EDITORIAL: “A DEMOCRACIA É UMA ILUSÃO”

Imagem2Ontem, quando decorria o  debate quinzenal entre Governo e deputados, a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, acabava de dar a palavra a Passos Coelho para que este respondesse ao líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, quando um homem  gritou da galeria: «- Errado: agora falo eu! -»  e disse  – «A democracia é uma ilusão». E, dito isto arremessou para o plenário o cartão de visitante do Parlamento e o Cartão de Cidadão. que foram cair nas bancadas da oposição.

Não sabemos de que perspectiva esta afirmação é feita, nem quais as motivações deste gesto. Trazido para o exterior por agentes da PSP, disse aos jornalistas que, no seu entender as manifestações, protestos e petições já não funcionam”. Assim, resolveu actuar de maneira inovadora. E que também não funciona, dizemos nós. Registe-se, porém,  que as reacções de repúdio a um primeiro-ministro nunca foram tão fortes como aquelas de que Passos Coelho está a ser alvo.  Também é verdade que na história dos governos constitucionais, nenhum executivo foi tão longe na destruição da sociedade que o pós Abril de 74 parecia querer instalar. Passos Coelho e a sua equipa têm estado a tomar decisões que configuram uma situação de ditadura; sob o olhar benevolente de um presidente da República que, ao não se demarcar, ficará associado à história do pior governo que temos desde que  a democracia foi restaurada. A democracia não será propriamente uma ilusão. Este sistema  falsamente democrático é que resulta de um truque de ilusionismo: através de meios democráticos, atinge uma situação de autoritarismo.

Na realidade, a democracia é valiosa, mas, como disse alguém, foi comprada por quem deu mais. E quem deu mais foram os mesmos que antes usaram as ditaduras para impor a sua vontade. Os donos do nosso país, os donos do mundo, são os mesmos que puseram os jovens a usar camisas de cores diversas – pretas, verdes, azuis… , a marchar com passo de ganso e a fazer a saudação romana. Patrocinaram ditadores, polícias políticas, holocaustos. Agora subsidiam a democracia. Sistema que, nos seus aspectos formais, existe e funciona. Se o homem que interrompeu a sessão parlamentar o tivesse feito na antiga Asssembleia Nacional, garantiria uma prisão prolongada, torturas, espancamentos… Quem comprou a democracia sabe que estes incidentes, manifestações, greves, petições (e textos em blogues) são inofensivos.

A democracia nõa é uma ilusão, embora estejamos a viver a ilusão de que vivemos em democracia.

3 Comments

  1. Parece que a democracia pode ser facilmente parasitada por aqueles que a querem destruir. Não devemos esquecer que Hitler ascendeu ao Poder, inicialmente, pela via democrática, só para dar um exemplo comum.

    A democracia já devia estar vacinada, imunizada, defendida, contra este tipo de parasitismos. E os partidos políticos também, relativamente a certas tendências que se imiscuem no seu seio e a certos vigaristas que ascendem a lugares de topo sem qualquer verificação ao seu real valor. Deviam ser mais selectivos na escolha dos candidatos que os lideram.

    Não devemos esquecer também que a melhor forma de destruir um sistema é destruí-lo por dentro. É o que fazem os parasitas, é o que faz o vírus da Sida. É a lição do cavalo de Tróia.

    Não queria chegar tão longe, mas às vezes fico com a sensação que esta gente que nos governa, está a fazer isso mesmo: a destruir o sistema, o Estado, por dentro.

  2. Agradeço o seu comentário e concordo com o que diz. O cavalo de Tróia, neste caso, foi colocado no centro da nossa vida política por Mário Soares. Para esconjurar o perigo da tomada do poder por aquilo a que chamava extrema-esquerda, e opondo-lhe um «socialismo de rosto humano», bem como o conceito de «socialismo em liberdade», abriu as portas ao capitalismo selvagem, à constituição do chamado «bloco central» e, por consequência, à instauração de uma oligarquia – a corrupção anda à solta e a democracia, instaurada para promover a Liberdade, está a ser destruída pelas «liberdades». O inimigo está cá dentro, como diz.

  3. Lembrar a subida ao poder dos nazis é bem apropriado. Lembremos as medidas que aqueles tomaram e comparêmo-las com as medidas tomadas pelos serventuários que compõem o governo e as semelhanças saltarão à vista, a começar pelo desrespeito à lei fundamental do país. E, valha-nos o progresso!, nem sequer precisam de assassinar como os nazis fizeram, basta ir matando uns tantos à fome, é mais lento e, assim, não dá tanto nas vistas.

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