
I
Há uns tempos a esta parte, eu andava bastante inquieto e pensava a miúde:
― Que terá sucedido aos nossos bons revolucionários? Estarão doentes? Terão ido para fora?
Foi, portanto, com sincero jubilo que, no sábado passado, tendo ouvido estalar no ar qualquer coisa que me pareceu ser foguetaria de tourada, a esposa do meu guarda-portão me comunicou estar na rua mais uma revolução.
Como de costume, instalei-me na minha carvoeira, recomendando à minha casa civil que não me chamasse senão quando as hostilidades tivessem terminado e estivesse em caminho mais uma das bem conhecidas reconciliações da família portuguesa.
Domingo de manhã, a voz de tenor do homem que vende fressura de vaca na minha rua, deu-me o primeiro sinal da paz restabelecida. Logo a seguir a já citada esposa do porteiro me mandou comunicar ter terminado o movimento. Beijei-a comovidamente em ambas as faces e, sem indagar, quem tinha ficado de cima, exclamei radiante:
― Parabéns, Dona Ofrásia! Já sei que venceram os “nossos”…
E, levando nos lábios um esplêndido sorriso, que há dias viera da engomadeira, saí à rua, onde constatei que o sossego era absoluto em todo o país. Dirigi os meus passos serenos a casa do Procópio Baeta. Teria esse amigo estimável padecido algo com a revolta, levando nos queixos com uma granada de percussão ou iria eu acaso encontrar sua família reduzida ao estado de escumadeira por uma pérfida rajada de metralhadora?
A sopeira, que me abriu a porta desvaneceu, desvaneceu a minha inquietação.
― Está tudo bem, graças a Deus, e não tivemos medo nenhum. Só o papagaio é que se agachou e esteve assim enquanto não leu o edital do novo comandante de divisão.
― E o Baeta está em casa?
― O patrão está a escrever.
…
Baeta, efectivamente, sentado à mesa da casa de jantar, diante de um caderno tudo quanto possam imaginar de mais pautado liso, escrevia.
― Que é isso, Baeta? Estás compondo algum drama pirandelóstico para o Teatro Novo?
― Não, meu velho. Aproveitei estes dias de descanso e de sossego para lançar as bases dum livro de que o país anda muito precisado.
― Dum “Compêndio de Civilidade”?
― Upa! Upa! Vou publicar um “Manual do perfeito revolucionário”… A parte civil é só minha. Para a parte militar preciso de umas ligeiras indicações que hei de pedir a um camaradão, sargento dos sapadores de caminho de ferro, que a estas horas deve ir a caminho do Alto do Duque, da Trafaria ou do forte de Elvas. Não sei se tens notado a falta de método, de organização, de ordem, em resumo, com que costumam ser feitas as revoluções em Portugal. Lá disposições e jeito temos nós. O que nos falta é a basezinha, os princípios, a ciência, enfim. Ora, graças a Deus, com as múltiplas experiências que temos feito já se pode estabelecer a base, fixar os princípios, definir a ciência.
(continua no próximo sábado)
