Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
À espera de um milagre e o milagre não se verificou
Lisa Jucca, Reuters
MILAN | Thu Dec 13, 2012 2:49pm GMT
Reuters) – Quando Mario Monti assumiu o comando da Itália há cerca de um ano atrás, com a Italia a oscilar à beira de uma crise ao estilo da dívida grega, ele foi recebido como um Salvador que poderia finalmente colocar o país no caminho.
Revoltados com os escândalos, com a corrupção e com o clientelismo que tinha florescido sob Silvio Berlusconi, os trabalhadores e os empresários em primeiro lugar aceitaram humildemente o duro plano de alteração das pensões de reforma e mais impostos como as primeiras medidas do primeiro-ministro tecnocrático, confiantes de que este os iria guiar para fora da tempestade de dívida de zona euro e levaria a Itália para águas calmas.
Um ano mais tarde, depois de Monti ter anunciado a sua demissão, muitos italianos estão agora a levantar a questão se tudo isto terá valido a pena quando agora a Itália enfrenta um futuro político incerto e estando ainda por cima atolada numa recessão.
“Nós estávamos à espera de um milagre . E afinal o milagre não se verificou ,”disse Mina Giannandrea, comerciante em Roma.
Os italianos estão a resistir à aplicação de mais impostos sobre o rendimento, à imposição de um imposto extremamente impopular sobre a propriedade e a um aumento da facturas de electricidade e gás sem que se veja ainda nenhum sinal de qualquer recompensa para o sacrifício exigido.
Muitos já aprenderam a economizar e a aforrar – pelo menos face aos padrões confortáveis dos tempos mais prósperos – por exemplo, recusando-se a chamar o canalizador para arranjar uma torneira que deixa escorrer água e começando a cortar nos gastos mesmo nos produtos de primeira necessidade como as massas. Muitas famílias agora a reaquecer as sobras das refeições em vez de as despejar no lixo.
A cabeleireiro de Roma, Sara Greco, disse que agora vê menos clientes, sobretudo quando é chegada a hora de pagar as prestações do imposto sobre a propriedade e as mulheres estão a cortar nas idas ao cabeleireiro, arranjando-o em casa. “Eu tenho notado que alguns clientes estão a desistir de manterem um dia certo para arranjo do cabelo semanalmente e tentam e fazer um corte ou uma pintura à terça ou na quarta-feira, quando damos um desconto de 15%,” acrescentou .
Desanimados
Os empresários que tinham ficado desiludidos pelas promessas não cumpridas de Berlusconi de mais empregos e mais crescimento económico, quando este era o primeiro-ministro, congratularam-se com a promessa de Monti de que seria agora mais fácil de contratar e demitir funcionários e cortar na burocracia.
Num relatório recente do Banco Mundial sobre como fazer negócios na Itália escreve-se que o ambiente regulador para as empresas tem estado a melhorar mas alguns negócios ainda não se sentiram os benefícios de Monti estar já há um ano no poder.
“Tem havido demasiados impostos e os cortes nos gastos não são suficientes “, disse Franco Manfredini, um empresário na indústria de cerâmica da região de Emilia Romagna, que sobreviveu à crise graças ao facto de que uma grande parte da produção da empresa se destina à exportação .
“A questão da dívida ainda continua e ainda não estamos a ver a luz no fim do túnel”, disse ele à Reuters.
Particularmente desanimador para muitos empresários é o fracasso do governo em erradicar os elevados privilégios desfrutados pelos políticos e pelas autoridades locais que tornam cara e ineficiente a administração pública
“Nada ou pouco mais que nada foi até agora feito para reduzir o custo da máquina política. E isso é algo que teria tido o apoio generalizado da população “, disse Angelo Fracassi, fundador do grupo italiano Dasit, uma empresa fornecedora de equipamentos médicos para o serviço de saúde público da Itália.
“Esta é a minha decepção pessoal, verdadeiramente muito amarga”, disse Fracassi, que passou o ano a lutar contra os atrasos de pagamento das autoridades locais que estavam sem dinheiro devido também aos cortes nos gastos com a saúde pública.
José Rallo, director da empresa siciliana de vinhos Donnafugata, contou uma história semelhante quanto a esperanças frustradas. “Nós aceitámos tudo o que era mau enquanto aguardávamos o que seria bom mas que nunca veio”, acrescentou .
IMAGEM MELHORADA
Mas alguns acreditam que a Itália foi fundamentalmente mudada sob a direcção de Monti mesmo que venha agora a enfrentar mais um ano de contracção económica.
A sua sobriedade e calma determinação contrasta com a extravagância, com os escândalos sexuais e judiciais e com a indecisão de Berlusconi, que ajudou a empurrar os custos de empréstimos obtidos pela Itália para níveis exorbitantes, antes de ele ter sido substituído por Monti.
Mais do que qualquer coisa, os italianos em geral valorizam a capacidade de Monti, um antigo Comissário Europeu , respeitado pelos líderes europeus, em dominar várias línguas assim como a sua capacidade em limpar o nome da Itália no estrangeiro.
“É preciso entender onde estávamos há um ano antes,” disse Francesco Divella, de 40 anos de idade, membro de uma dinastia de fabricação de massas na região sul de Puglia,.
“Num ano apenas , Monti foi capaz de mudar completamente a forma como a Itália era vista no estrangeiro,” disse Divella, acrescentando que Monti fez o que podia num espaço de tempo tão curto. .
Divella disse ainda que a sua empresa estava a resistir à pressão para se mudar para o estrangeiro, para se deslocalizar, e estava a fazê-lo apesar do ambiente económico desfavorável em Itália. .
A crise económica fez com que os italianos percebam que eles viveram muito tempo acima das suas possibilidades. “Mais cedo ou mais tarde haveríamos de perceber que teremos de ser mais competitivos, acrescentou Divella
Aprender a viver com menos depois de anos de gastos crescentes em bens de consumo também forçou muitos italianos a retornarem aos velhos hábitos frugais dos seus pais e avós, e alguns deles acreditam que isso lhes está a trazer benefícios.
“Eu não sei se este ano de crise só trouxe coisas ruins,” disse Antonello Piccolo, um trabalhador de 39 anos de idade na conturbada ILVA fabricante de aços a sul da cidade de Taranto.
O site de ILVA , a maior produtora de aços na Europa e o principal empregador na empobrecida Puglia tem estado a correr um risco permanente de encerramento depois dos magistrados a terem acusado de provocar um desastre ambiental .
“Podemos ir menos às pizzarias, mas passar mais tempo com a família e com os amigos. Temos reduzido um pouco do nosso consumismo ao nível de anos antes e voltámos a recuperar alguns dos valores antigos,” disse-nos Piccolo.
No entanto, o lojista Giannandrea, que agora atende apenas um punhado em vez de dezenas de donas de casa na sua ida de manhã cedo para o mercado local, teme que seja tarde demais para conseguir virar a situação. “Depois de 40 anos no negócio, estou realmente preocupada: o que é que vamos deixar aos nossos filhos?”


