NA ESTRADA DO CRESCIMENTO NULO – por Jeremy Grantham

Um estranho texto, uma alegoria, uma metáfora, e a pergunta que como leitor faço, no final da sua leitura, é se o autor  não está ele a falar da Europa, afinal, continente de gente pobre, muito pobre, de gente desempregada e sem perspectivas mais de voltar a ter emprego digno, continente de gente com  emprego no sector serviços e por isso muito mal paga, de gente muito bem paga no topo da cadeia do valor e…depois a Europa como um continente de gente muito rica que passa a vida a “ver o mar” e a justificar os baixos salários dos outros. Um texto a exigir profunda reflexão, esta é a minha sugestão.

Júlio Marques Mota

 RESUMO: pouco a pouco  há cada vez mais pessoas a  verem   emergir lentamente, um dos grande desafios para as sociedades dos países  desenvolvidos: o aumento da produtividade gera uma  riqueza inimaginável  para as  gerações anteriores, mas os seus benefícios vão para aqueles que possuem as máquinas.  A desigualdade de riqueza cria a desigualdade de rendimentos.  Marx pode ter defendido muito antes de nós uma posição que agora se confirma na realidade  . Hoje e aqui apresentamos  uma nota de Jeremy Grantham  em que este descreve este futuro. No final apresentamos outros links para temas sobre  os mecanismos que conduzem à criação das desigualdades  Trecho de xxx “Na estrada do crescimento nulo (OntheRoad to Zero Growth)” .  Excerto tirado de “OntheRoad to Zero Growth“

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Excerto de um texto de Jeremy Grantham

GMO Quarterly Letter, November 2012

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… A medida que as economias se tornam  mais desenvolvidas, maduras,  os  empregos deslocam-se para o sector dos  serviços, onde a produtividade por homem-hora se torna cada vez mais difícil de aumentar . Este vento contrário vai continuar  até um  futuro indefinido e até que um dia, talvez,  nós possamos  alcançar o que tem sido chamado de uma singularidade. O último punhado de seres humanos envolvidos na indústria transformadora – todos eles a serem  engenheiros e designers –serão  supervisionando por robôs inteligentes fazendo e concebendo, projectando, ainda uma outra geração de robôs ainda mais produtivos e inteligentes.

… Este aprofundamento de capital e tecnologia será praticamente a garantia de que  a produtividade continuará a ser muito alta na indústria transformadora mesmo que com a percentagemda força de trabalho empregada a ficar continua e  definitivamente numa espiral descendente e a caminho de uma taxa de crescimento a tender para  zero . Com  a população restante  para além de ocupações artística  e de gestão de investimentos, podemos fantasiar sobre a evolução da produtividade, mas será cada vez mais difícil  medir as suas melhorias qualitativas.

Numa  ilha hipotética, onde não existem  serviços e onde só existe indústria transformadora , a posição final é a de que a automação, e, assim, o capital, produz tudo enquanto todos os simples mortais podem ir apanhar banhos de mar na praia . E morrer de fome? Os desempregados que obviamente dentro do sistema são já sem qualquer valor, não carregam eles este destino?

 Na  praia, numa parte fortemente protegida e isolada há o clube dos detentores de capital  . Haverá aí também uma mão cheia  de pessoas igualmente “desempregadas” detentores do local a beberem  chá  e a usufruírem das belas vistas para o mar. A forma como  os bens materiais  assim como os bens alimentares são divididos  vai determinar o futuro da ilha, para os desempregados será  de 100 ou 1.000 vezes o número de “dividendcounter”s.[1]

 Não há nenhum elemento que seja gerador de crescimento nesta hipotéticailha infeliz no  nosso mundo actual e basicamente será pela  mesma razão? O aprofundamento em capital e em novas tecnologias no tecido produtivo  (acompanhado  de intenso offshoring como acontece neste nosso mundo globalizado) feito de forma sustentada substituiu constantemente empregos na indústria transformadora e na agricultura, também ela industrializada,   reduzindo-se  continuamente  o numero de empregos,  até que um dia, talvez, possa já não haver nenhuns  empregos na indústria. A tarefa de manter o crescimento  só pode ,então,  surgir nosector dos serviços  e neste sector  a medida da produtividade  foi e é muito problemática.

Porém é  assumido como um dado adquirido que os valores mais importantes que são gerados, principalmente quando as coisas se começam a sentir como estando  socialmente erradas  são as necessidades fundamentais, as necessidades básicas,  tudo o que parece cair na classificação do  sector transformador, da   indústria transformadora :  pensarem termos comerciais entre  comprar pão  (bem necessário) e  corte de cabelo (bem de luxo) quando os tempos são difíceis:  deixar de comprar 7 pães por cada corte de cabelo feito com o rendimento a subir, transforma-se rapidamente em deixar de fazer sete cortes de cabelo por cada pão para comer !

 Os economistas e filósofos que precederam  a nossa geração , como John Stuart Mill, Adam Smith e Keynes, pareciam  ter tido muito prazer  em  pensarem que todos nós, as gerações futuras, iríamos ter .no que era para eles um futuro ainda um pouco distante, um presente bem diferente do deles ,  em que os cidadãos passariam a dispor de  grandes quantidades de tempo livre para apreciar a beleza do mundo. Eles viram que isso seria a reacção sensata ao aumento de riqueza disponível. Infelizmente, eles não nos dizem muito sobre o problema que, quando esse dia chegasse, os capitalistas – pelo menos aqueles na indústria transformadora –seriam os donos de tudo enquanto que os trabalhadores “desempregados” da indústria transformadora seriam os donos de nada .

 Sobre o autor :

Grantham co-fundou OGM em 1977. Antes de fundar a OGM, .Grantham foi co-fundador de Batterymarch Financial Management  em 1969, onde ele recomendou a indexação comercial em 1971, um dos novos produtos financeiros de que foi pioneiro. Ele começou a sua carreira como economista e  analista de investimentos  na RoyalDutch Shell.

Grantham é o estraga principal da  GMO   e é um membro activo da divisão da apliçaões em activos  da GMO e é igualmente  membro do Conselho da  GMO. Tem também trabalhado em conselhos de investimento de várias organizações sem fins lucrativos. É licenciado pela Universidade   de Sheffield e tem o MBA por Harvard.


[1]Emcorrespondênciatrocada com o autor e aindarelativamente a expressão  “divident counters” diz-nosele :  “In this fictional place, the number of wealthy (of “the dividend counters” – a metaphor for today’s shareholders, who are typically affluent) will be far greater than the number of workers.  The future of the island will depend upon how the wealthy, who often control the resources, divide the resources among all of the people on the island.”

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