DEUS FEZ-SE MULHER (Conto de Natal 2012) – por Mário de Oliveira

Um café na Internet

logótipo um café na internet

 

 

 

 

 

Era uma vez uma rapariga chamada Maria que, aos 18 anos, se encontrava grávida. Lá no bairro onde morava, ninguém sabia quem era o pai da criança. Por isso, quando ela passava com a sua barriga grande, as más línguas da vizinhança diziam: Esta, se calhar, também vai dizer que ficou grávida por obra do Espírito Santo.

Maria ouvia estes insultos acompanhados de maldosas gargalhadas e estreitava ainda com mais carinho a criança que trazia no ventre. Os vizinhos desprezavam-na e só por isso é que não eram capazes de ouvir o que o pensamento de Maria andava a gritar a todo o povo e que dizia assim: Esta menina que trago no ventre, concebida pela força do amor que tenho à Humanidade, vai ser o maior presente que eu, como mulher pobre, poderei dar a todo o povo. Hei-de educá-la para o Amor e ela, um dia, quando mulher, vai fazer sua, ainda mais do que eu, a causa de todas as mulheres oprimidas do mundo, de todas as crianças e de todos os explorados. Um imparável movimento há-de então acontecer e ganhar corpo, impulsionado por ela, e que mudará a face da terra.

Maria, jovem mulher grávida sem marido, pensou isto com entusiasmo e como quem grita uma boa notícia para ser escutada pelo mundo inteiro.

Os vizinhos, porque a desprezavam, não ouviam o que Maria pensava. Ouviram-na algumas companheiras e alguns companheiros de outro bairro que, com ela, trabalhavam na fábrica, com ela, estavam organizados no respectivo Sindicato e que, tal como ela, também andavam grávidos de esperança de verem o mundo mudado. Disseram uns para os outros: O mundo ainda há-de ser diferente. A justiça e o pão, a liberdade e a paz, hão-de ser coisas tão palpáveis para todo o povo, como o sol que nos aquece e ilumina todos os dias.

Ouviram-na também as crianças do bairro, mesmo as que ainda andavam no ventre de outras mulheres como ela. Por isso todas essas mulheres grávidas estremeceram de alegria e disseram: Com esta menina que está para nascer de Maria, nasce também em todas as crianças do mundo a certeza de que está a chegar uma terra feita de simplicidade, de ternura, de carinho, de pão em abundância e de casas para todos.

Mas ouviram-na igualmente alguns «bufos» do patrão da multinacional onde Maria trabalhava e logo foram pô-lo de alerta. Disseram-lhe: É preciso cuidado com Maria. A barriga dela está cada vez maior e o que ela traz lá dentro não é uma criança como as outras. É uma espécie de menina-deus que vem para mudar a face da terra e acabar com todas as desigualdades. É ela própria quem anda por aí a dizer que dela sairá uma menina que, depois, vai provocar o levantamento de todas as mulheres oprimidas do mundo, assim como o levantamento de todo o povo marginalizado e de todas as crianças subalimentadas.

O patrão ouviu a denúncia. E, porque era um grande patrão, ficou mal-humorado. Nessa noite, não conseguiu jantar nem dormir. No dia seguinte foi ter com o ministro do trabalho e contou-lhe tudo. Todo o governo foi convocado de emergência e os ministros puseram-se de acordo em mandar matar aquela criança, logo que houvesse notícias do seu natal. Tudo, porém, seria feito com cautela, para não levantar suspeitas.

Maria, que era uma jovem mulher não descuidada, que era incapaz de gastar o tempo a fazer rendas ou a ver telenovelas, que lia os jornais e acompanhava com interesse todos os movimentos sociais e políticos para os interpretar em chave de libertação e de esperança, apercebeu-se da reunião extraordinária do governo e facilmente adivinhou a conclusão a que ela havia chegado. Logo tomou as suas providências. Contava igualmente com a solidariedade de algumas companheiras e de alguns companheiros, entre os quais se distinguia aquele que vivera com ela o acto de amor de que resultou ela ficar grávida e que só ela sabia quem era.

Os dias passaram, até que chegou a hora de Maria dar à luz. E teve uma menina muito linda, cheia de luz, que reclinou na cama onde, nove meses antes, havia sido ternamente concebida para ser dada ao mundo. E no corpo franzino da recém-nascida, ela logo viu todo o povo do mundo, feito de milhões de mulheres oprimidas, de crianças com fome, de milhões de homens marginalizados.

Na alegria de um natal assim tão fora do comum, as companheiras e os companheiros de Maria começaram a passar a notícia a todo o bairro e, depressa, toda a cidade era sabedora e ficou em grande alvoroço. Eis o que elas e eles diziam às outras pessoas: No bairro mais pobre da cidade, nasceu hoje uma menina que é a esperança do povo. A nossa presente situação de miséria e de abandono começa a entrar na fase de desaparecimento. Com esta menina-deus, já se iniciou um imparável movimento de libertação, que há-de ser coroado de êxito, à medida que todos os pobres do mundo quiserem fazer por isso.

O governo soube do sucedido, e mandou logo para o bairro pobre da cidade onde morava Maria, destacamentos de polícia e pôs todas as forças militares de prevenção, para impedir a fuga da menina-deus, filha da jovem mulher cujo marido ninguém conhecia e que ela de facto não tinha.

Os polícias bateram o bairro e prenderam muitos como suspeitos de lhe facilitarem a fuga ou de a manterem escondida. Chegaram mesmo a matar algumas crianças como represália. Mas o povo da cidade que fora sabedor da boa notícia do natal da menina-deus, não teve medo e recusou por completo colaborar com a polícia.

O governo decidiu então telefonar ao bispo da cidade, para que interviesse com a sua autoridade, até porque já se dizia à boca cheia que aquela menina acabada de nascer era deus feito mulher. Se a multidão do povo tomasse a sério esta notícia, seria o fim não só do governo, mas também dos patrões e inclusive das igrejas. Lá se ia por água abaixo a influência dos bispos e demais eclesiásticos, funcionários maiores duma religião cujo deus foi sempre masculino.

O bispo não conseguiu decidir nada sozinho, de tão atrapalhado que ficou. Convocou outros bispos de cidades menores e alguns padres mais influentes da sua diocese. No final, todos deliberaram solenemente: Essa mulher sem marido que deu à luz uma menina, fê-lo por obra do demónio. Jamais se ouviu dizer que deus se fizesse mulher. Pelo que decretamos, em nome do nosso deus, que essa mulher e a sua filha devem morrer. Quem as matar, até prestará um serviço ao nosso deus que está nos céus.

Maria, no seu esconderijo, ouviu estas decisões e não se espantou. Era para acabar com blasfémias como esta e com crimes como este, cometidos a coberto de deus e do estado, que aquela menina havia nascido. Por isso, no seu esconderijo, Maria exultou de alegria e cantou um hino revolucionário que falava em poderosos que haviam de ser derrubados dos seus tronos e em ricos que seriam despojados dos seus bens a favor de todas as pessoas e de todos os povos. E disse para todo o mundo: Com o natal desta menina, Deus fez-se mulher e uma nova era principiou na Humanidade. A partir de agora, a História entrou em contagem decrescente para o fim da opressão e da exploração de todas as mulheres, de todos os homens e de todas as crianças do mundo. Pelo que os patrões das multinacionais, mai-los seus governos e as suas igrejas têm os dias contados.

A cidade inteira, crianças incluídas, ouviu no Vento esta mensagem proclamada por Maria e saiu para as ruas a cantar e a dançar, de modo que os polícias e outras forças ao serviço dos poderosos não tiveram outro remédio senão fugir. Compreenderam, pela primeira vez na sua vida, que as armas que diariamente carregavam não tinham qualquer préstimo, sempre que o povo crescia na festa e na dança.

Nos dias seguintes, vieram desaguar na cidade trabalhadoras e trabalhadores de todos os cantos do mundo, de modo que a festa e a dança tomaram conta de todas as suas ruas e vielas. E de todas as bocas, como de todos os corações, erguia-se um hino que não era de nenhum país em especial, um hino que era de todo o povo que durante séculos havia conhecido a opressão e a marginalização.

O repórter que viveu o acontecimento, como num sonho, registou um pedacinho do poema, na crónica que nessa noite escreveu para ser editada no dia seguinte, no jornal onde trabalha. Diz assim: Bem unidos façamos / desta luta final / uma terra sem amos / a Internacional.

Leave a Reply