Eram horas de grande intimidade, de convívio de dois espíritos ao mesmo tempo afins e opostos. E Cerejeira admoestava Salazar: não devia, se não pretendia casar, namoriscar uma das filhas de Guilherme Moreira, que da janela em frente dos Grilos lhe lançava olhares e sorrisos.»
Mais tarde, na comemoração dos 45 anos de Salazar, Cerejeira fala com saudade de uma «estreita vida comum durante tantos anos, comunhão verdadeira de espíritos e de corações».
Comunhão de corações entre dois amigos que se mantiveram para sempre solteiros com Cerejeira incansavelmente empenhado em servir de escudo às setas do Cupido de Santa Comba Dão.
Mas, não obstante essa obstrução, fala-se de várias mulheres que Salazar terá deixando a soluçar de amor.
Fala-se de uma Felismina de Oliveira, jovem professora de quem Salazar recebeu as primeiras explicações.
Fala-se de uma Júlia Perestrelo, filha dos patrões de seu pai, jovem aluna a quem Salazar deu explicações.
Fala-se de uma série de Marias: Maria Laura, Maria Emília, Maria da Conceição, e até da governanta Maria, etc.
As mulheres na vida de Salazar são algo que viveu e morreu na lenda de um celibatário de quem se dizia «ter casado com a Nação».
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É impossível terminar o presente capítulo sobre Salazar e as mulheres, sem dedicar algumas palavras aos mais recentes episódios que vêm trazer António de Oliveira Salazar para um nível de apreciação até há pouco julgado inconcebível.
Depois de se sagrar vencedor num concurso televisivo que visava escolher o maior português de sempre, Salazar é revelado num outro canal da televisão portuguesa como uma espécie do melhor amante de sempre entre os governantes do Estado Novo.
Com uma imagem oficial religiosamente salvaguardada como intangível durante largas dezenas de anos, António de Oliveira Salazar é largado na praça pública coberto de predicados que abalam de alto a baixo tudo o que estava convencionado como parte mais íntima da sua vida.
Quase santificado enquanto vivo como modelo de pureza e de devoção inupta, vê-se, depois de morto, titulado de fogoso pai-d’égua, estouvado por aventuras mirabolantes de caça concubina.
Numa estroinice pegada e sem limites nos anelos mais imprevisíveis, António de Oliveira Salazar é, afinal, nada mais, nada menos, que um vulgaríssimo pecador na melhor linhagem do grande Pai Adão, fundador histórico do paradisíaco pecado original.
Ávido por ferrar o dente na tentadora maça que levou à desgraça de Adão e de Eva, Salazar desata à dentada de tudo o que é fruta fresca seja maçã ou «outra fruta».
Beato até ao tutano, Salazar é promovido a doidivanas por saias numa sequência de registos recentemente vindos a público.
Da noite para o dia, passa de apóstolo virginal a predador insaciável.
Da professora à aluna; da pianista à jornalista; da Maria L à Maria etc., é um ver se te avias nesta recente descoberta da figura do tutor do Salazarismo.
Solteiras como Felismina de Oliveira, em 1905; casadas como Maria Laura, em 1930; viúvas como Carolina Asseca, em 1944; divorciadas como Chirstine Garnier, em 1951 fazem parte do rol das mulheres que Salazar terá embeiçado ao longo da vida.
De uma Maria da Conceição recebia pinhões, ameixas e trouxas, quando não estavam no quarto de um hotel no Estoril. Para a jornalista Chirstine Garnier enviava-lhe tigelas de marmelada e pão-de-ló quando estavam longe um do outro.
Apesar dos seus rigores morais e da severa austeridade com que administrava os dinheiros, Salazar não se inibiu de mandar o embaixador em Paris comprar um anel de 420 dólares com que presenteou a jornalista francesa com quem terá mantido um romance ao longo de cinco anos.
Quem havia de dizer que o fervor afectuoso do homem que chegava ao rigor de fazer questão de pagar renda por usar o Forte de São João do Estoril nas férias, era afinal tão generoso e romântico com as suas favoritas!
Esta nova faceta do homem sempre conotado com os melhores pergaminhos da virtude cristã traz uma inevitável mudança na sua imagem pública.
Num passe de magia, Salazar deixa de ser o ditador inflexível de Portugal para se apresentar como o apaixonante Romeu de Santa Comba.
Se amava!? Amava baixinho… Tão baixinho que foram precisos todos estes anos para vir à tona esta faceta que colide com tudo o que tem sido escrito.
Com a vida privada como tema de vários livros dados à estampa recentemente, Salazar está na obra de Felícia Cabrita, Os Amores de Salazar; em Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta; em Os Meus 35 Anos com Salazar, de Joaquim Vieira, e em Salazar Visto Pelos Seus Próximos, de Jaime Nogueira Pinto.
Outros títulos abordam a mesma matéria sem trazerem nada de novo à questão da vida pessoal daquele que foi «eleito» «o maior português de sempre».
Nesta «eleição» televisiva, Salazar está acompanhado de Álvaro Cunhal no topo das preferências dos portugueses votantes no concurso.
Estranha conclusão que põe em destaque duas personagens tão distantes e tão contrárias.
Salazar não surpreende. Por aquilo que foi o seu tempo e por aquilo que está a ser o tempo de hoje, tudo era expectável.
Como político já se sabia qual era a amplitude da sua presença na História.
Como homem não se ficou a saber mais do que recomenda o bom senso e o rigor da credibilidade.
Nada dos seus amores e das suas amantes transporta créditos suficientemente seguros e convincentes.
Certo, certo…é que na sua ementa favorita a sopa é o caldo verde; o peixe é a petinga frita; a carne as costeletas fingidas e o doce os castelos de marmelada.
Certo também, é que – segundo um exame a que teve de ser submetida num lar em Benfica – a governanta Maria de Jesus morreu como veio ao mundo: virgem.
