estas tarefas. Esta distância de 7h entre os cuidados prestados no feminino e no masculino é inferior à diferença média europeia de 12h, e está longe da de países em que atinge valores muito superiores, como a Noruega, a Estónia ou a Holanda. Embora os noruegueses e os holandeses ultrapassem largamente a média europeia de 18h de cuidados no masculino, ao contrário dos portugueses que estão ligeiramente abaixo da média, curiosamente, nestes países a diferença entre homens e mulheres é muito superior à portuguesa, assim como é superior o número de horas de cuidados prestados pelas mulheres, o que pode, em parte, ser explicado pelas especificidades dos regimes de trabalho e de género e das políticas públicas de articulação trabalho/família destes países.

 Já no que toca ao número de horas de trabalho doméstico, verifica-se que as mulheres portuguesas trabalham, em média, mais 10 h do que os homens – tendo a diferença entre homens e mulheres diminuído 3h, por comparação à registada em 2002 no Inquérito Família e Papéis de Género, ISSP (ver Wall et al., 2011). Contudo, esta diminuição deve-se à redução do número de horas de trabalho doméstico que as mulheres fazem – que passou de 20 para 17h, aproximando-se da média europeia de 16h – e não ao aumento da participação masculina nestas tarefas, que se mantém nas 7h, situando-se ligeiramente abaixo da média europeia de 8h.

 Dados retirado do Observatório das Famílias e das Políticas de Família – 2011, do Instituto de Ciências Socias da Universidade de Lisboa, editado em Julho de 2012, coordenado por Karin Wall, tendo como autoras Sofia Aboim ,Mafalda Leitão e Sofia Marinho e com a colaboração de Vanessa Cunha e Vasco Ramos. O Relatório pode ser lido em  http://www.observatoriofamilias.ics.ul.pt/images/relatrio%20ofap%20versao%20definitva%20setembro%202012.pdf

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