REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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A livre concorrência como uma forma de proteccionismo

Um texto curioso que me foi enviado por Philippe Murer , do Fórum Democratique  e que penso ser de Frédéric Lordon, de resto na foto.  O texto mostra à evidência que para os vândalos de Bruxelas todas as distorções são admissíveis e até desejáveis desde que salvaguardadas com uma pauta aduaneira aparentemente conforme às normas da OMC e com a garantia de que assim se baixam os custos e  se contraria a possibilidade de se aumentar  os salários. É aqui, segundo eles,  que a concorrência é necessária.    Sugiro-vos uma visite ao site de Philippe Murer  em : www.forumdemocratique.fr

Júlio Marques Mota

 Frédèric Lordon

“É a situação actual que deve ser chamada de  proteccionismo. O paradoxo que aqui defendo  é a posição de que  é a situação de livre-troca e sem distorção de concorrência que deve ser chamada de  proteccionismo. Porquê? Porque a concorrência livre e sem distorção só está  interessada nas  distorções de mercado, deixando de lado todas as outras distorções que são distorções de estrutura. Porque é medida que defendemos com unhas e dentes a concorrência,  o funcionamento do mercado livre  e sem distorção das regras da livre-troca, então passa-se a fazer actuar sobre  todas as outras distorções. Dentro da mesma Europa, temos as distorções monetárias: quando a Inglaterra desvaloriza a libra em 30% contra o euro, não é a protecção, isto? Quando a elite  salarial na Roménia, a que trabalha na Renault-Dacia, é paga a cerca de  300 € por mês, não é isto de facto protecção?

Quando  se colocam estas questões para traz das costas, porque se decidiu que era uma forma de vida colectiva e eu que esta valia  a pena ser defendida, um sistema de protecção social de que nós já vimos até que está feito em pedaços  e que, de  tempos a tempos,  se pensa que ficaria bem  defender  algumas normas ambientais, enquanto temos  a Polónia, que tem não o menor desejo de assumir o custo dessas normas  ambientais, não será isto uma forma de proteccionismo praticado pela  Polónia?

Quando temos, no coração da União Europeia, estados  como a Estónia e a Macedónia que têm uma taxa de 0% sobre os lucros reinvestidos, não é isto  uma protecção de facto?

As distorções estão a  proliferar, mas são as distorções da estrutura que não se vêem  ao focarmos a nossa atenção exclusivamente sobre a distorção das regras  comerciais  onde se centra habitualmente a análise sobre proteccionismo. E, ao fazê-lo desta forma obviamente, é para aplicar tanto mais violentamente as distorções que se negaram e se esconderam intencionalmente por detrás do palco, É por isso que eu digo: a competição não falseada, não distorcida, é proteccionismo. Vivemos num mundo de facto  proteccionista, por uma razão bem simples e bem clara, que é a de que vivemos num  mundo diferenciado. Um mundo onde existem diferenças é um mundo em que há proteccionismos, de facto. (…) A única coisa possível é negociar as distorções fazendo com que sejam compensadas por  outras. E com isso fizemos um mundo em que a questão do proteccionismo é evacuada como o falso problema por excelência. “(Frédéric Lordon)

O resto da conferência é o mesmo nível de virtuosismo dialético (ver em especial a parte sobre a globalização como um projeto político).

«Un monde où il y a des différences est un monde dans lequel il y a des protections de fait. (…) La seule chose possible c’est de négocier des distorsions qui en compensent d’autres. Et ça nous fait un monde dans lequel la question du protectionnisme est évacuée comme le faux problème par excellence. » (Frédéric Lordon)

Le reste de la conférence est au même niveau de virtuosité dialectique (voir notamment la première partie sur la mondialisation comme projet politique).

la vidéo dans le blog

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